Liana John
Liana John

Relevos da alma

Em livro de memórias, Evaristo de Miranda resgata os anos e os segredos que viveu na África, na década de 70, e conta como um olhar compassivo ao outro, ao diferente, pode marcar a nossa existência

Entrevista com

Evaristo Eduardo de Miranda

Juliana Sayuri, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2015 | 16h00

No papel, notícias de uma África esquecida: um punhado de gente sequestrada, torturada, tragada à vala comum no conflito provocado pelos extremistas do Boko Haram. Mais de 3.500 civis mortos desde janeiro, entre Camarões, Chade, Nigéria e Níger, tão distantes de nós. Na pele, a história é outra. De uma África lembrada, próxima, presente - feita de areia, choupanas de palha e campos de cereais, entre baobás e acácias. Evaristo Eduardo de Miranda viveu em Maradi, no Níger, entre 1976 e 1979. À época, o agrônomo formado na França se aventurou ao sul do Saara para pesquisar desequilíbrios ecológicos.

Mais de 30 anos depois, ele volta àqueles tempos africanos e deles retira a força das histórias de seu novo livro, A Geografia da Pele, cujas primeiras páginas vão logo explicando o título: “Minha pele não suportou três anos no deserto do Saara. Animado pela ousadia dos deuses da juventude, não percebi o quanto ela era tatuada pelo sol, pelo vento, pela vegetação, pelos animais e pela seca. Hoje, uma estranha geografia marca minha epiderme. Percorro suas manchas, rugas, máculas, dobras e cicatrizes como quem caminha entre colinas, montanhas, cordilheiras, países e continentes. Nas entranhas da memória, diversos idiomas e sonoridades identificam cada uma dessas paisagens de meu corpo. Elas têm um só nome: África”.

Paulistano, Miranda saiu do Brasil sob o chumbo da ditadura. Na França, graduou-se no Institut Supérieur d’Agriculture Rhône Alpes, de Lyon, e doutorou-se na Universidade de Montpellier. Num diário registrou a aventura no Níger, um dos países mais pobres do mundo, entre povos hauçás, fulanis e tuaregues. E esperou mais de três décadas para publicar essas memórias. Prometera, para si e para os povos com os quais dividiu a sombra das árvores e a lida na terra, guardar segredo sobre certos detalhes inconvenientes de suas descobertas - contados minuciosamente no livro.

Aos 63 anos e autor de 45 livros, Miranda é o atual chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélite. De Campinas, onde vive, às vezes observa imagens do Níger na tela, e as andanças que lá fez se tornam pequenos pontinhos no Google Earth. Mais que um diário de viagem ou anotações científicas, embora haja muito no livro de reflexão etnográfica, o mérito de Miranda, além de escrever brilhantemente, é fazer emergir de A Geografia da Pele questões universais da própria ideia de humanidade: a força da palavra, a honra, o olhar para o outro, “o sentimento de compaixão e admiração por um mundo estranho, alheio e, ao mesmo tempo, tão próximo” - fatos e sentimentos que, com a ajuda do ambiente local, lhe deixaram marcas indeléveis na pele. É sobre elas que conversamos nesta entrevista.

Como foi compilar essas recordações para escrever A Geografia da Pele

Na África, escrevi um diário com desenhos, anotações e relatos. Faço isso desde os 13 anos, provocado por uma professora de português do ginásio. Ao escrever o livro, muita coisa foi reavivada em minha memória. Cheguei a sonhar, relembrando episódios vividos. Toda essa experiência de vida ficou gravada na minha humanidade. Registrada na memória, no coração e na pele. Nunca deixei de revisitar esse território, como uma experiência espiritual e corporal, passo a passo, palmo a palmo, poro a poro.

A chave para abrir seu livro está nas primeiras páginas, que mostram o que é a questão da geografia da pele. Pode traduzir essa ideia?

Logo no início do trabalho de campo tive meu corpo “tatuado” por cantáridas. Diante das marcas deixadas em minha pele por esses insetos, os agricultores começaram arregaçar mangas, calças e túnicas. Cada um me mostrava suas marcas, abundantes, diversas e artísticas. Com orgulho. Eles liam palavras, frases e mensagens das cantáridas em seus dorsos e membros. Colocados lado a lado era possível talvez descobrir um texto, ler um livro, dependendo da ordem e da posição das pessoas. Seus corpos marcados eram capítulos em busca de livros. Eles aguardavam algum comentário de minha parte, sobre as minhas marcas. Qual seu significado? Minha ciência branca e ocidental devia ter algo a dizer sobre isso, mesmo se eu não entendia nada daquela caligrafia entomológica. Que comentário eu poderia fazer sobre nódoas e cicatrizes provocadas por insetos em minha pele? Foi o começo de uma estranha e extraordinária aventura.

Que “casualidades juvenis e políticas” o levaram à França e, depois, ao Níger?

Esse passado, dos anos 70 no Brasil, talvez não tenha tanto interesse. Participei do movimento estudantil e democrático. Terminei na França e, de certa forma, devo toda essa experiência ao autoritarismo da época - sem isso, dificilmente teria feito a graduação em Agronomia por lá. As opções assumidas na vida ou as deixadas de lado... Tudo nos foi dado. Tudo é graça. Já a ida ao Níger resultou de uma proposta para coordenar um programa de pesquisas, financiado pela agência de pesquisa agrícola francesa, sobre as relações entre desequilíbrios ecológicos e agrícolas. Era uma visão científica pioneira e holística demais para aqueles tempos. Minha equipe no Níger incluía agrônomos, técnicos, antropólogos e geógrafos. Deu certo. Marcou meu DNA. Até hoje, como pesquisador da Embrapa, trabalho nessa fronteira entre agricultura e ecologia, entre os homens e a natureza.

