Rebeldes sem causa

Especialista avalia: as Farc não estão aniquiladas. Mas estão empobrecidas, perderam combatentes, prestígio político e apoio na esquerda, além de terem sofrido um desgaste imenso com os sequestros

Carolina Rossetti, de O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2010 | 16h18

Crise com Colômbia seria jogada de Uribe para dificultar vida de Santos, calcula sociólogo

 

 A declaração do representante colombiano na Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Alfonso Hoyos, acusando a Venezuela de abrigar em seu território 1.500 guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foi uma jogada de Álvaro Uribe para minar o governo de seu sucessor e ex-ministro da Defesa, Juan Manuel Santos. É essa a interpretação do sociólogo Daniel Pécaut, diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, e autor de As Farc - Uma Guerrilha sem Fins?, sobre a mais recente crise diplomática da América Latina deflagrada na quinta-feira com a decisão de Hugo Chávez de romper relações com a Colômbia.

 

Para Pécaut, o episódio demonstra o racha interno na base governista colombiana. Na tentativa de preservar uma estrutura própria de apoio, Uribe fará de tudo visando a dificultar a vida de Santos, que nunca foi seu favorito para a sucessão, diz o sociólogo. "Acusado de manipular as Cortes Supremas de Justiça para tentar garantir um terceiro mandato, Uribe precisa manter sua força política para impedir que a Justiça não se meta demais em seus problemas."

 

Relações perigosas

"A única relação importante que as Farc têm com partidos políticos de outros países da América Latina é com o governo da Venezuela. Chávez nunca escondeu sua simpatia pelo grupo guerrilheiro. Após a morte de Manuel Marulanda, por exemplo, houve uma homenagem de um minuto de silêncio no Congresso venezuelano. Em 1988,Chávez promoveu um encontro oficial com o guerrilheiro Ivan Márquez. Sabe-se ainda que as Farc têm armamentos de origem venezuelana, que podem ser fruto de contrabando ou de apoio aberto por parte de setores militares venezuelanos. Com o Brasil o grupo não tem diálogo no momento. Até teve no passado, por meio do Fórum de Porto Alegre, quando havia no País uma visão um pouco idealizada das Farc, vistas como uma força revolucionária contra um governo direitista. Mas aos poucos esse relacionamento foi deixando de existir.

 

Uma jogada de Uribe

"Quanto à ruptura da Venezuela com a Colômbia, foi uma jogada de Uribe para colocar Santos em situação difícil. É muito provável que Uribe torne a vida de Santos muito complicada para preservar uma estrutura própria de apoio. Há boatos, inclusive, de que o orçamento deste ano já foi gasto. Não creio que Uribe tenha intenção de voltar ao governo, mas os próximos anos serão difíceis para ele. Há muitas acusações contra o ex-presidente e seus aliados. Uribe precisa manter uma força política para impedir que a Justiça se meta demais nos seus problemas. Ele é acusado de manipular as Cortes Supremas de Justiça para tentar garantir um terceiro mandato e usar o serviço de inteligência colombiano contra os inimigos do governo, assim como de se relacionar com líderes locais que têm ligações com os paramilitares.

 

A temperatura pós-eleição

"Juan Manuel Santos conta com a confiança do establishment e com o apoio dos militares. Mas foi possível notar na composição de seu governo a vontade de se diferenciar de Uribe. Para a pasta da Agricultura, por exemplo, Santos nomeou o ex-senador Juan Camilo Restrepo, crítico ferrenho de Uribe, que vê a necessidade de profundas mudanças no campo. Não há dúvida de que, para se afirmar, Santos manterá a princípio uma linguagem tão forte quanto a do seu predecessor em relação aos temas da segurança. Mas, caso consiga manter as Farc enfraquecidas, é possível que busque uma solução política para o conflito."

 

Na fronteira do ostracismo

"As Farc não estão aniquiladas. Elas ainda fazem pequenas emboscadas e utilizam minas para matar membros das forças de segurança e funcionários, mas não têm nem a metade dos combatentes que tinham. Perderam também boa parte de suas finanças devido ao quase fim dos sequestros e à competição no narcotráfico de outros grupos ilegais, aliados aos paramilitares. As Farc já não ameaçam as grandes cidades nem têm homens suficientes para pressionar as áreas urbanas. Elas se mantêm especialmente nas fronteiras por onde passam os corredores da droga. Também perderam todo prestígio político. São poucos os membros da esquerda que seguem apoiando a ideia da combinação ‘de todas as formas de luta’.

 

O pedido de Ingrid

"O desgaste político das Farc com a prática do sequestro foi imenso. Contribuiu para a consolidação de uma extrema direita paramilitar no país. Por isso, embora pouco sensíveis à opinião pública, as Farc tiveram de abandonar o uso sistemático do sequestro, assim como evitar que, durante ações em zonas urbanas, edifícios inteiros fossem destruídos. Parece que têm procurado não golpear de maneira aberta a sociedade civil. Centenas de milhares de pessoas já foram de alguma forma vítimas das Farc. Mas acho absurda a atitude de Ingrid Betancourt, que recentemente pediu indenização ao Estado por conta do tempo que passou em cativeiro. O Estado colombiano não tem recursos suficientes para ressarcir todos.

 

Paz, mas sem anistia

"É preciso oferecer um acordo político à ala das Farc que ainda mantém uma identidade política. Não acho que reformas políticas conseguiriam mudar sua atitude, uma vez que a Constituição de 1991 já lhes ofereceu muitas garantias. As saídas são: reforma agrária (sua reivindicação mais antiga) e textos jurídicos que permitam aos guerrilheiros evitar condenações por crimes de guerra e de lesa-humanidade. Como são muitos os outros setores que correm o risco de condenações idênticas, é preciso haver textos que sirvam para a pacificação sem implicar anistia.

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