Radicais sem raiz

Um estranho desdobramento está ocorrendo na política americana. À medida que a ideologia de direita endurece nas fileiras do Tea Party, a de esquerda está desaparecendo. Embora os seguidores do Tea Party estejam constantemente chamando o presidente Obama e os democratas de socialistas empedernidos, está claro que estão meramente projetando a própria militância ideológica nos oponentes. A verdade é que os liberais americanos há muito vêm sendo uma mistura "centrista" de pragmatismo e oportunismo que tem nas muitas concessões de Obama aos críticos do seu plano de saúde seu exemplo mais vívido.

LEE SIEGEL*, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2013 | 02h08

O resultado do ecletismo liberal em face do dogmatismo conservador é uma quase total falta do espírito de protesto que precisa animar qualquer reforma política. Reforma é protesto, e o protesto tem um requisito fundamental para ser eficaz. Ele precisa ser uma reação contra uma autoridade complacente ou corrupta muito específica. Nos Estados Unidos de hoje, contudo, ficou quase impossível concentrar o protesto numa autoridade específica. Isso porque toda autoridade se tornou suspeita.

Considerem-se as duas figuras hoje mais associadas ao espírito de protesto: Edward Snowden e Julian Assange. O fato é que nenhum dos dois está protestando contra algo em particular. Ambos estão protestando contra tudo em geral. O que eles parecem odiar é a autoridade em si, independentemente de ela ser benigna ou maligna.

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Deixemos de lado a questão de se a Agência de Segurança Nacional (NSA, pelas iniciais em inglês) de Obama cometeu atos ilegais ao espionar líderes estrangeiros e seus próprios cidadãos. (Mas, agora que um conselho de especialistas jurídicos nomeados pelo próprio Obama decidiu que a NSA violou a Constituição, Snowden deveria seguramente ter permissão de voltar para casa sem ser processado.) Os motivos de Snowden para vazar essa informação não tiveram nada a ver com sua visão de uma sociedade justa, seu ultraje com um particular sistema político ou econômico, sua indignação com uma particular injustiça. Ele simplesmente não gostou do fato de que pessoas com autoridade agissem secretamente. Não pareceu se preocupar se o que elas fizeram foi legítimo ou não.

O mesmo vale para Julian Assange, cujos vazamentos, diferentemente dos de Snowden, com frequência não revelaram nenhum possível abuso de poder. Assange vazou segredos oficiais meramente porque eles eram oficiais, e secretos. Isso me fez pensar no famoso ladrão de banco Willie Sutton, a quem perguntaram, depois que ele foi preso, julgado e condenado, por que ele roubava bancos. "Porque", explicou Sutten, "é onde está o dinheiro." A confidencialidade oficial é onde a autoridade está.

De novo, não estou interessado na legalidade ou mesmo na ética do que Snowden e Assange fizeram. Os advogados e políticos que cuidem disso. O que me interessa é como ambos refletem a política de protestos contemporânea, e o modo com que eles a afetam.

Pois, enquanto os primeiros radicais políticos tomaram as ruas para protestar contra abusos de poder muito particulares - direitos civis, pobreza, a Guerra do Vietnã, direitos de mulheres -, os radicais de hoje não são, estritamente falando, radicais. Ser radical significar querer mudar algo na raiz; é por isso que os radicais do passado enchiam as ruas, porque era nas ruas que eles podiam encontrar as raízes da existência cotidiana. Para encontrar uma raiz, porém, é preciso primeiro identificar as estruturas que cresceram dela. Só podemos erradicar o preconceito racial, a miséria econômica, a guerra ilegal, se nos concentrarmos nas particulares instituições por meio das quais elas prosperam. Mas, como os dissidentes políticos de hoje não são focados em alguma instituição particular, falta-lhes a capacidade de encontrar algo para desenraizar. É por isso que, mesmo no auge do movimento Occupy, nenhum corpo significativo de manifestantes tomou as ruas.

Segredo, opacidade: são essas as formas atuais de autoridade que os dissidentes políticos tomaram como alvo. E eles as perseguem onde quer que as encontrem. O problema é que essas são qualidades abstratas que se podem encontrar incorporadas em tudo, de agências governamentais ao relacionamento íntimo entre cidadãos comuns. O segredo foi o sangue vital do regime de Stalin, por exemplo; foi também o sangue vital de todos os grupos que se opuseram a ele. Para os radicais de ontem, o segredo de governos ruins foi ruim porque os governos eram ruins. Para os dissidentes políticos de hoje, o segredo de um governo, mesmo se esse for um governo benigno, é ruim, ponto.

Ao que parece, o que enfurece os snowdens de hoje é que as formas de poder não se adaptaram às novas formas de comunicação; o que os enfurece é o fato de que a transparência da internet não se tornou universal. Mas eles não poderiam se importar menos com a natureza moral de alguma forma de poder particular. Parafraseando Groucho Marx, seja ele qual for, eles são contra. Meu medo é que, quando toda autoridade é suspeita, não haverá nenhuma distinção entre tipos de autoridade. Quando telegramas diplomáticos secretos provocam tanta ira quanto os assassinos secretos a mando de um tirano, o tirano agirá com impunidade em meio a toda distração. Em vez do ressoar dos gritos de protestos, as ruas estão silenciosas, exceto pelos cliques de um milhão de teclados abelhudos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É ESCRITOR, CRÍTICO CULTURAL AMERICANO. ESCREVE PARA THE NEW YORK, TIMESTHE WALL STREET JOURNAL, WWW.THENEWYORKER.COM

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