Rebelião da alegria

O mote não oficial e mais poderoso deste Mundial é a bela revolta dos jogadores contra a disciplina dos treinadores

Hans Ulrich Gumbrecht, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 16h00

Estamos na metade da Copa do Mundo de 2014, e o que parecia ser um ousado otimismo inicial duas semanas atrás virou uma certeza global agora: de um ponto de vista estético, este é o melhor Mundial de todos os tempos, o melhor Mundial ao menos de que as gerações bem mais velhas, entre bilhões de espectadores, conseguem se lembrar. Nós quase esquecemos como, por muitas razões e em muitos níveis, as expectativas mundiais pareciam ser exatamente o oposto antes do jogo inaugural. Havia receios com a situação sociopolítica do Brasil, com a política da Fifa e com a competência de ambos para organizar o maior evento atlético do mundo; nenhuma das poucas seleções que sempre integram o grupo das favoritas havia mostrado jogo consistentemente forte (para não dizer inspirador) durante a fase preparatória; as discussões entre especialistas pareciam abstratas, acadêmicas e disciplinadoras. Aquilo tudo simplesmente não confirmaria que a idade de ouro das seleções nacionais havia definitivamente acabado, numa época em que, por razões financeiras, os jogadores mais famosos do mundo estão concentrados numas poucas ligas e seleções europeias?

Dezessete dias de glória futebolística transformaram essas preocupações antes razoáveis numa tênue memória de ressentimento, enquanto a dinâmica atual torna difícil imaginar que as coisas não poderão senão melhorar até o fim do torneio. Isso porque o estado de espírito positivo que permeia o evento tornará cada partida, sua percepção e a competição toda progressivamente melhor. A razão mais visível para essa euforia realista reside no drama bem dosado que o Mundial de 2014 revelou até agora. De um lado, tivemos as tragédias iniciais - a Espanha, atual campeã do mundo, e a seleção mais jovem que a Inglaterra pôs em campo em muito tempo foram eliminadas após seu segundo jogo; e a Itália, que é tetracampeã mundial, após o terceiro. O jogo dessas equipes nem foi decepcionante, e elas lidaram com a derrota com notável dignidade.

De outro lado, houve inícios realmente incríveis para potenciais histórias de sucesso. Ninguém em sã consciência teria esperado que a Costa Rica vencesse num grupo com Uruguai, Itália e Inglaterra, simplesmente sendo melhor que essas três tradicionais nações futebolísticas. E enquanto Inglaterra, Espanha e Itália, seleções ligadas aos campeonatos possivelmente mais fortes do mundo, foram todas mandadas mais cedo para casa, a maioria das seleções sul-americanas, e, após alguma hesitação, também várias seleções africanas, superou de longe as expectativas.

Entre vencedoras e perdedoras, porém, nenhuma seleção individual se destacou como nítida candidata ao título ainda: o Brasil está melhorando, mas sem convencer totalmente, enquanto a Argentina somente e pobremente vem ganhado apertado; a Holanda e, em certo grau, também o México, são famosos pelos inícios empolgantes e os desfechos desapontadores; e algumas das “zebras”, como Bélgica, Chile e França, por enquanto confirmaram o otimismo de seus próprios torcedores sem chamar a atenção dos analistas especializados. Uma visão similar se aplica a jogadores individuais: voltando de lesões, alguns dos astros internacionais consagrados do esporte como Messi, Suárez, Neymar e Cristiano Ronaldo estão se aproximando progressivamente de seu melhor nível de desempenho; ao mesmo tempo, o campeonato ainda está muito no começo para novos craques terem se estabelecido.

Mas, acima de tudo, tem havido um número muito maior de partidas realmente empolgantes e bonitas do que em Mundiais anteriores (não só entre as seleções mais famosas). E a razão mais óbvia - mas raramente mencionada - para essa melhoria é a proporção imensamente maior de jogadas bonitas que ocorrem. Uma jogada não é apenas uma forma consistindo de corpos múltiplos cujos movimentos são conectados por meio da bola como um ponto comum de referência; é também um evento porque nunca pode haver certeza de que a jogada como uma forma surgirá contra a resistência da outra equipe. A qualidade estética dessas jogadas que acabam acontecendo, porém, depende em grande medida do risco de fracasso que elas implicam. O gol vencedor de Luis Suárez contra a Inglaterra foi tão eletrizante por sua coragem de chutar de um ângulo difícil com um zagueiro e o goleiro à sua frente. O fato de essas jogadas individuais com alto grau de risco estarem se tornando o novo padrão mostra como muitos jogadores, com frequência contra a vontade de seus treinadores, estão ignorando a estratégia dominante no passado de que a posse incessante da bola (a infame “tiki-taka”) e, com isso, a capacidade de evitar gols, era o caminho final para o sucesso. O Campeonato Mundial em curso, no campo e em contraste com aqueles jogos de mentalidade acadêmica, tem mais a ver com marcar mais do que com sofrer menos gols. Mas esse novo estilo e a nova alegria do jogo ainda não se consolidaram num padrão, o que torna o tema mais ingênuo e desfrutável.

Terá esse desenvolvimento algo a ver com o fato de o Brasil ser o país sede? O treinador suíço Ottmar Hitzfeld sugeriu que uma combinação entre o nível sempre crescente de desempenho e as temperaturas locais úmidas poderiam ser responsáveis por mais erros individuais - o que torna o futebol menos disciplinado e mais espetacular para quem assiste. Apesar de haver alguma verdade na opinião sóbria de Hitzfeld, acredito que as multidões brasileiras também mereçam um sério crédito. Diferentemente de alguns Mundiais anteriores em países sem uma particular tradição futebolística, os estádios estão na maioria cheios desta vez, e o segmento “neutro” das multidões, formado por brasileiros, nunca é verdadeiramente neutro. Eles não só apoiam seleções de seu próprio continente (exceto o arqui-inimigo inominável do Brasil), mas sobretudo pedem e aplaudem o futebol com apelo estético, aceitando o risco de um fracasso ocasional. Os espectadores brasileiros apoiam, portanto, o que está surgindo com o mote não oficial e mais poderoso deste Mundial: a revolta da alegria dos jogadores contra os cérebros de treinadores. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

PS - Depois que escrevi este texto, Luis Suárez foi eliminado pela Fifa por morder um jogador do time adversário no ombro. Embora mordida deva ser punida com cartão amarelo, ela influi menos no jogo que qualquer falta real. Essa punição apenas mostra que a Fifa não quer o sucesso de “pequenos mercados nacionais” como o Uruguai.

PS2 - O Brasil está jogando bem - mas também conta com certo apoio da Fifa, por motivos econômicos.

*

Hans Ulrich Gumbrecht é professor de Literatura na Universidade Stanford e autor de Elogio da beleza atlética (Companhia das Letras)

Mais conteúdo sobre:
suárezfifamundial

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.