NIVALDO LIMA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/PAGOS
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Rede vazada

Qual o efeito prático de promover a vingança nos blogs e no WhatsApp?, pergunta pesquisador

Bruno Paes Manso, O Estado de S. Paulo

11 Abril 2015 | 16h00

O mundo das grandes cidades é bidimensional, preto e branco, simples de ser explicado. De um lado estão os trabalhadores, os “cidadãos de bem”, moradores dos bairros urbanizados. Eles vivem à mercê do grupo inimigo, os criminosos, que moram nas periferias mais pobres, são malvados e estão dispostos a matar para conseguir o que querem. Como os bandidos não têm conserto, eles podem ser exterminados ou esquecidos mofando nas prisões. O mundo das pessoas honestas ficaria mais seguro se eles morressem ou desaparecessem. Se sumirem ainda adolescentes, melhor.


É uma ideologia deturpada, fomentada pela sensação de injustiça e pelo medo de parte da sociedade, mas popular. Por ser emocional, praticamente irrefletida, não leva em conta os efeitos colaterais que produz, como o aumento do ódio e a corrosão da confiança na Justiça, nas polícias e no sistema democrático. É a engrenagem que acaba provocando mais crimes, mais um de nossos círculos viciosos.

Essa visão imatura, no entanto, vem florescendo e tem respaldado e provocado ações que mais parecem a de uma guerra nos centros urbanos brasileiros. Os conflitos ocorrem principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, Estados com duas das polícias mais violentas do mundo. 

É como se, mesmo 30 anos depois da volta da democracia no Brasil, as leis e o estado de direito ainda não tivessem alcançado as polícias. Mas, se antes o alto volume de mortes suspeitas era o principal sintoma dessa ideologia de guerra, agora a defesa do assassinato é compartilhada por autoridades no WhatsApp, publicada em blogs e divulgada em vídeos no YouTube. 

Na semana passada, assinei reportagem na VICE Brasil sobre mensagens trocadas por policiais que revelam o teor dessas ideias. O desejo de vingança, motivação por trás de algumas das grandes barbáries da humanidade, é o combustível principal. 

Na quinta-feira, 26 de março, um PM havia sido assassinado durante um assalto. Logo começou a troca de mensagens na rede social desses policiais. Circulou a informação de que um dos suspeitos havia sido deixado no estacionamento de um Pronto Socorro. A foto dele morto e baleado aparece momentos depois, acompanhada da comemoração “mala bom é mala morto”. 

Informações reservadas, com fotos de presos no regime semiaberto acompanhadas de seus endereços, também são reveladas: “Ele saiu da prisão com a ordem de matar dois policiais”. O que seria isso? Uma senha para começar a caça? 

Na semana anterior, um policial tinha sido morto covardemente durante um assalto na zona norte. Ele ainda era cadete, estava em formação. Revolta mais que compreensível na PM. Mas conversas pedindo vingança começaram a circular nas redes sociais. Os policiais saíram às ruas. O depoimento de um jovem suspeito de ter participado do assalto foi filmado e divulgado no blog de defensores da PM. 

Pouco tempo depois, homens da Rota invadem a Favela Funerária, na zona norte, e três pessoas são mortas. Um deles havia sido denunciado na gravação. As imagens dos corpos baleados são divulgadas nas redes sociais. A PM afirma que houve tiroteios. Há motivos para não acreditar.

Situações semelhantes se repetem no Rio de Janeiro. Foi o caso do vídeo de um policial no Complexo da Maré que, olhando para a câmera, acaricia alegremente sua metralhadora e diz que sua arma vai cantar para “bandido dormir”. É como se estivesse num stand up, tentando fazer o público rir. 

A sociedade parece receber as informações anestesiada. E a repercussão das revelações de vídeos e mensagens do WhatsApp em São Paulo não mereceu manifestação do secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, que não respondeu às solicitações para esclarecer a matéria, as fotos e os vídeos. 

Atualmente, na página dos defensores dos policiais paulistas, até mesmo um vídeo foi editado em defesa dos procedimentos do Esquadrão da Morte, grupo formado em 1968 em São Paulo depois do assassinato de um policial. O lema para a criação do grupo era “para cada policial morto, dez bandidos vão morrer”. 

A situação mais sinistra que acompanhei nas redes tinha ocorrido em setembro do ano passado, na Grande São Paulo. Quatro jovens foram mortos durante perseguição feita por homens da Força Tática do 16º Batalhão Metropolitano. A PM alegou que matou os quatro porque houve tiroteio. Seria mais um caso a cair no esquecimento não fosse a sequência de ações. Os corpos das quatro vítimas foram fotografados na cena do crime e no Instituto Médico Legal. Um deles tinha 13 tiros em volta do pescoço. Dois eram adolescentes. Essas fotos foram mandadas por WhatsApp para a família das vítimas e depois divulgadas em um blog. As mães ainda sofrem escondidas, em silêncio, temendo retaliações.

Qual é o efeito prático da promoção da guerra nas redes sociais? Ainda é cedo para dizer. Mas vale apontar que, no ano passado, a polícia bateu recorde de mortes, com 926 vítimas. O número não era alcançado desde 1992, quando ocorreu o Massacre de 111 presos no Carandiru. As autoridades não tentaram discutir as possíveis causas para o crescimento. 

Apresento uma hipótese para reflexão: a promoção nos blogs e WhatsApp da ideologia em defesa do extermínio, misturada à sensação de vulnerabilidade dos policiais, ao narcisismo nas redes, ao espírito de grupo e ao desejo de vingança, pode estar estimulando o assassinato e a justiça pelas próprias mãos dos policiais paulistas. É apenas uma hipótese. Vale também lembrar que o 16º Batalhão, suspeito de enviar as fotos aos familiares dos garotos mortos no WhatasApp, foi o mais violento de todo o Estado no ano passado.

BRUNO PAES MANSO É JORNALISTA, DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA E PESQUISADOR DO NEV-USP

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