Redentor de um povo

Vinte anos atrás, Nelson Mandela era libertado. As portas da liberdade da África do Sul estavam escancaradas

Justice Malala*, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2010 | 01h15

Eu tinha 19 anos quando o ANC - Congresso Nacional Africano, saiu da ilegalidade. Caminhava pelas ruas de Johanesburgo, vindo de uma entrevista na Universidade Witwatersrand, segurando firme minha mochila e preocupado em não perder o caminho para a estação de trem. Repentinamente, uma imensa multidão, uma massa fervilhante de corpos, cantando e dançando, virou a esquina e marchou na minha direção.

As pessoas carregavam cartazes com a edição da tarde do jornal Star. Corriam, dançavam, gritavam, choravam. Aderi à manifestação.

Mas, alguma coisa estava errada... A multidão era acompanhada por carros blindados e vans da polícia. Entretanto, não havia gás lacrimogênio ou som de tiros no ar. A polícia apenas escoltava a multidão, sem atirar nem jogar gás nas pessoas, prática a que eu e muitos outros estávamos acostumados. Os uniformizados pareciam tão estupefatos quanto os manifestantes.

As portas da liberdade foram escancaradas naquele dia. E ficariam ainda mais abertas nove dias depois, em 11 de fevereiro de 1990, quando, depois de 27 anos de cárcere, Nelson Mandela sairia da prisão de Victor Verster, numa tarde de domingo quente, com um sol abrasador.

Uma forte emoção envolve tudo que me faz lembrar aqueles dias e os quatro anos que se seguiram. Havia esperança, a sensação de que alguma coisa tinha acontecido e, finalmente, o país tinha um futuro.

Essa semana, o presidente Jacob Zuma encerrou com chave de ouro as comemorações dos 20 anos da libertação de Nelson Mandela, com uma sessão especial do Parlamento, na Cidade do Cabo. Um Mandela fragilizado, que hoje raramente aparece em público, estava na tribuna.

Foi um momento que nos deixou arrepiados. Vinte anos atrás, Mandela unia, em enlevo, brancos e negros, liberais e conservadores. Ele ainda é, sem ironia, o pai da nação, o homem que faz com que qualquer um de nós, cada vez que alguma coisa dá errado, diga: "Mandela não queria isso para nós..."

Nas duas últimas semanas, "isso" tem sido uma referência a Jacob Zuma. Há dois domingos o jornal Sunday Times sul-africano noticiou que Zuma, de 67 anos, casado cinco vezes e com uma sexta união em perspectiva, tornou-se pai pela 20ª vez, de uma criança nascida de um caso extraconjugal com a filha de um amigo, de 39 anos.

Foi uma revelação que uniu o país - não como na comemoração dessa semana, mas pela repulsa.

A festa dos 20 anos da libertação de Mandela e a ignomínia de Zuma na mesma semana, no mesmo dia, coincidiram de modo surreal. O que nos faz lembrar que somos um país normal, com contradições e decepções e alguns (desesperadamente poucos) momentos inspiradores. Nossos políticos não são santos; simplesmente são pessoas ávidas de poder, falíveis.

Hoje, um membro do gabinete de Jacob Zuma está envolvido abertamente em negociatas com o Estado. Um outro construiu uma rodovia diretamente para sua fazenda - num país em que muitos não dispõem de rodovia nenhuma e os cidadãos se queixam incessantemente dos buracos. Já a mulher de um outro ministro responde a processo, acusada de fornecer "mulas" para traficantes de drogas.

Uma grande distância em relação às esperanças de duas décadas atrás, quando o gás lacrimogênio fazia parte das nossas vidas, com as detenções sem julgamento prévio, os espancamentos pela polícia e as mortes na prisão.

Negros e brancos viviam separados. Lembro-me quando fui preso com meu amigo Comfort Masike em Muizenberg, uma praia só de brancos no Cabo Ocidental, ocasião em que participamos da Campanha de Resistência, em 1989. Era um movimento simples: chegávamos e sentávamos numa praia "só para brancos". Pelo menos 80 mil pessoas, lideradas pelo arcebispo Desmond Tutu, participaram da campanha.

