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Recuo no tempo e no espaço

Na educação, não cabe usar critérios de produtividade de uma fábrica de salsichas nem adotar a lógica da manada para enquadrar os alunos

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2015 | 17h50

Aparentemente, foi um equívoco a estratégia de ocupação de escolas públicas em São Paulo, para questionar a adoção de um plano de redistribuição espacial dos alunos e aproveitamento racional dos edifícios. Reconheceram-no os próprios estudantes: tiveram que levar as carteiras para as ruas, parar o trânsito e nelas sentar para que sua causa fosse tratada como questão de polícia e os adolescentes tratados como transgressores da ordem. Só assim seriam vistos e a ela dariam visibilidade.

Descobriram que neste país o que pode ser considerado propriamente político está vinculado a um código restrito de definições que passa pela entrada dos descontentes no sistema de significações que criminaliza antes as demandas sociais. Podem protestar e reivindicar, não como cidadãos, mas como se fossem delinquentes. Como acontecia antes da Revolução de Outubro de 1930, de certo modo, o protesto social ainda é uma questão de polícia. Provavelmente, em minha vida, não verei aqui o que vi em Londres em agosto de 1973, durante o governo conservador e neoliberal de Margareth Thatcher: uma enorme passeata de milhares de professores contra a política do governo para a educação, de ambos os lados acompanhada pela polícia fardada para protegê-los e assegurar-lhes o direito de manifestação.

Nas manifestações paulistas de agora, não foram os educadores que deram encaminhamento ao problema levantado pelos estudantes, foi a polícia. Deu-lhe não como aquilo que é e sim como aquilo que não é. O quadro negro, o caderno e o livro não funcionaram. Ocupou-lhes o lugar e a função a pedagogia pré-moderna e retrógrada da palmatória, do cassetete, do soco, da rasteira e do pontapé, à custa de macular a educação, deformada, desconstruída pelas bombas de gás lacrimogênio e pela cacetada. A polícia mostrou quem é o educador e mostrou que entre nós educar ainda é enquadrar. Enorme recuo em relação ao que nossa educação já foi.

É estranho que tenha caído o secretário da Educação, mas não tenham caído o secretário de Segurança e o comandante da Polícia Militar de São Paulo. O secretário da Educação caiu porque insistiu num projeto tecnicamente correto, embora sociologicamente equivocado: as mudanças propostas colidiram com o modo de vida e a mentalidade do homem comum, alunos e pais de alunos. A escola já não é uma instituição de prancheta, concebida no primado da linha reta. O refúgio do antigo, histórico e emblemático prédio do Instituto de Educação Caetano de Campos, onde funciona hoje a Secretaria de Educação, não é suficiente para abrigar e legitimar decisões de governo sobre assuntos educacionais.

A educação hoje é debatida nos movimentos de rua, um fato novo que não deve ser subestimado. Há um novo parceiro da educação no cenário, o próprio educando e sua família. É preciso decifrá-lo para reconceituar a escola, compreender os dilemas nela instalados, desvendar-lhe os mistérios que abriga, como o da atual crise de gerações. É preciso desvendar as amarguras de um corpo docente desiludido. Ainda nestes dias, foi noticiado que no Estado de São Paulo cerca de 26 mil professores contratados e 8 mil concursados desistiram da docência em 2015.

Ajustar a educação, de maneira estrita, aos critérios de produtividade de uma fábrica de massa de tomates ou de uma fábrica de salsichas é grave confusão. Como grave confusão é adotar a lógica da manada para enquadrar cidadãos em formação, que são os adolescentes, à disciplina que deveria haver no trânsito. É não saber transitar entre uma coisa e outra.

O movimento de ocupação de escolas em São Paulo, como protesto dos estudantes contra a reorganização do espaço escolar, acabou desbordando numa crítica muito séria ao ensino e à qualidade do que é ensinado na sala de aula. O movimento primariamente contra a reordenação do espaço escolar foi a gota d’água. O que os estudantes manifestaram foi insatisfação com a qualidade do ensino público. Questionaram a engenharia do espaço escolar em nome do que consideram falta de conteúdo pedagógico do que nesse espaço se ensina. Alunos de uma das escolas ocupadas, provenientes de escolas particulares, foram, provavelmente, os agentes da tomada de consciência da crise da escola pública. É esse um indício de frustração em face de relativamente breve período de ascensão social da nova classe média, e das primeiras evidências dos efeitos da crise econômica nas condições de vida dessa camada social.

A ocupação das escolas e o modo politicamente incompetente como a tensão foi empurrada para o inevitável das ruas detonaram outros pontos explosivos de uma situação social problemática. Se compararmos os confrontos desta semana entre estudantes de um lado e a polícia e setores da população de outro com os primeiros momentos de mera ocupação das escolas, há cerca de um mês, teremos um verdadeiro mapa de quanto o conflito estudantil com facilidade se articulou com outros focos da tensão social a ele completamente estranhos.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE UMA SOCIOLOGIA DA VIDA COTIDIANA (CONTEXTO)

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