PIERRE BOULAT/1969
PIERRE BOULAT/1969

Reeditado agora, 'O Jogo da Amarelinha', de Julio Cortázar, dividiu opiniões

Escritores e críticos rejeitaram ou saudaram livro com capítulos fora de ordem do autor argentino

Ronaldo Bressane*, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2019 | 16h00

Os escritores podem ser arbitrariamente divididos entre os com quem você dividiria uma cerveja e os que você prefere manter lá no alto da estante. Nem preciso dizer em qual categoria eu inscrevo Julio Cortázar, não? Nas duas, claro. “Manda descer um Cortázar”, diria ao bibliotecário, como quem pede o seu drink predileto. No entanto, também se pode dividir arbitrariamente os leitores de Cortázar: há os que o amam e (heresia!) há os que o detestam.

Embora os olhos muito afastados e a desconcertante altura do cronópio (1,93m) ainda guardem um carisma devotado só a escritores da estirpe de Ernest Hemingway e Clarice Lispector, seu livro mais famoso, O Jogo da Amarelinha, ainda hoje, aos 56 anos de sua publicação, não é unanimidade. Mesmo em seu lançamento a obra dividiu os leitores argentinos, conforme conta Ricardo Piglia no saboroso Os Diários de Emilio Renzi – Os Anos Felizes (Todavia). Aos 26 anos e já em pleno domínio de seus poderes literários, Piglia reflete sobre o fascínio trazido pelo argentino exilado em Paris, a inventividade de sua obra, e o senso de rivalidade que o ambicioso livro despertou em sua geração: “O que escandalizou os críticos de direita ou da esquerda conservadora foi sua poética explícita, o fato de ser deliberadamente um work in progress. Cortázar tentou atravessar a ponte estreita que liga a forma breve às grandes estruturas romanescas, sem ocultar engrenagens, e narra procedimentos prestigiosos do consumo cultural. Em certo sentido, estabelece uma hierarquia moral no interior dos produtos artísticos, e esses críticos se sentiram provocados ao ser associados ao ‘leitor-fêmea’ [o tipo que não quer problemas sem soluções, para que fique comodamente sentado en sua poltrona, sem se comprometer com um drama que também deveria ser seu]”. 

A quente, em cima da pinta, Haroldo de Campos foi um dos primeiros críticos brasileiros a saudar Rayuela, um romance “de gênio construtivista/deconstrutivista (de raiz borgeana), que armava, na circunstância do exílio, um jogo metafísico-irônico dos encontros e desencontros da condição humana Cortázar radicaliza seus processos e se lança de corpo inteiro à aventura do romance como invenção de sua própria estrutura de fabular, que caracteriza a mais consequente novelística do nosso tempo O romancista intervém na própria sintaxe do racconto, que se propõe fisicamente como obra aberta Como Paradiso, de Lezama Lima, ou Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, se inscreve no mesmo elevado paradigma de problematização ontológica do destino humano e de questionamento inventivo da linguagem e da forma romanesca, é um desses marcos que põem em xeque a pressuposta relação de sentido único entre a literatura da Europa e da América Latina”.

Entre as críticas que se fazem hoje ao mais lendário dos romances não-lineares, há reclamações em relação às interrupções e digressões, especialmente de ordem erudita, aos diálogos excessivamente cabeça, e a um certo tom de ingenuidade infantil que perpassa o livro todo – sobretudo pela estrutura, que requer uma leitura “aos pulos”. Dependendo do ângulo, pois, Rayuela pode levar o leitor ao céu – ou ao inferno.

“O melhor Cortázar está no nível de um Borges ruim”, cravou Cesar Aira, mais prolífico autor argentino do nosso tempo (já ultrapassou a barreira dos cem livros, a maioria excelentes). “Cortázar é um escritor de iniciação, dos adolescentes que se iniciam na literatura e encontram nele o prazer da invenção”, explica. Alan Pauls (O Passado), desenvolve a tese da imaturidade cortazariana: “Seus livros, mesmo os melhores, parecem exigir agora de mim o impossível: que volte a ser jovem. Como se só assim, rejuvenescendo, pudessem exercer sobre mim algo parecido ao efeito de audácia e aventura que em algum momento exerceram”.

