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Ré maior

Pianista ucraniana é proibida de solar em orquestra. Seu descompasso: tuitar pró-Putin

João Marcos Coelho, O Estado de S. Paulo

18 Abril 2015 | 16h00

Vivemos num mundo em que as pessoas não são penalizadas apenas, como seria justo, por eventuais erros ou negligências em sua atuação profissional. Somos punidos com frequência maior por fatos extraprofissionais. Injustiça, portanto, perversa. Quando o pobre do artista se dá o direito de falar publicamente como cidadão, aí é que a porca torce mesmo o rabo. Imaginem só, artista se arrogando o direito de pensar. 

A loira, bela e pensante pianista ucraniana Valentina Lisitsa, nascida em Kiev 41 anos atrás e hoje radicada nos EUA, vive um tsunami nas redes sociais. Ela tocaria este mês o segundo concerto para piano de Rachmaninov com a Orquestra Sinfônica de Toronto, no Canadá. No dia 6, sua apresentação foi cancelada devido a suas posições políticas pró-Rússia no conflito com a Ucrânia, expostas no Twitter e no Facebook. Valentina é etnicamente russa e entende que a imprensa ocidental transformou em anjos os corruptos dirigentes da nova Ucrânia; e em demônios destruidores os russos. Acabou recebendo para não trabalhar. Justificativa dos dirigentes da orquestra: patrocinadores ameaçaram debandar caso o concerto fosse mantido. Convidado, um pianista que a substituiria aceitou e em seguida voltou atrás, alegando bullying na rede.


Na web e ao piano, Valentina é mesmo uma campeã. Só no YouTube, ela contabiliza mais de 70 milhões de acessos e 130 mil assinantes. Lançou-se de forma independente com três DVDs em 2007. Um deles, com os 24 Estudos de Chopin, liderou por muitos meses as vendas da Amazon. É a artista clássica com maior exposição na web.

Noves fora os xingamentos, ela vem ganhando a parada. Verdade que vez por outra surge um celerado chamando-a de “puta paga pelo Kremlin”. Como qualquer ser humano, Valentina apenas exerce seu direito de livre expressão. Ou, como ela mesma disse no Facebook, em longo e emocionado texto que abre com um selfie dela amordaçada, “Toronto Symphony: let Valentina play!”. Chama de vida dupla a que levou no último ano: “Havia eu - a pianista ‘célebre’ pulando de concerto em concerto no mundo inteiro, aprendendo novas peças, encontrando-me com fãs, gravando e dando entrevistas. Mas havia outra ‘eu’: não a musicista, mas um ser humano comum - a filha, a mãe, a esposa. E esse ser humano vê o país da minha infância, de meu primeiro amor, indo rapidamente para o abismo. Crianças morrem em bombardeios, e senhoras idosas de fome, pessoas são queimadas vivas... O pior que pode acontecer a um país é a guerra fratricida, vizinhos vendo-se uns aos outros como inimigos a serem exterminados”. 

No mesmo Canadá onde essa absurda censura aconteceu, outra orquestra, a Filarmônica de Calgary, comandada por um brasileiro, o maestro Roberto Minczuk, confirmou os dois concertos programados com Valentina para os próximos 5 e 6 de junho. Ponto para Minczuk, o primeiro a trazê-la ao Brasil quatro anos atrás, para concertos com a Orquestra Sinfônica Brasileira.

O episódio dá a medida de como é complicado seguir a regra básica de George Orwell: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”. 

Há outros dois casos ruidosos aparentados, nos quais grandes músicos sofrem bullying por estarem do lado errado segundo o cânone midiático ocidental. Uma é a pianista venezuelana Gabriela Montero, radicada nos EUA, que promove uma guerrilha contra o chavismo na web. Montero sofre bloqueios silenciosos, sobretudo nos convites para tocar com orquestras.

O outro é o mais midiático dos maestros russos, Valery Gergiev, 61 anos. Ele comanda a Orquestra Sinfônica de Londres, é diretor do Teatro Mariinsky e maestro do Metropolitan Opera House de Nova York. Afilhadíssimo de Putin, tanto que o presidente é padrinho de seus filhos, pena com hostilidades por onde passa na Europa e EUA.

Musicalmente, eles são excepcionais. Crucificá-los por posições políticas é misturar alhos com bugalhos de maneira simplória. Tanto quanto um internauta que, no dia 7, mandou Valentina pra Moscou: “Toque por lá. Rússia, vodca, balalaica. Não há lugar para você no mundo normal”. Normal só se for pra você, cara-pálida.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL E AUTOR DE NO CALOR DA HORA - MÚSICA E CULTURA NOS ANOS DE CHUMBO (ALGOL)

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