Marissa Roth/The New York Times
Marissa Roth/The New York Times

Reedições de contos, ensaios e romances de Ray Bradbury revelam seu processo criativo

Escritor norte-americano centenário ganhou novas edições de clássicos como 'Fahrenheit 451' e 'O Homem Ilustrado', além de reuniões de textos inéditos no Brasil

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 05h00

No início dos anos 1950, Ray Bradbury estava andando com um amigo pelas ruas de Los Angeles quando foi abordado por uma viatura policial. Uma caminhada a pé parecia suspeita demais para o homem da lei, que alertou: “Não faça isso de novo”. O encontro surrealista no auge da perseguição macartista se traduziu em opressão autoritária em contos como O Pedestre, e seria uma das sementes que germinaria anos mais tarde em sua obra-prima, Fahrenheit 451. Em 2020, no ano do centenário do autor, a Biblioteca Azul publicou quatro livros dele, incluindo uma edição especial dessa, que é a mais nefasta distopia sobre o autoritarismo e o anti-intelectualismo que dominam nossos tempos.

Quando, em meados de 2020, um casal de idosos viralizou na internet ateando fogo nos livros de Paulo Coelho por conta das críticas do escritor ao governo brasileiro, a associação com a obra de Bradbury foi imediata: Fahrenheit 451 se passa em um futuro indeterminado no qual os prédios são todos à prova de chamas e, sem precisar apagar incêndios, os bombeiros são responsáveis por uma nova tarefa: queimar livros, afinal naquela sociedade a leitura desses objetos subversivos é proibida. 

A premissa distópica já estava presente em outros contos do autor, como O Bombeiro, incluído na coletânea Prazer em Queimar, outro lançamento recente, que reúne narrativas breves de Bradbury que o influenciaram a escrever Fahrenheit 451, traçando uma espécie de genealogia do livro. 

A nova edição do romance traz um esclarecedor posfácio de Bradbury que explicita algumas de suas inspirações para produzir essa obra: “Hitler queimando livros na Alemanha de 1934”, “a caça às bruxas em Salem em 1680, onde minha dez vezes tataravó Mary Bradbury foi julgada, mas escapou da fogueira”, “os três incêndios da biblioteca de Alexandria”, “Todas as mulheres na minha vida foram professoras, bibliotecárias ou vendedoras de livros”. Além desse texto, a edição conta com ensaios de escritores como Neil Gaiman e Margaret Atwood, e trechos do diário de François Truffaut, que adaptou a trama para o cinema, sobre a produção do filme.

Outra de suas obras que foi adaptada para as telas, O Homem Ilustrado, também chega ao Brasil no ano do centenário do autor. Assim como em uma de suas mais celebradas obras, As Crônicas Marcianas, nesse livro Bradbury reúne narrativas breves entremeadas por um mesmo elemento narrativo, num misto de romance fragmentário e antologia de contos. O fio condutor é um sujeito com o corpo tatuado, cujas ilustrações se mexem na pele à noite e contam histórias. 

"Ele era um tumulto de foguetes, fontes e pessoas, em detalhes e cores tão complexos que era possível ouvir as vozes da multidão que habitava seu corpo murmurando, baixinho. Quando sua carne tremia, as minúsculas bocas abriam e fechavam, os minúsculos olhos verdes e dourados piscavam, as minúsculas mãos cor-de-rosa gesticulavam. Havia pradarias amarelas, rios azuis e montanhas, estrelas, sóis e planetas espalhados numa Via Láctea pelo seu peito. As pessoas estavam em vinte ou mais grupos diferentes nos seus braços, ombros, costas, flancos e punhos, bem como na planície de sua barriga. Podia-se encontrá-los em florestas de pelos, espreitando entre uma constelação de sardas ou espiando de cavernas de axilas, olhos de diamante brilhando."

A primeira dessas histórias, A Savana, narra como duas crianças se tornam mimadas por morarem em uma casa inteligente "que os mantinha vestidos, alimentados e colocava-os para dormir, tocando e cantando e cuidando deles", fazendo seus pais  se sentirem dispensáveis. Ao mesmo tempo, o conto trata da perversidade infantil, tema pouquíssimo explorado na literatura, mostrando como os pais se sentem impotentes diante da manipulação dos próprios filhos, que tão bem lidam com a tecnologia daquela casa: "Eles vêm e vão quando querem e nos tratam como se nós fôssemos as crianças. São mimados, e nós também."

A solução dos pais, de desligar a casa, enfurece as crianças: "Eu teria que amarrar meus próprios cadarços em vez de deixar o amarrador de sapatos fazer isso? Escovar meus próprios dentes, pentear meu próprio cabelo e me dar banho?" A Savana revela uma visão sinistra de como a tecnologia vem servindo de anteparo entre pais e filhos, substituindo suas relações afetivas, tema que é hoje ainda mais relevante do que quando o conto foi escrito, muito antes das casas inteligentes conectadas à internet das coisas.

