Recado à China, via Taiwan

Com a venda de novo pacote de armas à ilha, os EUA enviam a Pequim a mensagem de que continuam apoiando a democracia

Jonathan Adams, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2010 | 23h18

A venda do último pacote de armas a Taiwan, autorizada pela Casa Branca em 29 de janeiro, tem mais significado político que militar. Com Taiwan lutando para alcançar o Exército de Libertação do Povo (ELP), em rápido processo de modernização, o negócio pouco altera o balanço militar favorável à China, segundo a opinião de analistas.

Mas as armas dão um recado político.

Pequim sempre se queixou estridentemente da venda de armas pelos EUA à ilha, que tem governo independente, mas é considerada uma província pela China. No entanto, a reação chinesa a esse pacote de US$ 6,4 bilhões foi mais forte que o usual. O pacote inclui 60 helicópteros Blackhawk, mísseis Patriot, caça-minas, mísseis antinavio Harpoon e sofisticados softwares de comando e controle. Pela primeira vez, a China ameaçou com sanções empresas participantes da transação, aí incluídas a Boeing e a Sikorsky Aircraft.

"Não é simplesmente pela questão militar, é mais pelo simbolismo", diz Arthur Ding, secretário-geral do Conselho Chinês de Estudos Políticos Avançados (CCAPS), em Taipé. "Significa apoio americano às instituições democráticas de Taiwan, e para Taiwan isso é muito importante."

Seja qual for a razão para o tom mais agressivo da China, ela pouco tem a ver com a poder militar dos equipamentos oferecidos a Taiwan, avaliam os analistas. "Não acho que sejam itens inovadores", diz Lin Chong-pin, professor de estudos estratégicos na Universidade Tamkang de Taiwan. "São na maioria itens destinados a manter a força atual."

Tomem-se os Patriots. A China tem hoje cerca de 1.400 mísseis balísticos de curto alcance e inúmeros mísseis de cruzeiro apontados para Taiwan. Lin disse que para derrubar cada míssil chinês são precisos dois ou três Patriots. O pacote em questão inclui só 114 Patriots. "É uma continuação do que vínhamos pedindo, mas não um grande avanço em nosso poder militar", diz Lin.

Os Blackhawks podem ser mais importantes em missões de socorro nos tufões e enchentes que assolam a ilha que em uso militar, diz Lin. Os softwares para comando e controle há muito vem sendo pedidos por Taiwan e, segundo Lin, "não fazem uma diferença enorme".

Wendell Minnick, chefe do escritório na Ásia da Defense News, informou que 12 dos mísseis Harpoon destinam-se apenas a treinamento. Ele diz que essa última venda é apenas a complementação da entrega de armas retidas pelo governo Bush. Muitas já haviam sido entregues em 2007 e 2008. O governo Obama nada acrescentou à lista prevista, diz ele. E não deferiu o pedido de maior importância militar feito por Taiwan: caças avançados F-16 e submarinos. "Não foi entregue nada de novo", diz Minnick. "A pergunta que fica é: "Os EUA continuarão respaldando as necessidades defensivas de Taiwan?""

Pequim tem advertido Washington a não vender os F-16s que Taiwan quer. E o pedido de submarinos parece ter "morrido", diz Ding, do CCAPS. Por muitas décadas as forças de Taiwan, em grande inferioridade numérica, contaram com sua superioridade técnica para fazer frente ao ELP da China. Mas a modernização do ELP anulou essa vantagem, deixando Taiwan mais dependente que nunca de sua principal proteção: a Sétima Frota da Marinha dos EUA. Mas agora, a China está desenvolvendo e construindo submarinos, destróieres e mísseis. O que preocupa particularmente os estrategistas americanos é um porta-aviões equipado com mísseis balísticos antinavio que se acredita esteja sendo desenvolvido pela China.

Essa expansão chinesa desencadeou um debate entre analistas de segurança taiwaneses e americanos sobre qual seria a melhor resposta a dar. O governo de Taiwan defende uma posição "preventivo-defensiva" que chama de estratégia "Hard ROC", trocadilho com o nome formal da ilha em inglês, Republic of China.

Num ensaio de 2008 amplamente discutido na área da segurança de Taiwan, o oficial da reserva da Marinha americana William Murray argumentou que a ilha deveria adotar a chamada "estratégia do ouriço", uma concentração de instalações subterrâneas defensivas. Mas alguns em Taiwan argumentam que a ilha precisa ampliar sua força ofensiva. "Se a China continuar a modernizar suas forças, chegará a um ponto em que nossa posição defensiva pode não resistir, diz Ding. Ele acha que Taiwan deveria desenvolver mísseis de cruzeiro para ataques precisos, mísseis balísticos e aviões não tripulados, "para fazer a China pensar duas vezes" antes de um ataque.

Lin, da Universidade Tamkang, argumenta que Taiwan precisa de F-16s e submarinos. Mas, como último recurso, deveria também desenvolver uma força de detenção de baixa tecnologia para dissuadir a China de tentar ocupar a ilha. "Taiwan precisa criar uma capacidade defensiva assimétrica, pois não pode confrontar diretamente o ELP", diz. Ele imagina a criação de núcleos guerrilheiros para ações urbanas, treinados talvez pelos Estados Unidos e integrados por reservistas e atiradores de elite que possam agir independentemente, fustigando forças de ocupação da China. "Quando o ELP chegasse nós o deixaríamos entrar, sem nos engajarmos em combates sangrentos do tipo Stalingrado", diz ele. "Um tiro hoje, dois amanhã, três depois, de forma a impedir que a China consiga encerrar uma guerra."

*Correspondente do Christian Science Monitor em Taiwan

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