NEILSON BARNARD/NYT
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Reais em sua simplicidade

Kate e William são personagens da chamada realeza ‘newlook’, em todos os sentidos do termo

Vanessa Friedman, THE NEW YORK TIMES

13 Dezembro 2014 | 16h00

Foi surpreendente, ditou tendências, mudou a altura da barra? Transformará para sempre o destino de um até agora obscuro, mas extremamente talentoso jovem estilista, ou modificará o desejo do topo da lista de Natal? Em outras palavras, a visita essa semana de Kate e do príncipe William à costa leste dos EUA terá um impacto que será sentido no mundo todo? Não. Foi mais como uma rápida agitação da moda: num momento a vemos, no momento seguinte desapareceu da memória. Mas, embora possa parecer paradoxal, as roupas dos Windsors, em sua absoluta monotonia, representaram uma séria afirmação.

Eles viajam em voos comerciais. Assistem a jogos de beisebol. E vestem as mesmas coisas que eu e você. O roteiro foi redigido no seu estilo - principalmente no caso de Kate, duquesa de Cambridge, grávida de cinco meses. 

Desde sua primeira aparição a caminho do hotel Carlyle, em Nova York, num casaco bordô de tweed, até o vestido de seda petróleo que ela usou no gala beneficente de St. Andrews no Metropolitan Museum of Art, Kate apresentou uma imagem de extrema acessibilidade: em termos estéticos, financeiros e políticos (como seu marido, embora a mídia e os paparazzi não parecessem muito interessados no guarda-roupa dele). Não houve nenhuma tentativa, como a recente, de usar estilos mais ousados, com a altura da barra da roupa alta e baixa que ela usou num gala no National History Museum, em Londres, em outubro. Não estava no programa nenhum desafio; estava, isso sim, o desprendimento. 

Basta ver a lista de marcas usadas, que incluiu apenas uma etiqueta especializada em roupas para futuras mamães, Séraphine (casaco de buclê, 1º dia; vestido de gola rolê preto no 3º), bem como Goat (o casaco preto anos 1960 usado no 2º dia), Beulah London (vestido de renda para o coquetel, 1º dia), Mulbedrry (casaco rosa no 3º dia), Jenny Packham (vestido longo, no 3º dia). Se não exatamente as da Main Street, as marcas em grande parte acabaram antes do final. Principalmente porque a óbvia exceção - o longo da última noite para o gala no Met - a duquesa de Cambridge já usara duas vezes antes, uma delas em 2013 para um gala da ONG 100 Women in Hedge Funds.

Os figurinos? Fechados, na altura do joelho, ombros pequenos, decotes redondos, sempre discretos, tremendamente comportados. Até o vestido de renda preta para coquetel usado pela duquesa para um jantar privado com administradores de fundos hedge mostrou muito pouco os braços, e fez lembrar adjetivos como “apropriado” e “correto”. Quando havia brilhos - um pouco de sintético aqui, metálico ali - eram com muita discrição.

Foi mais interessante o que os vestidos não representaram. Por exemplo, não representaram um esforço real para “promover os costureiros britânicos” (uma previsão do Daily Mail), como as primeiras-damas Michelle Obama e Samantha Cameron, que usam cada vez mais seu perfil em público como instrumentos para aumentar o reconhecimento global dos estilistas locais. Ao contrário, o efeito foi mais um aceno às pequenas empresas que um forte impulso promocional. As roupas eram demasiado banais, ou familiares, para tanto.

Tampouco representaram um esforço para utilizar a diplomacia da alta moda, com Kate adotando nomes americanos para demonstrar um tipo de projeto estético.

Embora ela tenha feito de fato um gesto aos estilistas locais - usando um casaco de tweed cinza-prateado Tory Burch para assistir a um jogo da NBA no Barclays Center com jeans stretch J. Crew, sapatos pretos meia prata Stuart Weitzman e uma bolsa Muse durante a visita - isso não se prolongou o suficiente para marcar uma tendência. Consequentemente, as escolhas em termos de guarda-roupa referiram-se menos a uma estratégica de promoção transatlântica e mais a um mercado de nível médio juvenil: preço do casaco, US$ 595; jeans, atualmente à venda por US$ 105; sapatos, US$ 355; quanto à bolsa, ela a usa em várias cores desde 2012. Não houve também um esforço para afirmar o que pode e o que não pode em matéria de vestido da futura mamãe, e a parada de casacos em grande parte evitou a questão da barriguinha crescendo.

É possível que as roupas da duquesa fossem tão uniformemente recatadas porque, de acordo com os observadores da realeza, havia uma real preocupação no palácio com a possibilidade de Kate eclipsar o marido, como Diana, mãe de William, eclipsava o pai, Charles. Segundo essa teoria, Kate não teria acompanhado William a Washington por esse motivo; outra foi que, no quinto mês de gravidez, os assessores não quiseram que ela se cansasse excessivamente. 

Mas o mais provável é que tenha a ver com o constante reposicionamento da família real como gente quase normal, próxima da proverbial “vida real”, que vem ocorrendo desde que ela acordou e se deu conta da insatisfação popular na virada do milênio. O duque e a duquesa de Cambridge são personagens da realeza newlook, em todos os sentidos do termo. Gostem ou não, o vestido do gala de Kate - como todo seu guarda-roupa usado em Nova York (e possivelmente toda a aventura na cidade) - cumpriu seu propósito, e provou isso. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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