Orlando Barría/EFE
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Reconstrução capilar

Haiti importa 50% dos alimentos que consome. Minifúndios podem resgatar sua independência

LAURENT DUBOIS E DEBORAH JENSON, THE NEW YORK TIMES,

15 de janeiro de 2012 | 03h11

O Haiti nem sempre foi "a nação mais pobre do hemisfério sul", embora hoje seja quase impossível ler sobre o país sem cruzar com essa frase. Nos dois anos após o terremoto devastador, o Haiti tem sofrido com conflitos políticos e uma epidemia de cólera jamais registrada; centenas de milhares de pessoas vivem em barracas improvisadas que se espalham como bandeiras cobertas de poeira às margens das rodovias. É fácil esquecer que, no século 19, o Haiti foi um centro de inovação agrícola e sucesso econômico.

A revolução escrava que terminou com a criação do Haiti em 1804 levou ao que o sociólogo Jean Casimir qualificou como sistema de "counter-plantation". Escravos, os habitantes da ilha plantavam e processavam cana, mas se alimentavam de pequenas hortas, desenvolvendo técnicas sofisticadas de plantação integrada, que envolve o plantio de várias culturas próximas uma da outra. Quando se tornaram livres os haitianos aproveitaram esse conhecimento para criar gado, plantar frutas, tubérculos e até café para exportar. Ao criar minifúndios, interceptaram qualquer possibilidade de retorno às grandes plantações que definiram a escravidão.

O sistema de autossuficiência agrícola propiciou aos haitianos uma vida melhor do que desfrutavam outros descendentes africanos nas Américas. O país atraiu imigrantes, incluindo milhares de afro-americanos. E, embora o governo dos EUA só tenha reconhecido o Haiti como país em 1862, empresários americanos já mantinham um forte intercâmbio comercial com a ilha.

A economia haitiana era organizada em 11 regiões, cada uma com seu porto. Houve muitos conflitos no país, especialmente pela tomada do governo central, mas as economias regionais prosperavam e um sistema militar e político descentralizado assegurava a muitos haitianos o controle do seu destino.

No século 20, contudo, esse sistema começou a ser pressionado. Estrangeiros, e também integrantes da elite do país, consideravam os minifúndios uma barreira ao progresso. Quando os EUA ocuparam o Haiti, de 1915 a 1934, forçaram a reforma da Constituição para permitir que os estrangeiros pudessem se tornar proprietários de terras, o que os fundadores do país tinham proibido temendo o retorno da escravidão, e manobraram para substituir minifúndios por grandes plantações, de posse de estrangeiros. Muitos agricultores perderam suas terras.

Quando a população rural se revoltou contra a ocupação e o trabalho forçado para a construção de estradas, os EUA criaram uma milícia para reprimi-la. A violência e o declínio econômico na zona rural obrigou os haitianos a fugir para as cidades ou para plantações em Cuba e na República Dominicana. Nos anos seguintes, a zona rural continuou sofrendo uma degradação econômica e ambiental, enquanto as grandes cidades se ressentiam com a superpopulação. Hoje metade dos alimentos no Haiti é importada.

O fluxo de ideias e dinheiro após o terremoto oferece uma oportunidade para a volta dos minifúndios. O presidente Michel Martelly falou da necessidade de descentralizar a economia e ONGs iniciaram projetos para assistir os agricultores. Mas é preciso mais.

Os governos municipais devem construir mercados equipados para as mulheres venderem a produção rural. O Estado precisa implementar políticas comerciais destinadas a proteger o setor agrícola, levar adiante a reparação de estradas e portos, fazer frente ao desflorestamento e melhorar os sistemas de aprovisionamento de água. As organizações estrangeiras que trabalham no país podem ajudar incentivando a comprar de alimento e outros bens de produtores locais.

Investir novamente na economia rural vai gerar autoconfiança, minorar o problema da superpopulação nas cidades e ser um passo à frente para pôr fim à desnutrição e à escassez de alimentos. Como os haitianos aspiram a reconstruir seu país em 2012, os melhores projetos virão da altiva história. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

* LAURENT DUBOIS E DEBORAH JENSON SÃO DIRETORES DO HAITI HUMANITIES, LABORATORY AT DUKE

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