Cicero Dias
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Raimundo Carrero une sagrado e profano em 'Colégio de Freiras'

Livro narra história de Vânia, que após perder a virgindade, sem ser casada, é enviada pelo pai para um convento no Recife

Ney Anderson*, Especial para o Estado

20 de julho de 2019 | 16h00

Depois de quatro anos sem lançar livros, Raimundo Carrero volta com a novela Colégio de Freiras (Editora Iluminuras), um livro-denúncia sobre o tratamento cruel com as mulheres brasileiras. Conta a história de Vânia, que após perder a virgindade, sem ser casada, é enviada pelo pai para um convento no Recife, com regras rígidas de uma colônia penal. A jovem fica encarcerada por 20 anos, até conseguir fugir. Mas depois de encontrar refúgio em uma seita religiosa montada no centro da capital pernambucana, é encontrada pelo pai, doutor Vesúvio, e levada até o bordel que dá nome a novela. É lá que ela decide fundar uma congregação em defesa da mulher. 

A história se passa nos anos 1960 e termina nos anos 1990. O nome Colégio de Freiras, anteriormente chamado de Convento Drinks, é uma ironia, porque a cidade vivia cheia de normalistas, e também para atrair a clientela religiosa, já que os arredores eram povoados de templos. O bordel, inclusive, foi batizado pelo bispo, que também era sócio, e a dona Quermesse (proprietária) assume ares de Madre Superiora do estabelecimento, que fica na Rua da Concórdia, no centro do Recife, onde Carrero gosta de ambientar os seus enredos. 

O livro é divido em três partes: a fúria das garras; colônia penal; congregação das guerreiras de Daniel. Abre com a vida de Vânia sendo narrada por Milena, amiga de prostituição, que, aliás, é quem escreve todo o livro. As duas se conhecem desde cedo, na época da escola primária. Vânia sempre foi contestadora da moral e dos bons costumes, como afirma a narradora. 

O pai Vesúvio, homem rude, proíbe a filha de falar em casa a palavra “minissaia”. Roupa que representou o confronto simbólico contra a repressão. Em determinado momento ela é brutalmente agredida pelo pai por simplesmente pronunciar o nome da peça de vestuário. Mesmo assim, Vânia não deixa de afrontá-lo. E a mãe não tem como reagir. 

Na parte seguinte, durante a prisão no convento, a voz de Vânia assume o controle em primeira pessoa. E aí o leitor é levado por uma mente em estado permanente de confusão. O convento também é um local de repressão, ainda pior do que a própria casa, com o padre confessor gritando com as encarceradas diariamente, chamando as mulheres de pecadoras. Um universo de castigos e orações para o esquecimento dos desejos pecaminosos. 

A narradora fica presa durante duas décadas para “purificar a alma”. “Cubra-se enquanto toma banho, entendeu? Vista a toalha se esquecerem o vestido”, diz uma das freiras do convento para Vânia.

Na terceira parte da obra ela consegue fugir depois que um incêndio consome o convento e encontra refúgio na igreja do profeta Jeremias (personagem presente em outras obras de Carrero), onde algum tempo depois é encontrada pelo pai e levada ao cabaré de dona Quermesse. É nesse lugar que ela decide fundar a Congregação das guerreiras de Daniel (O profeta) para defender o direito ao amor e ao sexo.

O paralelo do confinamento no convento e em seguida a vida no bordel são bastante representativos. Enquanto o primeiro encarcera o corpo, e também tenta controlar a mente, o segundo é justamente o oposto. Embora ela também não se submeta só porque é uma prostituta. O corpo pode até servir aos desejos dos homens, ficando preso de certa forma, mas a mente da protagonista está sempre solta, com ideias revolucionárias. 

Vânia é, por assim dizer, uma militante política no sentido mais amplo do termo. Não por vestir a camisa de partidos, mas por levantar a bandeira por uma causa. Nesse caso, a feminista. Ela é tão incomum que se acha de outro planeta. “Sou a invenção de Abdon, sem carne nem sangue e, portanto, e ao meu modo, extraterrestre. Não nascera em um ventre comum, e ganhei a forma de uma mulher para combater a injustiça”, diz a protagonista. 

Colégio de Freiras, com bela capa da designer Hallina Beltrão, é um texto cheio de vida, com diálogos viscerais. Uma prosa ao mesmo tempo elegante e potente para falar de mulheres martirizadas pela sociedade. Carrero criou uma personagem densa para discutir um assunto muito atual, que é a repressão sofrida pela mulher através do tempo. Mesmo se passando entre os anos 1960 e 1990, a novela infelizmente é atual, embalada em um lirismo que segura o leitor pela mão em capítulos curtos. Embora o tema seja pesado, de reflexão e análise comportamental, o texto é leve. O livro tem outra pegada, mesmo sendo claramente um texto de Raimundo Carrero.

O escritor pernambucano, dessa forma, enriquece a sua fauna de personagens excluídos, sobretudo de mulheres fortes como Bernarda Soledade, Tia Guilhermina, Esther, Raquel, Camila e tantas outras do universo carreriano.

Com esse livro, um dos melhores do autor, ele levanta mais uma peça da sua cátedra literária, reforçada com uma linguagem poderosa e de extrema sensibilidade. Nas páginas finais, por exemplo, o uso do futuro do pretérito representa a loucura da personagem, que entre frevos e maracatus segue a sua jornada evocando um cortante poema de Sylvia Plath.

Nessa obra da maturidade, dedicada a Marielle Franco, em uma homenagem que se estende também a todas as mulheres do Brasil, Carrero prova que um texto de ficção não precisa (e não deve) ser apenas entretenimento pelo simples entretenimento. Nos trabalhos do autor, isso nunca aconteceu, na verdade. As denúncias e questionamentos, dos mais variados, sempre estiveram em suas obras. 

Como tem feito desde a sua estreia em 1975, com o romance A História de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão, Raimundo Carrero colocou mais uma vez o dedo em uma ferida que está longe de cicatrizar. 

*NEY ANDERSON É JORNALISTA, CRÍTICO LITERÁRIO E EDITOR DO SITE DE LITERATURA ‘ANGÚSTIA CRIADORA’

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