Beatriz Sarlo, a mais importante crítica literária argentina, lembra: “Na faculdade, recusavávamos ler Borges pois era supostamente de direita; foi até condecorado por Pinochet. Em vez disso, líamos fervorosamente Cortázar. Que grande erro! Hoje Borges continuava sendo um objeto de fascínio, enquanto Cortázar não me interessava mais”, contou.

Autor de Literatura de Esquerda, o crítico e escritor Damián Tabaróvsky é contundente. “Em que momento Rayuela se converteu em um livro lido na adolescência e nunca na maturidade? Para muitos de minha geração, Cortázar significa essa época da vida em que nos acontecem coisas embaraçosas: gostar de Cortázar é uma delas. É um livro que já nasceu brega, cheio de recursos demagógicos, encarnando o gosto de uma classe média urbana argentina que se imaginava en ascensão social, que se supunha acessar à alta cultura, à vanguarda francesa, ao último grito da moda do romance moderno, entendendo Paris como capital cultural do mundo. Tudo isso acabou, agora a classe média argentina sonha com compras em Miami e a literatura já não lhe importa”.

Amiga de Cortázar, a uruguaia Cristina Peri Rossi lembra do lançamento: “É o romance emblemático de 1968. Líamos este livro tendo como pano de fundo os movimentos revolucionários na Europa e na América Latina. Todas as mulheres queriam ser a Maga. Todos queriam viver em Paris e Buenos Aires. Tudo bem, tínhamos 20 anos, hoje temos 70 e muitos traímos estes valores. Um amigo pintor argentino dizia que já não se identificava com o livro. Rebati: ‘Em 1963 você tinha 20 anos, era pobre e revolucionário; agora é famoso, burguês e fazem exposições retrospectivas com seus quadros’. No livro se cristalizaram rupturas da estrutura e da linguagem que já vinham de antes, mas que haviam naufragado (como em Roberto Arlt). Além disso, dentro da velha polêmica latino-americana entre literatura rural e urbana, é o romance urbano por excelência.”

Para o espanhol Agustin Fernández Mallo, o livro funciona bem em partes, pois têm uma entidade poética à margem da narrativa. “O livro abriu um caminho entre o experimentalismo e o uso da cultura popular sem condescendência, pois em Cortázar era algo de verdade, não um artifício. Sua influência é admitida pela maioria dos escritores da minha geração. Nos anos sessenta, foi lido por sua chave política, sobre o exílio e o desenraizamento cultural, que foi se empalidecendo com o tempo; mas nesses tempos convulsos dá perfeitamente para refazer essa leitura política, e funcionaria”.

'Permanece o espírito de liberdade e aventura'

Leitor do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa, do colombiano William Ospina, da argentina Samantha Schweblin e da chilena Alejandra Costamagna, Eric Nepomuceno é considerado, por suas extensas temporadas na Argentina, Espanha e México, um embaixador brasileiro da cultura hispânica. Tradutor de Jorge Luis Borges e Bioy Casares (ou melhor, de Bustos Domecq), de García Márquez, Juan Carlos Onetti e de Eduardo Galeano, o escritor acaba de verter O Jogo da Amarelinha (Companhia das Letras, 592 págs.) em um português atualizado e contemporâneo – como se Cortázar estivesse conosco aqui e agora, pedindo mais uma cerveja. O Aliás conversou com ele sobre sua tradução, a amizade com o cronópio y otras cositas más.

Você conheceu Cortázar na época em que trabalhava na Argentina? Conte um pouco sobre este encontro...

