Mabel Feres/Estadão - 25/05/1996
Mabel Feres/Estadão - 25/05/1996

Reeditados, livros de João Antônio revelam persistência do drama das periferias

Autor estreou no mesmo ano que Rubem Fonseca e foi comparado a Mário de Andrade e João Guimarães Rosa

Bruno Zeni*, Especial para o Estado

02 de maio de 2020 | 16h00

Os dois primeiros livros de João Antônio ganham nova casa. A Editora 34 assume a edição dos livros do autor, que vinha sendo publicado pela Cosac Naify. Para começar, saem dois títulos de uma única vez, Malagueta, Perus e Bacanaço e Leão de Chácara, seus dois primeiros títulos. Os livros agora reeditados concentram o essencial da ficção de João Antônio (1937-1996). Posteriormente, o escritor viria a publicar em livro, além de contos, também sua produção jornalística: reportagens, crônicas, perfis e textos de gêneros indefiníveis.

Malagueta, Perus e Bacanaço (1963) e Leão de Chácara (1975) trazem os contos mais conhecidos do autor. Ao lado de Dedo-duro (1982) e Abraçado ao meu Rancor (1986), são as obras literárias mais relevantes de João Antônio. É interessante que os dois voltem a ser lançados juntos, o que já ocorrera em meados dos anos 1970, quando a publicação do segundo livro puxou a reedição do primeiro. Foi quando João Antônio experimentou o período de maior repercussão de sua literatura, com os dois títulos frequentando a lista de mais vendidos no país.

No meio disso tudo, a mudança de São Paulo para o Rio de Janeiro, onde viria a se estabelecer, finalmente, em Copacabana, onde comprou uma pequena cobertura, que chamava de “falso mirante”. A mudança para o Rio e o trabalho na imprensa alternativa, ou “nanica”, como ele preferia, reorientou sua produção literária em direção à não ficção. Colaborou com os órgãos que contestavam a ditadura, como Pasquim, Versus e Movimento. Passou a viver do que escrevia, de suas colaborações para veículos como Realidade, Jornal do Brasil, O Globo.

O volume de estreia, publicado originalmente em 1963 — mesmo ano, aliás, da estreia de Rubem Fonseca, com Os Prisioneiros — fez logo a fama do jovem autor, de 26 anos. João Antônio foi comparado a Mário de Andrade e Alcântara Machado, pelo retrato de uma São Paulo urbana e industrial, e a João Guimarães Rosa, pelo uso da linguagem oral, de fraseado inventivo, pela elegância do estilo aliada à elaboração estilística incomum. Outras referências importantes do autor eram Graciliano Ramos, Lima Barreto e, entre os estrangeiros, Hemingway, John Steinbeck e George Orwell. No fim da vida, viria a homenagear autores como Dalton Trevisan, Nelson Rodrigues e até Machado de Assis, que havia sido praticamente ignorado pelo autor em textos ou entrevistas.

Como se vê, o time de escritores que o influenciaram, um time essencialmente masculino, estabeleceu um panteão em que João Antônio se espelhou e que o informou tanto do ponto de vista da forma como nos temas. Foi chamado pela crítica de brutalista e elencado entre os praticantes de um realismo feroz. E houve quem sugerisse que sua literatura — que almejava, em alguma medida, retratar um Brasil popular e verídico — fizesse o jogo político da ditadura militar.

Reler João Antônio hoje, entretanto, faz pensar na persistência de alguns de seus temas e motivos recorrentes. É o caso, por exemplo, dos dramas da periferia das grandes cidades. O autor os retratou por meio de um personagem recorrente: o jovem pobre que hesita entre a boemia e a vida social regrada, entre a malandragem e o trabalho, mas cujo anseio de melhores condições de vida e afirmação pessoal é dificultado pela realidade brutal que o circunda. São temas românticos, que a ficção do autor atualiza em alto nível, mostrando como em um país periférico, desigual e violento como o Brasil o sonho de ascensão social e de respeito à pessoa humana, em todas as suas potencialidades, via de regra redunda em frustração ou punição.

Os primeiros contos de seu primeiro livro são exemplares. Trazem personagens que estão atormentados com a estreita moralidade familiar e a vida modorrenta de classe média baixa. São aqueles textos que o autor chamou de Contos Gerais: Busca, Afinação da Arte de Chutar Tampinhas e Fujie. Em todos eles, protagonistas masculinos inspirados no próprio autor são rapazes sérios, trabalhadores e dedicados que se deixam seduzir pelas ocupações transgressoras: o samba e o choro, a fotografia, a paixão pela mulher do melhor amigo, as disputas esportivas viris (o boxe, o judô, o jiu-jitsu), o futebol de rua, a sinuca. A boemia e a malandragem estão ali em estado latente, no seio da família convencional e do trabalho duro.

Esses temas vão ganhar condensação nos dois contos mais conhecidos do autor: Malagueta, Perus e Bacanaço, que fecha o livro homônimo, e Paulinho Perna Torta, que encerra Leão de Chácara. Neles, o autor aprofunda sua investigação dos impasses da malandragem e da criminalidade. Os personagens enfrentam uma sinuca entre o que querem e o que podem. Sonham alto e se lançam à aventura da boemia, mas encontrarem seus limites: a truculência e a corrupção da polícia, a moralidade estreita das famílias ditas “de bem”, o jogo ambíguo da imprensa, que os alça à fama e os entrega à sanha de uma sociedade conservadora, a violência que contamina tudo e que se volta, principalmente, contra eles mesmos, os personagens mais vulneráveis.

