CARLOS EZEQUIEL VANNONI | PAGOS
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Reformar para quê? As mudanças no ensino pelo mundo, para o matemático francês Laurent Lafforgue

A vontade de mudar a escola está destruindo sua principal função: a de transmitir conhecimento sem sobrecarregar o aluno, diz o matemático francês Laurent Lafforgue, estudioso dos sistemas educacionais pelo mundo

Andrei Netto / PARIS, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2016 | 16h00

Na era da “pós-verdade”, não são raros os educadores a chamar a atenção para a incapacidade de jovens e adultos de interpretar textos e de discernir uma informação falsa de uma verdadeira. Numa época em que a matemática e seus algoritmos têm cada vez mais influência, um matemático eminente, o francês Laurent Lafforgue, adverte para a importância da relação prosaica entre professor e aluno. “Educar é antes de tudo transmitir conhecimento, do mais básico ao mais complexo. O elementar é desenvolver o senso de interpretação, que forma o espírito crítico”, disse ao Estado. “Uma educação que não garante nem mesmo o domínio da linguagem não permite pensar.”

Nesta entrevista, concedida à luz do movimento estudantil que persiste no Brasil, Lafforgue, vencedor da Medalha Fields, a mais alta distinção de sua área no mundo, discutiu presente e futuro da educação. A seguir, a síntese da entrevista.

O que seria uma reforma do ensino que abarque as necessidades dos estudantes hoje? Faz sentido retirar disciplinas como sociologia ou filosofia?

Não, de forma alguma. Creio que disciplinas como a filosofia ou a história são muito importantes. Engajei-me muito em debates sobre educação nos últimos 10 anos ou mais e fui inspirado por um só princípio: o de que a escola serve para instruir e transmitir conhecimentos. Para mim, que sou matemático, os conhecimentos mais importantes são os literários. Antes de mais nada, o domínio de sua própria língua, em especial o domínio da gramática, e a seguir a aprendizagem da literatura, por meio da leitura de grandes escritores e de grandes filósofos. Tudo isso me parece indispensável para o desenvolvimento do espírito crítico e para a própria formação da pessoa. Sem o domínio da linguagem, não podemos nem mesmo pensar.

Desde 2005, o sr. ressalta a importância do núcleo comum e de um ensino progressivo, que parta do mais simples ao mais complexo.

É muito importante para o aprendizado que o ensino seja progressivo e estruturado. Progressivo no sentido de que a cada ano ele deve ganhar em profundidade, e não passar a outro assunto sem nenhuma relação. Que avance do mais simples ao mais elaborado. Da mesma forma, o ensino precisa ser estruturado, e não dividido em áreas desconectadas. Na história, por exemplo, é importante ter uma cronologia que avance e estabeleça conexões entre os eventos. Nesse sentido, as grandes obras literárias, por exemplo, precisam ser inseridas.

O sr. defendeu à época a importância do ensino do latim e do grego no currículo.

Sim, meu engajamento começou assim. Assinei um abaixo-assinado pela manutenção do ensino do grego, porque acreditava que era algo importante. Os organizadores encontraram meu nome e, ao final, organizaram uma conferência com pessoas de diferentes disciplinas, que tinham em comum o apego ao ensino do latim e do grego. Ouvi muitas outras pessoas nessa conferência e fiquei estarrecido ao descobrir que educadores que defendiam o ensino de grego e latim advertiam para uma situação ainda mais grave, que era a do ensino do francês – a língua que falamos. Assim, descobri a crise grave pela qual a educação passava na França, assim como em muitos países, onde ela estava em vias de destruição rápida por políticas governamentais.

O sr. cita um ciclo negativo: professores educados de forma precária ensinam precariamente.

A educação é um grande transatlântico, com enorme inércia. Quando as coisas começam a se degradar, a inércia é muito forte. Os professores que sofreram com um ensino degradado têm muito menos conhecimento, e vão dispensar uma educação degradada. Muitas vezes, nem sabem o que é ensinar corretamente. A degradação começou há pelo menos meio século, e não é um fenômeno francês. Todos os países da Europa enfrentam o mesmo, nos Estados Unidos, os problemas do ensino fundamental e médio são ainda mais antigos, e tudo o que chamamos de Ocidente está atingido pela degradação do ensino e, logo, pelo nível cultural e intelectual.

E o sr. acusa o “muro ideológico”, criado por pessoas de direita e esquerda, que “ideologizaram” a educação, como responsável pela degradação.

Os responsáveis são de alguma forma todos os governos que se sucederam nos últimos 50 anos. Na França, a educação é mais dominada pela esquerda que pela direita. Mesmo quando os governos são de direita, as pessoas que mantêm o poder na educação são em geral de esquerda. Essa esquerda pós-1968 está em ruptura total no plano da educação com o que a própria esquerda havia feito na Terceira República (1870-1940). Quais são os princípios desse problema: antes de mais nada, esquecer que a missão original de uma escola é a de transmitir conhecimento. Houve uma desvalorização considerável, talvez total, do valor do conhecimento. Muitos intelectuais passaram a duvidar do valor do conhecimento e começaram a pensar que a escola era feita para outra coisa – em especial para formar novas gerações, seres pacíficos para uma nova sociedade. Há um desejo de uma nova sociedade que passa à frente da prioridade, que é a aquisição do conhecimento. Temos hoje novas gerações mal instruídas, têm pouco conhecimento, dominam mal sua própria língua e que não são nada pacíficos. Vê-se nas escolas o desenvolvimento da violência, o que, em outro momento, era inimaginável.

O sr. considera que o construtivismo tem parcela de responsabilidade nisso. Por quê?

O construtivismo desvalorizou o simples fato de que um professor pode pretender transmitir conhecimento. Evita-se que o professor se coloque em posição de superioridade em relação às crianças. Adotamos uma postura segundo a qual a criança deve construir o conhecimento sem se dar conta, e não receber o conhecimento. Mas isso pôs sobre os ombros das crianças um peso esmagador, porque é muito mais difícil, talvez impossível, encontrar sozinho o conhecimento que temos construído de forma coletiva há séculos. Vimos pesquisadores e intelectuais que pretendiam transformar as crianças, às vezes desde muito cedo, em pequenos pesquisadores. Mas eles esqueceram que eles próprios, antes de se tornarem pesquisadores, haviam recebido durante anos conhecimentos de seus professores, do mais simples ao mais elaborado, antes de chegarem eles próprios à obra criadora. Os professores também devem escutar os alunos, mas a prioridade é que ensinem.

O sr. não deve conhecer o movimento estudantil contra a reforma da educação no Brasil. Mas o que pensa em tese de uma reforma que, entre outras medidas, suprime o ensino da filosofia?

Depende da reforma. Vou lhe falar da experiência francesa. Nos últimos 50 ou 60 anos, tivemos uma sucessão de reformas. Cada uma feita para melhorar, mas essa sucessão foi o que destruiu a educação. Na França, a maior parte dos jornais considera que a educação nacional é um mamute impossível de reformar. Nos dizem que os professores são muito conservadores, que não aceitam a mudança. Para mim, é o oposto. Lamento que os professores não tenham resistido mais. A educação na França passou por modificações que mudaram para sempre a natureza da escola e do ensino. Essas mudanças foram catastróficas. Não digo que toda reforma seja má, isso depende do conteúdo da reforma. Mas, na experiência francesa, toda reforma se apresenta como boa, e os resultados são o contrário do objetivo inicial.

 

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