Charles Dharapak/AP
Charles Dharapak/AP

Radical moderado

Com duas primárias ganhas, o 'centrista' Mitt Romney abre vantagem sobre a direita radical republicana na corrida pela candidatura à presidência dos EUA e ganha apoio da pragmática liderança conservadora

LÚCIA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h10

E difícil acreditar, mas houve um tempo em que o apoio ao Ato dos Direitos Civis de 1964, que tornou ilegal a discriminação contra negros e mulheres, recebeu mais apoio proporcional do Partido Republicano que do Partido Democrata (os democratas tinham bases resistentes no sul racista). Esse Partido Republicano não existe mais, e a atual corrida presidencial é um retrato fiel da guinada à direita do partido que já abrigou o abolicionista Abraham Lincoln.

Geoffrey Kabaservice acaba de contar a evolução que reduziu o Partido Republicano a um movimento conservador em Rule and Ruin: the Downfall of Moderation and the Destruction of the Republican Party, from Eisenhower to the Tea Party (Governar e Arruinar: a Queda da Moderação e a Destruição do Partido Republicano, de Einsenhower ao Tea Party). O autor foi professor de história na Universidade Yale e hoje escreve em tempo integral. Seu livro foi recebido como um bote salva-vidas de argumentos por órfãos como David Frum, ex-redator de discursos econômicos da Casa Branca de George W. Bush, respeitado analista político e hoje tratado como pária por ex-colegas porque acusou o partido de perder contato com a realidade.

"Não é possível ser um político republicano bem-sucedido hoje, nos Estados Unidos, sem ridicularizar o aquecimento do clima e o evolucionismo", lamenta Kabaservice. O notório centrista Mitt Romney, ex-governador de Massachusetts, ainda o candidato "viável" e à frente dos adversários, faz a alegria dos comediantes de fim de noite com seus contorcionismos para transmitir uma imagem de conservadorismo social que não bate com nenhum outro momento de sua vida política ou profissional.

E ainda há o obstáculo de ser coroado primeiro candidato mórmon à presidência. Kabaservice acha que Romney vai lutar para manter sua religião fora das manchetes, apesar dos evangélicos do Sul, que não consideram o mormonismo cristão. E Obama seria o último a atacá-lo por suas convicções religiosas.

Nesta entrevista ao Aliás, Kabaservice se diz disposto a ouvir Romney, se ele for o candidato. Acha que Barack Obama não apresentou argumentos convincentes ao Congresso e ao público americano pelas decisões que tomou. Mas, se continuar a detectar radicalismo de direita na eleição geral, não vê escolha: vai votar no democrata.

A vantagem obtida por Mitt Romney em Iowa e New Hampshire confirma sua tese de que há um número expressivo de eleitores moderados entre os republicanos?

Eu acho que, se você observar o eleitorado nacional, as pesquisas mostram que os moderados estão presentes. Mas os conservadores assumiram o controle completo da infraestrutura partidária. Os deputados e senadores em Washington e os membros das legislaturas locais são obrigados a assumir o tom conservador. Nesta corrida, Romney é o mais moderado, com exceção de Jon Huntsman, ex-governador de Utah e ex-embaixador do governo Obama na China.

Uma questão enfrentada pelo republicano centrista não seria semelhante ao do democrata liberal? Por definição, eles não gostam de confronto, extremismo ou de reduzir o debate político a slogans simplistas.

Sim, você tem razão. O republicano moderado não quer ficar brigando na linha de frente. O moderado simplesmente não tem a mesma visão de mundo do conservador. Mas a liderança nacional do Partido Republicano, essa eu diria que é um pouco mais pragmática, não se interessa por purismo ideológico. E, por isso, está apoiando Romney.

Esta campanha tem sido peculiar e já inspirou até a expressão ABR - anybody but Romney (qualquer um menos Romney). O candidato, tratado como patinho feio pelos conservadores, vende a imagem de 'elegível'. Afinal, o que é elegibilidade hoje no país?

(Risos) Vamos concordar que, quando os partidários do Romney fazem esta alegação - "ele tem condições de ser eleito" -, não estão sendo muito lisonjeiros! É como dizer que dá para tolerar um prato de comida. Mas a intenção deles é dizer: Romney é o que tem uma postura presidencial, um programa plausível, pode se sustentar num debate com Obama e tem mais chances de ser aceito em nível nacional.

Comentaristas políticos têm repetido que esta eleição vai ser decidida pelos independentes. Eles ajudaram a eleger Obama em 2008. O senhor concorda com a previsão?

Não acredito que ninguém possa prever isso com segurança porque não acredito que exista tal coisa: o eleitor verdadeiramente independente. Ele pode não ter registro em um dos dois partidos, mas tem uma certa constância em suas posições. Em meio a tanto descontentamento com a economia, acho que o Romney tem mais chance de atrair esses chamados independentes do que um candidato que fique martelando a agenda socialmente conservadora.

Se Romney for confirmado candidato,  ele e Obama não estariam correndo atrás dos mesmos dólares?

Até certo ponto, sim. Ambos vão fazer fundraising com profissionais liberais, com Wall Street e com grandes corporações. Desta vez, desconfio que não haverá o apoio popular maciço, das pequenas doações, que Obama explorou tão bem pela internet. Não sei se vai haver uma nova onda de engajamento popular.

O Tea Party demonstrou força eleitoral na retomada do controle republicano da Câmara de Deputados, em 2010, e radicalizou nas negociações sobre a dívida pública em 2011. O grupo ainda tem o mesmo peso na eleição presidencial?

