Cobbe Collection
Retrato pintado no século 16 do dramaturgo inglês William Shakespeare  Cobbe Collection

'Rei Lear' ganha nova tradução e se prova essencial ao século 21

Tragédia mais turbulenta de Shakespeare retrata a decadência do rei que reparte seu reino entre as filhas e acaba como um mendigo

Jerônimo Teixeira, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 16h00

Na estranha condição de rei sem coroa e sem teto, o velho Lear está perdendo também a razão. Rechaçado pelas filhas em uma noite de tempestade, ele se põe a brigar com os elementos que o fustigam: "Sopra, vento, explode as faces. Bufa e bafeja!”, grita o ancião. "Furacões e cascatas, jorrai até que tenham/ Lavado os campanários e os galos nos pináculos!/ Vós, fogos sulfúricos, prestos como a mente,/ Arautos dos clarões que estraçalham carvalhos, / Queimai minhas cãs!”. O bobo, companheiro de infortúnio, pede que o mestre capitule às exigências humilhantes das filhas para que os dois possam se abrigar da intempérie: "Ai, titio, água-benta cortesã em casa seca vale mais que aguentar essa água toda. Tinho, querido, entra, pede a bênção pra tuas filhas”. No diálogo entre os versos delirantes do rei e a prosa sensata do bobo, chocam-se o sublime e o cômico. Há outros tantos contrastes, rupturas e dissonâncias em Rei Lear, a mais turbulenta das tragédias de William Shakespeare, e esses efeitos foram brilhantemente transpostos para o português na nova edição da peça pela Penguin/Companhia das Letras, de onde saíram os trechos aqui citados. O tradutor é Lawrence Flores Pereira, professor da Universidade Federal de Santa Maria, também responsável pelas extensas e esclarecedoras notas da edição e autor, junto com Kathrin Holzermayr Rosenfield, do prefácio.

O leitor de Shakespeare anda bem servido no Brasil. No final do ano passado, saiu uma vistosa edição de Hamlet, pela Ubu, em nova tradução da poeta Bruna Beber, enriquecida com excertos de textos críticos clássicos assinados por autores como A.C. Bradley, Coleridge e Turguêniev – o escritor russo ensaia uma curiosa comparação entre o príncipe dinamarquês de Shakespeare e o Dom Quixote de Cervantes: Hamlet representaria o “espírito pesado e sombrio” do “homem setentrional"; Quixote, o “espírito luminoso” do “homem meridional”. Mas é da Penguin hoje o esforço editorial mais consistente para atualizar Shakespeare no Brasil, com as notáveis traduções de Flores Pereira (Hamlet, Otelo e agora Rei Lear) e José Francisco Botelho (Romeu e Julieta e Julio César). 

Rei Lear fez sua estreia em 1606, ano em que um surto da peste encurtou a temporada teatral. Em dezembro daquele ano, foi encenada na corte do rei James I, patrono da companhia de Shakespeare. Supõe-se que James, então empenhado em unificar Inglaterra e Escócia em uma só nação, tenha apreciado o drama do soberano que cai em desgraça porque tomou o caminho inverso: já na primeira cena, Lear divide a ilha entre as filhas Goneril e Renan. Uma terceira parte do reino caberia a Cordélia, a filha mais jovem, se Lear não cometesse o erro trágico que desencadeia todos os seus infortúnios: deserda a caçula quando ela se recusa a declarar amor ao pai em uma cerimônia de lisonja cortesã. Suas irmãs excedem-se na retórica bajulatória, mas Cordélia ama o pai sinceramente, e não quer rebaixar esse sentimento. Quando o rei pergunta o que ela diria para ganhar o “terço mais opulento” da partilha, a resposta é curta e cortante: “Nada, meu senhor”. 

"Nada” será uma palavra-chave da peça. Em Rei Lear, diz o crítico A.D. Nuttall, a imaginação de Shakespeare está “enredada pela noção de um nada que é universal e portanto igual para todos”. Lear não esperava ser reduzido a tal insignificância. Ao abdicar do poder, impusera às filhas a única obrigação de lhe dar abrigo e de permitir que conservasse um séquito de cem cavaleiros. Goneril e Renan, no entanto, logo se cansam do hóspede indesejado, e reduzem progressivamente o número de seus seguidores. O bobo faz a conta das perdas de seu amo: "Valho mais que tu agora. Sou um bobo e tu, o zero do nada”. Humilhado e encharcado sob o temporal, Lear afinal percebe que fora insensível à miséria de seus súditos: "Pompa, toma um remédio / Busca sentir o que sentem os desgraçados”.