Em Caleidoscópio, um foguete explode no espaço e os tripulantes ficam à deriva, cada um flutuando em uma direção, tendo apenas uns aos outros para conversar via rádio enquanto aguardam o próprio fim. Nesse vácuo entre vida e morte, os viajantes não têm mais que se subjugar à hierarquia ou às boas maneiras, e o pior da natureza é despertado neles, ainda que tenham apenas a própria voz para ferir uns aos outros. "Dessa borda externa da sua vida, olhando em retrospecto, ele só tinha um remorso, desejar continuar vivendo. Será que todas as pessoas condenadas se sentiam assim, como se nunca tivessem vivido? A vida parecia assim tão curta, de fato, encerrada e concluída antes de você respirar? Parecia assim tão abrupta e impossível para todos ou só para ele, aqui, agora, com poucas horas restantes para pensar e refletir?"

O Jogo Virou é uma continuação de Flutuando no Espaço, um conto d'As Crônicas Marcianas em que os cidadãos afro-americanos decidem deixar a Terra e reconstruir uma sociedade em Marte. Nessa sequência, após a 3ª Guerra Mundial, os brancos vão a Marte pedir abrigo aos negros, que querem se vingar pelos séculos de escravidão e segregação: "Vamos ver quem vai ter leis aprovadas contra si, quem vai ser linchado, quem vai no fundo dos ônibus (...) Eles podem vir para cá, morar e trabalhar, ora, claro que podem. Para merecer isso só precisam viver na sua pequena parte da cidade, nas favelas, engraxar nossos sapatos, limpar o nosso lixo e sentar na última fileira das galerias. É só o que pedimos. E uma vez por semana enforcamos um ou dois deles". No entanto, Bradbury oferece um final mais esperançoso do que a mera vingança dos antigos oprimidos. 

Em O Homem, uma expedição espacial pousa num planeta no qual uma figura messiânica havia chegado no dia anterior e ido embora, o que desencadeia o velho conflito entre razão e fé, personificadas no cético capitão Hart e seu subordinado Martin, que acredita nos milagres relatados pelos nativos.

A maneira como Bradbury trata, seja em Fahrenheit 451, seja em O Homem Ilustrado, de temas caros tanto ao século 20 como ao 21, é ilustrada por uma imagem que ele usa em seu ensaio Sobre os Ombros de Gigantes, incluso no livro Zen na Arte da Escrita, coletânea de textos de não ficção lançada também em comemoração ao seu centenário. Ali, o escritor descreve o mecanismo literário pelo qual a ficção científica aborda questões metaforicamente, como Perseu enfrentando a Medusa. “Olhando para a imagem da Medusa em seu escudo de bronze, ao fingir que desviava o olhar, Perseu estende a mão sobre o ombro e decepa a cabeça da Medusa. Então, a ficção científica simula o futuro para curar os cães doentes que estão caídos na estrada do hoje. A indeterminação é tudo. A metáfora é o remédio.”

É interessante notar, a partir do relato detalhado que Bradbury dá de seu processo criativo, como ele era, a despeito de suas narrativas intrincadas, um escritor do tipo que deixa o texto fluir sem se preocupar tanto com a visão totalizante do enredo. Ele começa com listas de substantivos produzidas por livre associação, e a partir dessas palavras começa a escrever um "ensaio-poema-prosa", como descreve. "Em algum momento no meio da página ou, talvez, na segunda página, o poema em prosa se transformava em uma história. Quer dizer, uma personagem de repente aparecia e dizia: 'Aqui estou eu'". 

Esse processo é descrito em detalhes, e é uma das formas que Bradbury tem de "alimentar a Musa", como ele próprio conta, a respeito de como consegue inspiração para escrever. "A Musa é a mais apavorada de todas as virgens. Ela se assusta quando ouve um som, empalidece quando você faz perguntas, dá meia-volta e desaparece se você toca seu vestido." Por isso, de acordo com o autor, um dos mais potentes motores da criatividade é o que está no inconsciente. Ele reconta várias de suas histórias que acabaram saindo de memórias e experiências gravadas nos cantos mais recônditos de seu cérebro, e, sobre isso, afirma: "Eu era rico e não sabia. Todos somos ricos e ignoramos o fato enterrado da sabedoria acumulada".

Algumas curiosidades sobre obras clássicas são distribuídas ao longo dos ensaios, como, por exemplo, o fato de Fahrenheit 451 ter sido escrito, na falta de um escritório adequado, nas máquinas de escrever do porão da biblioteca da Universidade da Califórnia. "Ali eu caminhava tranquilamente, perdido de amor pelos corredores e em meio às pilhas, tocando livros, puxando tomos das estantes, virando páginas, devolvendo as obras ao seu lugar, mergulhando em todas as coisas boas que são a essência das bibliotecas. Que lugar para se escrever um romance sobre queimar livros no futuro, não acha?"

Em A Mente Secreta, um ensaio datado de 1965 e incluído em Zen na Arte da Escrita, Bradbury crava que o maior problema de nosso tempo é "o homem e suas ferramentas fabulosas, o homem e seus filhos mecânicos, o homem e seus robôs amorais que o conduzem, estranha e inexplicavelmente, à imoralidade". Em 2020, vemos que ele não poderia ter mais razão — e que sua obra, como o valente Perseu, dedicou-se a cortar a cabeça dessa Medusa sem olhar diretamente para ela, sempre por meio das mais precisas metáforas que a literatura fantástica já originou.

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