O Tea Party é um fenômeno interessante. Sabemos que trouxe grande impulso para a direita. Acredito que a maioria dos membros, embora sua retórica seja a da responsabilidade fiscal, seja, na verdade, de conservadores sociais. Eles são mais velhos e querem manter o status quo de certos benefícios, como o Social Security (previdência) e o Medicare (seguro saúde para quem tem mais de 65 anos). O que eles querem cortar são os benefícios para os pobres. Eles têm raiva da elite financeira e corporativa, foram contra o resgate de Wall Street e da indústria de automóveis em Detroit. Às vezes fica até difícil distingui-los do movimento Occupy. Por isso vemos candidatos como Newt Gingrich, Rick Santorum e Rick Perry explorando esse ressentimento de classe na campanha.

Então o Tea Party ainda pode criar problemas para um presidente Mitt Romney.

No momento, o susto maior seria o libertário Ron Paul concorrer como o terceiro candidato, numa chapa independente. Esse cenário pode aumentar as chances de reeleição de Obama. Ron Paul atrai gente de direita, mas de esquerda também, porque propõe trazer todas as tropas para casa e quer repelir leis antidrogas. Ele recria um pouco a dinâmica de Ross Perot, em 1992, que ajudou Bill Clinton a se eleger. Mas um governo Romney, apesar dos obstáculos do Tea Party, poderia virar a balança para os moderados com indicações para o ministério e um eventual juiz da Suprema Corte.

No exterior, os aplausos ao discurso isolacionista do libertário Ron Paul, contra qualquer ajuda externa americana, assustam.

Ele é mestre em cortejar um velho tipo de conservador ao estilo do Robert Taft (1889-1953), o ex-senador de Ohio que era o principal inimigo do New Deal, de Franklin Roosevelt e simbolizava a aversão ao internacionalismo de Dwight Eisenhower. Paul está claramente satisfazendo esses impulsos de isolamento que foram alimentados pelas aventuras militares da última década. Mas note que ainda há enorme simpatia popular pela figura do soldado, nesse exército voluntário, mesmo sabendo que cada soldado enviado para lutar no Iraque ou no Afeganistão custou aos cofres públicos uma média de US$ 1 milhão. Nós estamos vivendo um momento de populismo raivoso, expressado tanto pelo Tea Party quanto pelo movimento Occupy. Ambos são contra o establishment e veem um país no qual é a elite que se dá bem. A outra fonte do isolacionismo, claro, é a China e a globalização, que provocou tanto desemprego. E não falo só de empregos em manufatura. A China hoje é um grande mercado de trabalho para profissionais liberais.

Se Santorum, Gingrich e Perry continuarem na disputa, mesmo com poucas chances, atacando Romney, o senhor acredita que ele se beneficie por afiar seu arsenal no debate de outono com os democratas?

É uma faca de dois gumes. Quanto mais Romney precisa se defender, melhor ele se prepara. Um bom exemplo é seu passado na empresa Bain, de investimentos de risco, que está sendo atacado com os anúncios populistas dos adversários. Mas o perigo é: se ele continua sob ataque, vai se deslocando ainda mais para a direita e fica difícil voltar ao centro na eleição geral. Veja que um resultado do advento do Tea Party foi a perda de autoridade da liderança do Partido Republicano. Não existe mais disciplina para forçar os outros aspirantes a sair da frente para Romney passar. A única figura nacional que poderia ter esse papel seria George W. Bush, mas o Tea Party não suporta Bush. O fato é que o Partido Republicano é hoje muito menos unificado. Eu moro no Estado da Virgínia. Só Mitt Romney e Ron Paul conseguiram se inscrever a tempo nas primárias do Estado. Os outros perderam o prazo por desorganização. Isso me sugere um amadorismo, uma falta de disciplina na máquina conservadora.

Imagine a campanha do outono, com Romney confirmado como o candidato republicano. Como seria o confronto entre Barack Obama e Mitt Romney?

O interessante é que são dois centristas. Os dois são muito inteligentes, têm boa educação acadêmica, falam bem. E controlam partidos que não refletem suas características. Por suas personalidades, acredito que vá haver pouca interação pessoal. Tanto Obama como Romney não gostam do varejo na política, do cara a cara com o eleitor. Obama não tem paciência nem para convidar um adversário do Congresso para um café na Casa Branca. É o oposto de Bill Clinton. Romney vai atrás do currículo do Obama durante o primeiro mandato, não vai atacá-lo pessoalmente. A pancadaria virá dos super-PAC's (os comitês da ação política que não têm limite de gastos para apoiar qualquer candidato). O super-PAC que apoiar os democratas vai exibir anúncios dizendo que os republicanos querem demolir todas as instituições progressistas do país. O super-PAC que apoiar Romney vai pintar a caricatura do Obama socialista.

Por que o Partido Republicano trata Obama com tanto desrespeito? Seria racismo?

Sim, o racismo contribui, além de seu nome exótico e sua biografia incomum. Mas o partido hoje seria radicalmente contra qualquer democrata no poder. Apesar da caricatura promovida pela mídia conservadora, Barack Obama é um centrista muito mais próximo do presidente Dwight Eisenhower, um republicano, do que de outras figuras históricas do Partido Democrata. As pesquisas mostram que Obama ainda é uma figura querida. Mas a campanha na mídia tem sucesso em espalhar desinformação. Por exemplo: Mitt Romney afirma que Obama é o presidente que vive se desculpando pelas ações americanas no mundo. Isso me perturba porque não é verdade. O problema é que o país está muito polarizado. Os antigos adversários políticos hoje se veem como inimigos, cada lado acusa o outro de ser antiamericano.

GEOFFREY KABASERVICE, PROFESSOR DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE YALE E AUTOR DE RULE AND RUIN: THE DOWNFALL OF MODERATION AND THE DESTRUCTION OF THE REPUBLICAN PARTY, FROM EISENHOWER TO THE TEA PARTY

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