A desgraça de Lear espelha-se no drama paralelo de Gloucester, nobre que, influenciado pelas intrigas do bastardo Edmund – o maior vilão em uma peça pródiga em vilões –, renega seu filho legítimo, Edgar. Perseguido pelo pai, Edgar assume o disfarce de um mendigo doido, o Pobre Tom. Nessa persona, junta-se ao reduzido séquito do antigo rei, ao lado do bobo e do leal Kent. A dicção popular do Pobre Tom é dos feitos mais inventivos da nova tradução. 

Lear é um personagem lendário, mas as crônicas históricas do tempo de Shakespeare davam-lhe o estatuto de figura real. Teria sido um rei britânico na Antiguidade pré-cristã – daí os personagens da peça invocarem Júpiter e outros deuses greco-romanos. Na lenda original, Lear não enlouquecia, e nem era acompanhado por um bobo. Esses elementos são criação de Shakespeare. Dramaturgos posteriores fariam mudanças menos felizes na história. Já ao final do século 17, as plateias não aguentavam o final em que Cordélia é assassinada na prisão, a mando de Edmund, e Lear morre ao ver o cadáver da filha. Uma versão sentimental ganharia os palcos, encerrando-se com as felizes bodas de Edgar e Cordélia (personagens que não contracenam na peça de Shakespeare). O século 19 restitui o enredo shakespeariano, e a tragédia alcançou nova proeminência no século 20, um tempo mais afinado, segundo diz o crítico Northrop Frye, aos “sentimentos de alienação e de absurdo”. Pelas mesmas razões, Rei Lear será uma obra essencial para o século 21. 

Tudo o que sabemos sobre:
William Shakespeareteatroliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O ator Jamie Horton como Rei Lear na montagem da peça de Shakespeare dirigida por Stephen Brown-Fried para a Northern Stage Company em janeiro deste ano Kata Ssavari/Northern Stage

Os desafios da tradução de William Shakespeare no Brasil

Tradutor Lawrence Flores Pereira, que verteu a nova edição de 'Rei Lear', comenta as dificuldades

Alberto Bombig , O Estado de S.Paulo

Atualizado

O ator Jamie Horton como Rei Lear na montagem da peça de Shakespeare dirigida por Stephen Brown-Fried para a Northern Stage Company em janeiro deste ano Kata Ssavari/Northern Stage

O professor Lawrence Flores Pereira, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS), é um dos expoentes da nova geração de tradutores brasileiros que trabalham arduamente na empreitada de verter para o português a obra de William Shakespeare. Nem bem acabou de desbravar Rei Lear, recentemente publicado pela Penguin, ele atualmente se dedica a outra peça do Bardo, a sombria Macbeth.

Os desafios dessas traduções são muitos e o ofício exige grande dose de uma solidão abnegada. Não bastasse o fato de as peças terem sido escritas no inglês praticado na virada dos séculos 16 e 17, Shakespeare muda constantemente os registros linguísticos de seus textos, usa e abusa dos trocadilhos e mistura prosa com poesia, sem contar que tudo foi escrito para ser encenado, ou seja, as falas possuem ritmo, pausas, entonações, respiração. 

Ao longo dos últimos dez anos (ou mais) mergulhado nesse desafio shakespeariano, Flores Pereira também traduziu para a Penguin Otelo e Hamlet. Para ele, “decifrar” o Bardo está se transformando em uma missão de vida. “É um desafio, mas que aprendemos aos poucos”, diz. Segundo o professor, foi seu contato com o teatro e com atores que proporcionou a compreensão do quanto o fôlego retórico e a respiração devem ser respeitados numa tradução teatral. A dificuldade maior é produzir uma poesia feita de contrastes e não um platô estilístico sem os sobressaltos que eram comuns ao verso de Shakespeare. 