O que acha da relação homem e natureza hoje?

Não há uma relação homem-natureza. Existem relações entre os homens através da natureza. Quero dizer, a natureza não é a finalidade das relações sociais. É o objeto. Essa é uma perspectiva diferente para compreender essa questão. Assim, acredito que toda a crise no uso da natureza reflete uma crise na relação entre os homens. 

Quais suas descobertas científicas na África? 

Estudei a pecuária, caminhando dias atrás dos bois. Observava o que eles comiam, o quanto caminhavam, quanto tempo paravam para ruminar. Descobri que faltava tempo para os ruminantes ruminarem! Essa constatação simples, mas rigorosamente observada, deu origem a várias iniciativas de extensão rural e de gestão dos rebanhos. Na agricultura, minhas pesquisas revelaram os sistemas tradicionais de gestão do espaço rural, o modo como os campos eram distribuídos entre homens e mulheres. E qual era a lógica social dessa distribuição injusta com as mulheres. Elas sempre recebiam parcelas situadas nos piores solos. E no final, a produtividade de todos era muito parecida. Pude explicar o porquê desses resultados surpreendentes. 

Por que a produtividade era parecida?

Porque uma mulher hauçá na casa dos 35 anos já tinha se divorciado três vezes. É algo cultural. No divórcio, a mulher leva o capital do antigo marido. E os ganhos todos, as mulheres investiam em cabras. Assim, as mulheres eram donas de rebanho de cabras, por isso podiam adubar as terras com esterco. Os homens não tinham rebanhos. Logo, apesar de terem as melhores terras, eles não podiam adubar as terras com adubo orgânico como o as mulheres. No fim, dava empate. 

E as descobertas antropológicas? Elas têm a ver com a sua promessa de guardar silêncio sobre a aventura africana por mais de 30 anos? 

A palavra, no meio rural, é sagrada. No mundo todo. A vida urbana desconhece cada vez mais esse valor ligado à honra e à vida comunitária. Com o tempo, ao viver com os hauçás, eles começaram a me revelar segredos, temas velados. Pediram reserva de “7 x 3”, como diziam. Ou seja, 21 anos. E para alguns assuntos até “7 x 4”. Eu me comprometi e cumpri. Nunca escrevi uma só crônica sobre esse tempo no Níger. Aguardei. Essas vivências eram como sementes. Nos solos, as sementes podem aguardar até séculos. Elas ficaram latentes, no húmus da memória. Esperavam a chegada desta primavera, deste tempo. Foram apenas 30 anos. Agora o tempo autoriza falar, germinar, crescer, florir e dar frutos.

Os garotos africanos o viam como um branco, cor de cadáver, descolorido. O sr. era o “outro”. Nesse jogo de alteridade, como via os africanos? 

A maior tarefa de nossas vidas é buscar nossa humanidade. Essa descoberta ocorre ao nos relacionarmos com o outro, o outro diferente, um outrem. Ao chegar à África, muito jovem, eu tinha a ousadia de imaginar que daria grandes contribuições aos africanos do Sahel com meus conhecimentos científicos. Aos poucos se estabeleceu uma troca, um encontro entre humanos. Estávamos descalços, à sombra de árvores raquíticas, conversando sobre amendoins, chuvas e desafios de sobreviver em situações difíceis. Minhas últimas impressões estão retratadas no capítulo final do livro: o sentimento de compaixão e admiração por um mundo estranho, alheio e, ao mesmo tempo, tão próximo. E no qual vivi envolvido e segregado.

O tempo, como o sr. escreve, não apagou as marcas africanas. Elas se diluíram entre outras, amazônicas, nordestinas, polares.

O livro vem daí. Desse amálgama, dessas cinzas, emergiram as palavras, crucificadas sobre o papel e com tantos significados. Elas me usaram. Elas recorreram mais a mim do que eu a elas. Um livro como esse se deixa escrever. Emerge com seus mistérios. Até o final, eu tentei entender vários personagens que não havia compreendido no Níger. Talvez na escrita, eles se revelassem. Não. Passaram por mim e pelo texto como visitantes autônomos, dos quais pouco sei até hoje. Ecos de nossos arquétipos mais profundos, eles ficam gravados em nosso metal, em nossas areias movediças. Mais do que no líber e no papel. Entende o que quero dizer quando digo que as palavras me usaram? É muita viagem? Foi uma experiência extremamente... humana. De questões muito maiores que o cotidiano, questões que marcaram minha própria humanidade. 

E qual a cicatriz mais profunda? 

As marcas deixadas pelas fitinhas cor de laranja colocadas nas árvores e na antena de meu carro por uma menina lépida e sem braços, com sonhos de ser parteira. Sua vida e seu fado deixaram marcas doces e amargas. As feridas sararam. As cicatrizes ainda estão lá. Voltei várias vezes à África. Nunca ao Níger. No papel da memória ficaram esses sinais hieroglíficos, espelhados nos céus de minha epiderme. Salgados e insípidos. À noite, eles ainda cintilam. Sempre os contemplo. Diante desses grafismos, dessa geografia da pele, dessas constelações com suas vozes de oráculo mudo, eu ainda me pergunto: quem sabe o futuro?

 

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