Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Relegadas do cânone, escritoras brasileiras são redescobertas

Com novas edições no mercado, Chrysantème, Júlia Lopes de Almeida, Maria Firmina dos Reis e outras autoras retornam à história da literatura nacional

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2019 | 16h00

Nem todas as moças daquele tempo se resignavam a ser recatadas e do lar, prendadas em bordado, declamação, piano e finas maneiras. Falo dos séculos 18 e 19. Porque liam muito, de modo geral até em francês, entregavam-se com volúpia e temor à tentação de cometer às escondidas o que os marmanjos podiam fazer às claras. “Ler era de fato um antídoto para o confinamento que a época lhes impunha”, observou a socióloga Maria de Lourdes Eleutério, autora de uma singular narrativa, Vidas de Romance (disponível na internet), em que mistura as trajetórias e as dificuldades de onze escritoras e poetas brasileiras do final do Império e começo da República injustamente esquecidas. 

Diários secretos lhes eram permitidos, já escrever poemas, contos, artigos e romances, quase um pecado. Publicá-los, uma degradação. No rastro de George Sand e George Eliot, diversas de nossas jovens vocacionadas para as letras só foram além do círculo doméstico mascaradas por um nome falso. Emilia da Paz foi o pseudônimo atrás do qual escondeu-se Amélia de Oliveira (1868-1945); Carmen Dolores era o “nom de plume” de Emilia Moncorvo Bandeira de Mello (1852-1910), que fez carreira como colunista dominical do jornal O Paiz; Cecília Bandeira de Mello Rebelo de Vasconcelos (1870-1948) celebrizou-se como Mme. Chrysanthème, assinatura inspirada no título de um romance do francês Pierre Loti. As poesias de Amélia de Oliveira – noiva de Olavo Bilac, com quem não se casou porque o irmão Alberto de Oliveira, também poeta, achava-o “demasiado boêmio” e deu o contra – só foram publicadas com o verdadeiro nome dela postumamente. 

Do ponto de vista da noiva, o penchant boêmio de Bilac talvez fosse o menor dos seus defeitos. Sua reação a um soneto de Amélia publicado no Almanaque da Gazeta de Notícias, em 1888, revelou-o tão careta e repressor quanto os demais varões ao redor. Em carta acolchoada de chamegos à sua “querida Amélia”, o bardo que ouvia estrelas expressou desagrado pela publicação, apoiando-se num apotegma cretino de Ramalho Ortigão (“O primeiro dever de uma mulher honesta é não ser conhecida”), e exigiu que ela continuasse a fazer “muitos versos”, para os irmãos, as amigas, e principalmente para ele, Bilac, “mas nunca para o público”. 

Pelo menos três outras vocações literárias tiveram suas carreiras frustradas por pais, irmãos e pretendentes problemáticos. Monopolizada pelo irmão famoso, a quem acompanhava ao piano nos recitais de poesia, Adelaide Castro Alves Guimarães só logrou publicar seus primeiros versos aos 79 anos. Todo o potencial de escritora de Evangelina de Lima Barreto foi anulado pela trabalheira que lhe deram o pai louco e o irmão alcoólatra, por ela arduamente sustentados com aulas de piano. Outro irmão dissipado pela bebida impediu que Maria Ernestina Fagundes Varella, copista full time do poeta Fagundes Varella, alçasse voo com seus próprios versos.

Mesmo expostas publicamente, em colunas de jornais e edições assinadas com pseudônimos, nossas primeiras grandes damas da prosa e da poesia foram sempre mantidas na segunda divisão ou simplesmente olvidadas. A fluminense Narcisa Amália (1852-1924), cujos versos antiescravistas enfeixados na antologia Nebulosas receberam afago de Machado de Assis, é a única mulher mencionada na História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi, humildemente encolhidinha entre os condoreiros “menores e mínimos” que brotaram à sombra de Castro Alves. Mas nem ela nem a maranhense Maria Firmina dos Reis, autora do primeiro romance afro-brasileiro (Úrsula, 1859), encontraram vaga no clube do Bolinha que Astrogildo Pereira montou, com centenas de nomes, num ensaio sobre os intelectuais do abolicionismo, publicado em 1952. 

Mais atento, Wilson Martins abrigou três escritoras no quinto volume de sua História da Inteligência Brasileira: Maria Feliciana de Oliveira, autora de “um ensaio de novela positivista”, intitulado Marta; a piauiense Amélia de F. Bevilacqua, mulher do jurista Clóvis Bevilacqua, ativa nas primeiras três décadas do século passado; e Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), “uma romancista a exigir urgente releitura e reavaliação”. Ambas tarefas foram efetuadas por Luiz Ruffato, com a colaboração de Angela di Stasio, do setor de manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional, que reuniu em livro as colunas semanais (Dois Dedos de Prosa) de Júlia Lopes em O Paiz.

Já foi bem mais difícil encontrar as pioneiras criações literárias femininas (e feministas) do Brasil Império e dos primeiros anos da República. A Biblioteca Nacional exumou alguns títulos, tempos atrás, a Carambaia reeditou agora o revelador Enervadas, de Chrysanthème, e o nunca assaz louvado A Falência, de Julia Lopes de Almeida, também voltou às livrarias. 

Publicado originalmente em 1902, A Falência é o ponto mais alto de nosso romance realista, na avaliação de Wilson Martins, a ficção mais reveladora do surgimento da burguesia comercial no Rio no início da República. De um “talento admirável”, embasbacou-se João do Rio; “comparável a Lima Barreto”, escreveu Ruffato, que imputa parte da responsabilidade pelo esquecimento da romancista aos modernistas da primeira hora, que jogaram numa vala comum tudo que fora produzido antes de 1922. Só um arraigado machismo explica sua ausência do cânone – e sobretudo da Academia Brasileira de Letras, que ajudou a fundar, mas nela foi impedida de entrar, por ser mulher.

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