Reagentes e não reagentes

Para entender essa megalópole, tornou-se obrigatório compreender o universo do crime - aquele tema de mau gosto que preferimos esquecer para vivermos melhor

BRUNO PAES MANSO , O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h10

Se fosse pedido para cada morador de São Paulo descrever a cidade em que vive, viriam 10 milhões de narrativas distintas. Há uma São Paulo por habitante, que normalmente enxerga a cidade a partir de seu dia a dia. Essas visões, contudo, serão sempre superficiais quando restritas ao mundinho de cada um.

É preciso olhar além do próprio umbigo para descobrir uma São Paulo profunda. Formada pelo choque de milhões de visões de mundo em disputa, o resultado desses conflitos revela a São Paulo real, comum a todos. Para entender essa megalópole em toda sua complexidade, cada vez mais se tornou obrigatório compreender o universo do crime - aquele tema de mau gosto que preferimos esquecer em um canto obscuro da cabeça para vivermos melhor.

A incursão pelo mundo das sombras e da realidade paulista vem sendo guiada com a ajuda do jornalista Josmar Jozino, de 53 anos, autor do livro Xeque-Mate - O Tribunal do Crime e os Letais Boinas Pretas. Guerra sem fim (Editora Letras do Brasil). É o terceiro título da trilogia do autor, repórter policial atualmente no jornal Agora São Paulo.

Ao longo de sua carreira, Jozino documentou como nenhum outro a trajetória do Primeiro Comando da Capital (PCC) e os meandros do crime na cidade. Neste último livro, o jornalista usa sua narrativa enxuta e precisa para direcionar seus holofotes sobre outros protagonistas da cidade em choque: os integrantes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), ou boinas pretas. Depois de maio de 2006, época dos ataques do PCC a policiais, eles passaram a entrar em conflitos recorrentes com integrantes da facção.

Ao longo de 20 capítulos, o jornalista documenta os principais episódios que, quando editados lado a lado, revelam um quadro assustador das armadilhas criadas pelas próprias autoridades encarregadas de controlar o crime. Sem se dar conta, os responsáveis pela segurança parecem ter engatilhado uma bomba-relógio prestes a explodir.

Uma cidade violenta é resultado da incapacidade das instituições e da população em administrar os choques entre seus moradores. As prisões, para os conflitos criminosos, são soluções clássicas. Em São Paulo, contudo, há mais de 30 anos, o extermínio dos suspeitos tornou-se uma alternativa vista como eficaz, que costuma receber aplausos de muita gente.

Foi o que ocorreu na semana passada, depois de uma ação da Rota em Várzea Paulista, onde nove pessoas morreram e nenhum policial foi ferido. As vítimas foram abordadas enquanto participavam de um tribunal informal do PCC em que julgavam um suposto estuprador. Em vez de cautela, as autoridades expressaram euforia: "Quem não reagiu está vivo", disse o governador Geraldo Alckmin.

Jozino explica como esse pode ser só mais um capítulo de uma novela iniciada depois de uma decisão oficial tomada em 2008, cujas consequências parecem cada vez mais fora do controle das autoridades no Estado. Naquele ano, a partir de escutas feitas pelo Ministério Público, soube-se que o secretário de Administração Penitenciária, Lourival Gomes, havia sido ameaçado de morte por integrantes do PCC (no livro, Jozino prefere não citar o nome dos chefes da segurança ameaçados). Gomes pediu ajuda ao secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, seu amigo desde os anos 90, dizendo que havia um plano para matá-lo. Ferreira Pinto, que depois também passou a ser ameaçado pela facção, movimentou suas peças no xadrez. Tirou integrantes da Polícia Civil, que via com reservas, do centro das investigações contra o PCC. Em seu lugar, colocou os homens da Rota para atuar junto com a inteligência do MPE.

Dessa forma, as escutas, feitas em parceria com promotores da região oeste, passaram a nortear as ações da Rota. Desde então, os boinas pretas participaram de pelo menos dez grandes operações contra a facção. Em parte dos casos, os acusados que foram presos acabaram sendo liberados depois por falta de provas.

Ao mesmo tempo, com o ingresso da Rota nas ações, os homicídios provocados por operações mal planejadas começaram a crescer. Nos últimos três grandes episódios, houve 18 mortes - supostamente depois da reação a tiros das vítimas, sendo que em pelo menos um caso houve execução. Em resposta, o PCC continuou ordenando mortes de policiais. São Paulo, que vinha acumulando queda de homicídios havia dez anos, voltou a viver uma situação preocupante. E ainda mais complicada porque Ferreira Pinto, o homem encarregado de controlar os excessos, confia sua vida aos homens da Rota.

Xeque-Mate relata esses fatos lado a lado, deixando ao leitor a tarefa de montar o quebra-cabeça. Contudo, cumpre o papel de iluminar os fatos quentes de hoje. O livro de Jozino é, por isso, fundamental para reverter o processo de autodestruição provocada por conflitos aparentemente insolúveis. Como é fundamental um terapeuta para reverter a escolha de uma mente suicida.

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