Relato de viagem publicado um século antes de Marco Polo chega ao Brasil

Relato de viagem publicado um século antes de Marco Polo chega ao Brasil

'O Itinerário', de Benjamin de Tudela, ainda não havia sido traduzido no País

Moacir Amâncio*, Colaboração para o Estado

21 Outubro 2017 | 16h00

Houve um tempo em que os sábios judeus eram simultaneamente filósofos, poetas, satíricos, médicos, ministros de governo, generais. Havia também aqueles dotados de forte tendência à aventura por áreas próximas e distantes, entre as quais se destaca, obviamente, a nostálgica Terra de Israel, emblema da redenção do exílio. Foi ao redor de mil anos atrás, quando a grande maioria dos israelitas vivia no mundo dominado pelos maometanos, o que incluía Al Andalus, na Ibéria. Mesmo em pontos reconquistados pelos cristãos a influência árabe permaneceria presente, inclusive no aspecto idiomático – a língua do Islã era a língua da cultura, e a literatura hebraica também adotava a expressão laica na poesia, paralelamente às obras sinagogais. A lista dos grandes nomes entre os judeus é extensa, mas podemos lembrar Shemuel haNaguid (o Príncipe), Moshê ibn Ezra, Yehudá haLevi, para ficarmos em três dos mais conhecidos poetas, conhecedores das Escrituras, da lei judaica (Halachá-Talmud: conheça mais sobre o Talmud no 'Estado da Arte'), do árabe, etc. Desse etc. fazem parte também aqueles que se arriscavam em outras viagens, isto é, aquém das incursões profundas pelo mundo da mística, a Cabala que se desenvolveria naquela época. 

O rabi Benjamin de Tudela, nascido no reino de Navarra (na parte cristã) ao redor de 1130, morto em 1173, incluiu na sua vontade de conhecimento as viagens terra a terra, registradas em hebraico, nesse Itinerário, livro que se tornaria clássico no gênero, escrito cem anos antes do relato de Marco Polo. O mundo de Benjamin era peculiar, pensando-se em termos ocidentais: a influência do chamado Levante, a partir da conquista islâmica, abrangia desde pedaços da Ásia e Norte da África até o Sul da Europa. Ao que tudo indica ele também foi mercador e traçou a longa viagem pelo Oriente Médio, África e enfim Europa, no retorno ao seu país. Uma geografia que sofreria muitas e dramáticas modificações, e que ele nos permite conhecer por meio dos seus olhos e da sensibilidade do seu tempo mais a sua condição de judeu natural da Espanha, centro cosmopolita e multilíngue – a dualidade é constante e fértil. 

O Itinerário, um grande exemplo do cosmopolitismo judaico da época, é finalmente traduzido por J. Guinsburg, idealizador e editor da coleção Judaica (Perspectiva), à qual não limitou a atividade intelectual e editorial. O tradutor, ficcionista, ensaísta, critico, professor, além de editor, conseguiu também construir uma obra bibliográfica universitária merecedora de figurar entre importantes empreendimentos, inclusive internacionais. O Itinerário contém aparato à altura das exigências de um texto pioneiro e iluminador como esse: introdução erudita, notas e ilustrações que servem de contraponto ao texto e “guiam” o leitor pelo universo concreto e às vezes nem tanto do rabi Benjamin, que desenha um mapa ao mesmo tempo particular e de interesse histórico, geográfico, etnográfico. Sem contar o aspecto linguístico do hebraico que se recriava nos vários gêneros da expressão escrita mencionados acima.

+ Máximas do Talmud

Deve-se atentar ao jogo no qual o Itinerário foi vivido e escrito. As notas e observações objetivas do rabi Benjamin são, digamos, tanto “concretas”, voltadas para o que se chama realidade externa, como refletem as ideias e as emoções do autor, norteado pela curiosidade e pelo fascínio diante das mil e uma noites e dias abertos diante dele. Universo do qual ele fazia parte, pelo sentimento de pertença e herança cultural, e, no entanto, desconhecia até a partida em busca do entendimento de um europeu que levava em si a síntese de Oriente e Ocidente. O que ele descreve, mesmo quando se reduz a números e breves informações, decorre das suas preocupações como judeu: ele fornece notícias – para todos os tempos – da vida naquelas regiões, destacando-se as estatísticas a respeito das populações judaicas e resumos sobre os diferentes modos de existência de cada uma delas, assim como dos outros protagonistas daqueles cenários. Mesmo os números não são reduzidos, portanto, à frieza das meras cifras, eles são uma espécie de projeção da subjetividade exilada do judeu medievo e que se abre para o universal. 

A escrita é seca, se quisermos uma comparação anacrônica, ou premonitória, diremos que se aproxima do tom jornalístico, ao qual, porém, não faltam as narrativas fantásticas e as informações indiretas, em que a imaginação acrescenta-se como vontade de saber e não só dele, o viajante escritor, mas também do leitor de sua época e desta atualidade – todos com suas respectivas limitações, obviamente. Deve-se lembrar que registros feitos pelo rabi Benjamin são confirmados por outras fontes, tornando-se dessa maneira dados relevantes do ponto de vista histórico. O Itinerário não é apenas um simples relato, como disse, há momentos mágicos em que o “mero” registro adquire vibrações fantásticas e há elementos fantásticos que se incorporam à história, pelo imaginário, formando um conjunto único e fascinante. 

*Moacir Amâncio é professor de literatura hebraica na USP e autor de 'Matula' (poemas, Annablume), 'Ata' (idem, Record), 'Yona e o Andrógino - Notas Sobre Poesia e Cabala' (Nankin/Edusp), entre outros livros 

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