Nos conhecemos em Buenos Aires, no final de 1973. Eu tinha me mudado para lá em março daquele ano. Eduardo Galeano me levou para conhecê-lo. Estivemos juntos lá outra vez em 1974. Não me lembro o mês, mas foi no primeiro semestre. Tornamos a nos encontrar em Madri, onde cheguei - fugido de Buenos Aires - em setembro de 1976. Esse reencontro foi no comecinho de 1977, janeiro ou fevereiro. E a partir desse novo reencontro tornamos a nos ver ao longo do tempo e do mapa, em Barcelona e Paris, na Cidade do México e em Manágua... Nosso último encontro foi na Cidade do México, em maio ou junho de 1983. Depois, marcamos um encontro no Rio, para onde eu tinha voltado. Seria no primeiro semestre de 1984. Ele cometeu a indelicadeza de ir embora para sempre em fevereiro daquele ano. Cerveja mesmo, acho que tomamos uma ou duas vezes, no verão de Barcelona. Vinho tinto, sim. Uísque, nos encontros portenhos. Rum, na Nicarágua. Quer saber como ele era? Em nosso primeiro encontro em Madri, uma cidade cinzenta e ainda franquista naquele comecinho de 1977 (Franco tinha morrido em novembro de 75...), ele marcou encontro no bar do Hotel Palace, explicando: 'era o bar do Buñuel'. Mas, em vez de martíni (considerado o melhor do mundo) sugeriu gin tônica. Eu estava triste, recém estreando um segundo exílio (saí da Argentina de Videla fugindo, não me deixaram ficar no Brasil), me sentindo solitário num inverno cinzento. Cortázar foi cálido e generoso. Insinuou que se eu precisasse de ajuda, podia contar com ele. Agradeci. e de repente ele me perguntou qual era mesmo a idade do Felipe, meu filho. 'Um ano e quatro meses', respondi. 'Ah!, então ele vai gostar: dê um pulo até Ávila, fica pertinho. E nessa época do ano aparecem por lá as cegonhas. Aposto que ele nunca viu uma'. Respondi que nem ele, nem eu. Fomos e vimos. Depois, liguei para ele em Paris contando. Nos falávamos muito por telefone. Um dia ele descobriu um invento mágico: a secretária eletrônica. E às vezes nos divertíamos conversando através de recados gravados, no telefone parisiense dele e no meu madrilenho.

Você se lembra como foi a sua reação, e a reação de seus pares, à primeira leitura de Rayuela? Como foi o impacto do livro quando chegou ao Brasil?

Lembro de meus amigos comentando o livro, que não li naquela época. Lia, isso sim, os contos, no original, e me alumbrava com eles. Um mestre absoluito. Até hoje considero “O perseguidor” um dos vinte maiores contos da segunda metade do século 20. Mas O Jogo da Amarelinha teve, por aqui, um impacto muito grande, pela forma absolutamente inesperada, inovadora, atrevida. Só que eu não tinha como comentar com ninguém, na época: só fui ler em 1973, quando já não estava mais no Brasil, e em castelhano. Foi um impacto inesquecível. Conto uma coisa: são poucos os livros aos quais retorno ao longo dos anos. Pois até hoje, entra ano sai ano, volto a alguns capítulos desse livro. E cada volta traz uma nova leitura. 

Rayuela também pode ser lida como uma história de amor ultrarromântica. Talvez nos anos 60, mesmo com toda a euforia da revolução sexual, o romantismo idealista ainda tivesse vez. Como receber uma narrativa dessas na segunda década do século 21, em plena era pragmática e cínica do amor líquido?

É verdade que muitas passagens do livro trazem marcas de determinada época. Todo mundo fuma em qualquer lugar, por exemplo. E todo mundo se perde em discussões meio esnobes, indicando que demonstrar erudição poderia ser uma forma de sedução ou superioridade. Mas, no conjunto, essas marcas se diluem rapidamente: o que permanece é o espírito de liberdade e aventura, a busca ao mesmo tempo inocente e angustiada da conquista do afeto, da descoberta de espaços de liberdade. O Jogo da Amarelinha é um livro mágico, inocente e ousado, contido e atrevido, desencantado e apaixonado, delicado e desesperado. Enfim, tirando as mençoes específicas de época, que acabam não tendo a menor importância, é um livro que reflete e desvenda o maior dos desafios: tratar de entender a pequenez e a grandeza da vida. Um livro permanente.