Os três malandros de seu conto mais famoso desenham os dramas dos homens de origem desfavorável, em seus diferentes momentos da vida. Malagueta é um velho carcomido, Bacanaço é o malandro de mãos manicuradas, senhor da noite, mancomunado com a polícia, e Perus, o menino talentoso e ingênuo, já entregue às “cobras do joguinho”. Os malandros representam em ato o drama das três idades do homem pobre num Brasil que não dá oportunidade, senão em ocupações perigosas e ameaçadoras: o jogo, a informalidade, o tráfico, a cafetinagem, a exploração, o acerto de contas, a vingança, a violência.

Paulinho Perna Torta é um conto longo, quase uma novela, que mostra como João Antônio estava interessado em um retrato multifacetado dos personagens e da realidade, comportando pontos de vista contraditórios. Ele narra a trajetória do Rei da Boca do Lixo paulistana por meio de uma perspectiva interior, em primeira pessoa. É o próprio personagem quem narra sua história e sua tomada de consciência, inclusive de seu drama pessoal e das ciladas que armou contra si próprio. João Antônio faz seu personagem denunciar os outros e a si mesmo, em uma operação literária complexa e fascinante.

Os dois livros agora reeditados trazem outros contos excelentes, menos conhecidos ou comentados. Em Malagueta, Perus e Bacanaço encontramos Frio, Meninão do Caixote, textos que ostentam protagonistas crianças, já inseridos em situações de vulnerabilidade. Em Leão de Chácara, Joãozinho da Babilônia é um conto longo, com passagens líricas, em que a linguagem aponta desdobramentos posteriores, aliando o retrato mais cru e violento da bandidagem com a subjetividade de quem se dá conta das armadilhas de seu lugar social.

Nos seus melhores contos, os protagonistas de origem modesta ascendem ou entreveem uma possibilidade de ascensão social, mas tomam consciência da sinuca em que se meteram. As coincidências com a trajetória pessoal do autor são veementes. Também ele, um jovem de periferia, nascido em Osasco, grande São Paulo, filho de pai imigrante português e mãe dona de casa, se deu conta a certa altura que a ascensão como escritor não garantia sucesso ou acolhida permanente. Teve de continuar experimentando e testando os limites da forma literária e de sua posição social, como jornalista, escritor e figura pública.

Nos livros posteriores, a ficção de João Antônio passa cada vez mais a ser atravessada pelo dado real, isto é, por aquilo que o autor entendia como atual e urgente, e ao qual dava ares de realidade — mas sem pretensões de verdade única, algo que pretensamente o escritor deveria anunciar ou revelar. O autor não sucumbiu às armadilhas da estratégia de voltar-se para os gêneros da não ficção como forma de mero retrato do país e de sua realidade. Ao contrário, criou uma maneira de reinventar a forma do conto e se reinventar como escritor.

Em vez de jornalismo, inventou algo limítrofe: o conto reportagem. Em vez de autoficção, fez contos autobiográficos que lançam mão de artifícios próprios da escrita ficcional. Em vez de artigo de opinião, fez crônica livre, sem moldes ou modelos, como se cada texto seu pudesse instaurar uma nova forma literária. O experimentalismo e a busca por novas formas acentuaram, no fim da carreira e no fim de sua vida, a sensação de que João Antônio havia abandonado novos projetos. É certo que não o fez - e a produção final, dos anos 1990, também traz títulos relevantes como A Dama do Encantado e Zicartola. Mas sua potência ficcional nunca mais se repetiria.

Como bem observa Xico Sá no texto de orelha da nova edição de Malagueta, Perus e Bacanaço, a obra de João Antônio tem sumido e reaparecido das livrarias com frequência. De início editado pela Civilização Brasileira, que lançou as obras do autor nos anos 1960 e 1970, depois saiu pela Record e por editoras menores ou voltadas a edições infantojuvenis, como a Guanabara, a Atual, a Ática e a Scipione. Mais recentemente, entre 2004 e 2012, o autor foi publicado pela editora Cosac Naify, que relançou seus principais livros e uma edição de contos completos.

Alguns títulos do autor, porém, ficaram de fora do projeto editorial da Cosac, que encerrou atividades em 2015, e a nova casa, a Editora 34, prevê relançar esses títulos, como os livros de jornalismo literário, Casa de Loucos e Malhação do Judas Carioca, além dos livros inclassificáveis, como Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto, uma colagem biográfica e literária sobre o autor preferido de João Antônio, e Lambões de Caçarola (Trabalhadores do Brasil!), que alia memória e crônica histórica a ilustrações, tangenciando a linguagem dos quadrinhos.

Se repetir esses dois primeiros lançamentos, as novas edições prometem estabelecer um novo lugar, mais coerente com a fineza da escrita do autor, que em seus grandes momentos lembra a elegância, a sobriedade, mas também os meneios de um jogador de sinuca que não revela os segredos de sua arte até surpreender o adversário — ou o parceiro, ou o leitor — com a precisão da tacada final.

* Bruno Zeni é escritor, editor e doutor em Teoria Literária, autor de “Sinuca de Malandro – Ficção e Autobiografia em João Antônio” (Edusp, 2016).

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