Comfort e eu fomos presos logo que chegamos. Um policial jovem aproximou-se de nós, algemados na traseira de uma van. "O que vocês querem? Vocês já têm a praia de Mnandi (só para negros). Ela é melhor do que esta. Por que estão brigando para ficar aqui?"

Lembro-me de Comfort me confessar, tempos depois, como ficou deprimido com aquele diálogo. "Eles não entendem nada, entendem?", disse ele.

Nós, sul-africanos, na época também não nos entendíamos.

Mas a libertação de Nelson Mandela desencadeou um período em que, lentamente, negros e brancos foram se aproximando. Antes de Mandela, suspeita e ódio eram as emoções que predominavam entre as duas raças.

Assisti à saída de Mandela da prisão da casa de meu amigo Michael, numa township (bairro negro) perto da casa de minha mãe.

Esperávamos que fosse às 3 da tarde, o mais tardar. Ficamos à espera, mas as 3 horas chegaram e nada. "Não se pode confiar nesses bôeres (descendentes dos colonos holandeses, alemães e franceses da África do Sul)'', dizia Michael, em cólera. "Eles não vão libertá-lo."

Quase não conseguíamos acreditar que aquilo realmente sucederia. Não podíamos confiar neles. Quando Mandela finalmente apareceu, saindo da prisão ao lado da mulher, Winnie, que segurava sua mão, foram gritos e urros. Não conseguíamos sair do lugar. Apenas gritar.

Em questão de minutos, as pessoas começaram a sair às pressas das casas, berrando, cantando. Uma loucura. Por toda a township começaram reuniões e festas improvisadas. Uma euforia até então desconhecida espalhou-se por todos os cantos do país. Nunca vi tanta cantoria, tanto choro e tanta felicidade ao mesmo tempo.

Quatro anos antes de nós, negros, podemos votar pela primeira vez, em 1994, soubemos que estávamos livres.

A ideia central da presidência de Mandela foi a reconciliação das raças e seu principal instrumento foi a Comissão de Verdade e Reconciliação. Na época, para muitos jovens revoltados como eu, a comissão era um fracasso, pois exigia o depoimento das vítimas - que foram dados. No entanto, foram poucos os autores de crimes que se apresentaram, o que levou muitos de nós a achar que a Comissão era uma hipocrisia, que deixava em liberdade os piores defensores do Apartheid.

Nelson Mandela perseverou e, apesar de suas muitas fraquezas, hoje a comissão é uma prova do que o espírito humano pode alcançar: ela nos uniu.

Quando deixou o cargo, depois de um único mandato em 1999, Mandela tinha conseguido convencer os céticos de todo o globo de que existia uma democracia excepcional na extremidade sul da África.

Contudo, a África do Sul que Nelson Mandela nos legou não é mais um lugar bonito para se viver. De acordo com a revista Lancet, num estudo divulgado no ano passado, de 1994 para cá a média de expectativa de vida na África do Sul caiu em quase 20 anos.

A taxa de homicídios é cinco vezes maior que a média mundial e a de homicídios femininos, seis vezes. Calcula-se que a cada seis horas uma mulher é morta pelo seu parceiro.

Pior ainda, a África do Sul é um dos 12 países onde a mortalidade infantil cresceu a partir de 1990, ano em que Mandela foi libertado. Anualmente, 23 mil bebês nascem mortos e 75 mil crianças morrem, quase um terço delas nas primeiras quatro semanas de vida.

Todos esses problemas, mais o desemprego crescente e as pequenas transgressões sexuais do presidente, devem ter pesado na consciência de Jacob Zuma quando proferiu seu discurso. A presença de Nelson Mandela foi a lembrança de um homem que nos fez acreditar que nenhum problema é insuperável, nenhum desafio é duro demais.

A ignomínia de Zuma nos faz lembrar que a nova África do Sul não é o que desejávamos que ela se tornasse naquele dia distante de 1990. Mas, vamos dançar, talvez derramar uma lágrima, e comemorar o fato de Mandela ainda estar vivo. Eu sei, e todos nós sabemos que, em 1990, quando Mandela saiu da prisão, este era um lugar infinitamente pior do que é hoje: apenas uma preciosa, jovem democracia. Tradução de Terezinha Martino

*Jornalista e analista político sul-africano. Escreveu este artigo para The Guardian

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