Por que Cortázar ainda tem esse apelo aos jovens? Na Argentina muitos o criticam, considerando-o um autor para adolescentes. Em que sentido isso seria ou não verdade?

Não sei se na Argentina - país que conheço bastante, frequento bastante - ele é mesmo tão criticado, a não ser por eruditos que se acham cultos ou algum autor jovem que ainda acredite na teoria do parricidio para buscar um lugarzinho à luz do lampião (do sol, nem pensar...). Não sei se ele é considerado autor para adolescentes. Mas, pensando bem, e levando em conta a qualidade do ensino público argentino, isso significa que os adolescentes de lá são bem melhor formados que os nossos...

Você já traduziu Borges e Bioy Casares (na verdade, Bustos Domecq), García Márquez e Cortázar. Quais foram as dificuldades e diferenças, de tradução de um autor para outro?

Ora, as mesmas de um para outro quando escreviam... Digo e repíto sempre que não sou tradutor profissional: sou um escritor que traduz os amigos e, de vez em quando, livros que me inquietam. As dificuldades? Bem: muito mais que qualquer outra, a grande dificuldade - coisa que revisores e preparadores de texto costumam ignorar solene e prepotentemente - é entender que literatura é como música. Tem ritmo, tom, andamento, linha melódica, harmonia, dissonâncias, pausas... Enfim, é encontrar o tom da narração, a atmosfera. E ser absolutamente fiel ao autor. Endurecer um texto como Pedro Páramo, de Rulfo, ou O Jogo da Amarelinha, é crime. Desconhecer que certos tratamentos verbais, por exemplo, em castelhano são absolutamente coloquiais, e que traduzidos ao pé da letra ao português brasileiro significa um crime, essas coisas. Se um personagem diz a uma moça 'quiero besarte ahora' e alguém traduz para 'quero beijar-te agora' em vez de 'quero beijar você agora' soa bizarro. Enfim, a grande procura, o grande desafio é esse: o tom. Além, claro, da dor de saber que quando você chega ao fim, já não tem mais como ligar e dizer 'Julio, terminei o que você pediu!'...

Você sempre foi uma espécie de embaixador informal da América hispânica no Brasil, este país que sempre dá as costas ao resto do continente (com este governo, mais ainda). Por que temos esta tão pouca curiosidade em relação aos nossos vizinhos? O contrário também ocorre?

Ah, essa questão teria de ser tratada à parte. A questão é longa e complexa. Há pontos de confluência, nas artes e na cultura. Na música, por exemplo: Chico Buarque é, mais que referência, influência. Caetano Veloso também. O intercâmbio entre o melhor rock brasileiro (Paralamas, Titãs) com o rock argentino (Fito Páez, Charly García, Litto Nebia - este último, além do mais, fiel seguidor de Moacyr Santos e Tom Jobim), de Egberto Gismonti com o mestre cubano Leo Brouwer, o espaço de Cildo Meirelles no campo das artes visuais, a influência de Rubem Fonseca sobre gerações de mexicanos, enfim, há um intercâmbio natural. Seria mais intenso se, nos tempos em que este nosso país poderia ter tido uma política de Estado para a cultura, alguém tivesse levado adiante essa ideia. Hoje, nem pensar. A nossa cultura, as nossas artes, tudo virou alvo de destruição. E destruir as artes e a cultura é destruir a identidade de um povo, ou seja, o sonho de todo troglodita. Por sorte os políticos passam, e as artes e a cultura acabam retornando à superfície alguma vez...

*Ronaldo Bressane é autor de 'Escalpo' (editora Reformatório), entre outros livros

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