“O célebre solilóquio de Hamlet (“ser ou não ser”) é um prodígio de sintaxe lenta, com paradas súbitas reflexivas. O tradutor deve ser capaz de equivalê-las em português, alentar ou acelerar o discurso quando necessário, pois é fato que esse é um dos traços mais notáveis de Shakespeare, suas alterações bruscas de velocidade enunciativa”, diz.

Outro grande desafio é o famoso “wit” de Shakespeare. “É muito comum o leitor e até mesmo tradutores ressaltarem as dificuldades dos trocadilhos. Eles são importantes, sem dúvida. Entretanto, eu diria: planejar é melhor, ou seja, o mais importante é restabelecer o que poderíamos chamar do “verso prosaico ou falante” que diferencia Shakespeare não apenas da tradição poética de modo geral (inglesa e lusa) como de uma parte considerável de seus contemporâneos.”

Para explicar melhor é preciso entrar em detalhes técnicos: chegar à fluidez da fala do teatro poético, sem cair em ritmos ou acentos repetitivos, não é algo muito fácil porque a tradução, em vez de operar em único plano, torna-se sonoramente polirrítmica e escultural. “Por outro lado, há decisões que o tradutor deve fazer. Uso verso? Livre? Decassílabos (dez sílabas métricas)? Dodecassílabos (doze sílabas métricas)? Usei o dodecassílabo polirritmado que, mais longo que o decassílabo em duas sílabas, dá melhor espaço para todas as palavras de cada verso, mas, mais do que isso, permite sequências ritmadas que também são necessárias”, exemplifica Flores Pereira.

Segundo o professor, se compararmos a tradução da poesia lírica com a tradução teatral, o modo como definimos esse desafio se altera: embora também o teatro tenha obscuridades (e o de Shakespeare particularmente), sua grande extensão é clara, possui tonalidades, colorações intensas que não devem escapar ao tradutor. “Para a nova a geração de tradutores de Shakespeare também é importante que se inclua na tradução a própria opulência lexical da língua portuguesa, o que muitas vezes faltou em antigas traduções que, por diversas razões métricas, eram obrigadas a pechinchar os termos. Tendo a buscar equivalência lexical, sintática, tonal na minha tradução”, afirma. 

Um exemplo dessa opulência está numa fala de Kent, em Rei Lear: “Um patife, um cafajeste, lambedor de carne abocada; um canalha ordinário, arrebicado, raso, amendigado, com três libras e três librés fedidos e meias de casca-grossa! Um calça-frouxa, um choraminga de tribunal; um embusteiro filho da mãe, pimpão de espelho, puxa-saco leva e traz, um amaneirado; um escravo que herdou uma bruaca e que teria feito um bem se virasse um cafetão, mas que é só mistura de patife com mendigo, poltrão e o alcoviteiro, e filho e herdeiro de uma cadela vira-lata. Um tipo em que vou bater até cair em clamorosos berros se negar a menor sílaba desses títulos”.

No domínio da prosa – parte constituinte também das peças de Shakespeare – as mesmas qualidades valem. “Gosto de dar o exemplo das falas de Poor Tom, em Rei Lear, que se disfarça de louco, miserável, ente errante pelas estradas e pelos ermos de Inglaterra: ele fala em vários registros.” Porém, busca-se evitar repetir opções de traduções do passado: “É preciso mesmo assim evitar o estereotipado da fala caipira que foram usadas anteriormente, por exemplo, por Millôr Fernandes (1923-2012)”. 

A solução, segundo Flores Pereira, nesses casos, foi usar sinonímias estranhas que deram à fala do personagem Poor Tom algo da escrita do grande escritor brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967), técnica que permite “evocar a familiaridade com algo que é da ordem do registro popular, sem situá-lo em nenhuma localidade específica do imaginário brasileiro, evitando assim o anacronismo”. Como nesta fala de Edgar Poor Tom: “É o malino encardido, o Tricafutrica: ele exsurge no toque de recolher e errambula até o primeiro cocoricó. Ele traz a catarata, dá vesgueira no olho e acarreta o lábio de lebre, embolora o trigo branco e atormenta as pobres criançuras da terra”. O resultado desse trabalho todo: novas edições que, ao fim e ao cabo, “atualizam” e revigoram a obra de William Shakespeare paras as novas e as futuras gerações. 

Tudo o que sabemos sobre:
William Shakespeareliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.