Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães
Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães

Regresso é tema do romance de estreia do poeta Tito Leite

'Dilúvio das Almas' conta história de Leonardo, um flâneur do Sertão

Giovana Proença, Especial para o Estadão

05 de maio de 2022 | 10h00

Após longa temporada de peregrinações, os contornos da cidade de origem pulsam encanto e horror aos olhos de Leonardo, protagonista de Dilúvio das Almas. Publicado pela Todavia, o romance de estreia de Tito Leite trilha, em certo sentido, o caminho oposto da tradição literária brasileira. No século 20, em especial na década de 1930, as letras nacionais foram inundadas por histórias de migrantes que abandonaram o sertão nordestino, local para onde retorna o personagem de Leite. 

Se os relatos de viagem exercem fascínio desde os primórdios da literatura, igualmente célebres são as narrativas de regresso. Leonardo, rumo ao sertão, deixa a capital paulista, palco de uma vida errante - regada de privações, episódios xenofóbicos e motivações artísticas. Há muitos nordestinos na terra de ilusões que é São Paulo, constata o personagem.

O retorno é para Dilúvio das Almas, no Nordeste. A pequena cidade, terra de origem do protagonista, reflete as regiões do Brasil presas no atraso, dominadas pelo banditismo, pelo cabresto e pela lei do mais forte. Lá, Leonardo encontra o desarranjo familiar, os desencontros amorosos e a perpétua sensação de desajuste. Paradoxalmente, esbarra também na chance de assumir um lugar entre os seus. 

O narrador-personagem de Leite é um flâneur do sertão. Tipo literário do século 19, com maiores ressonâncias na França, o termo – que pode ser traduzido como “passante” - foi popularizado pelo pensamento do alemão Walter Benjamin ao estudar a literatura de Charles Baudelaire. A vida andarilha de Leonardo ressoa grandes personagens estrangeiros como o Knulp do precursor hippie Hermann Hesse e Dean Moriarty, do beat Jack Kerouac

Em sua estreia, Tito Leite segue certa tendência da literatura brasileira contemporânea de se concentrar em problemáticas locais, como observamos no fenômeno Torto Arado (2019), de Itamar Vieira Jr. Esse pendor, contudo, vem de longa data. O regionalismo perpassa a tradição literária nacional, passando pelo modernismo, de modo a desaguar no romance de 30, com nomes como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego

Desse extenso legado, que remete à produção de fora do eixo Sul-Sudeste, destaca-se em Dilúvio das Almas o tom áspero de denúncia. Embora, em certos episódios, o romance tangencia motes do gótico e da literatura fantástica, essa atmosfera logo é rompida, e somos colocados na esfera do neorrealismo. 

Para alguns leitores, ávidos pelo desenlace da trama, certas passagens do romance podem pecar no excesso do tom filosófico, um dos riscos de se assumir um narrador-personagem.  Aos que conseguirem controlar a ansiedade, as reflexões de Leonardo, essencialmente poéticas, podem ser tão interessantes quanto o desenrolar dos acontecimentos do romance, que combina múltiplos assassinatos e conspirações políticas. O tom poético era esperado de Tito Leite, já conhecido por seus versos. 

Em Dilúvio das Almas, há uma elevação da vida andarilha que se aproxima do metafísico, com uma devoção quase religiosa. Misturado com a violência, em primeiro plano na trama, esse transcendentalismo ressoa alguns momentos da obra contística do mineiro João Guimarães Rosa. 

Neste romance curto, Tito Leite constrói uma narrativa de queda do herói. A violência pulsante, que se alastra por todas as camadas do livro, o torna quase uma versão menos distópica de Bacurau (2019), sucesso brasileiro de bilheterias de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. A brutalidade acaba, por fim, a chegar até Leonardo, o hippie sertanejo. 

Um estranho em sua própria terra e decidido a recusar as convenções sociais que o enjaulam, Leonardo abraça o desconforto do mundo afora. O termo “estrangeiro”, usado para definir a si mesmo, ressoa o clássico moderno O Estrangeiro, do argeliano Albert Camus. Mas, se no romance francófono a violência vem de um ato gratuito, em Dilúvio das Almas, Leonardo assume as suas razões e o lugar entre os seus conterrâneos: “Já não sou um estrangeiro em minha terra”, diz ele.  Dilúvio das Almas se apresenta como um bom romance de estreia, próximo da produção contemporânea brasileira, mas original ao situar um flâneur de alma mundana nos confins do sertão nordestino. Ao se apropriar de temáticas típicas da Geração de 1930, Leite evidencia o anti-progresso de partes esquecidas do país, nas quais a barbárie ainda é a regra. Esse impulso de violência ressoa o próprio mito bíblico evocado no título: a destruição do mundo. Mas, o romance nos mostra: há sempre a possibilidade de purificação.

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