Religião e perversão

Os milhões de dólares pagos pela Igreja em indenizações pela ação de padres pedófilos em vários países são, na verdade, o custo menor dessa verdadeira tragédia que arruína vidas e demole a fé

José de Souza Martins*

20 de março de 2010 | 12h56

A sexualidade desviante de padres pedófilos na Irlanda, na Alemanha e em Arapiraca deve ter roubado o sono do papa Bento XVI nesta semana. Escreveu ele, no dia de São José, patrono da família, uma carta pastoral aos católicos da Irlanda, a ser divulgada neste domingo, em que expressa sua profunda preocupação com essa dolorosa situação. Nos últimos dias os bispos alemães têm, com veemência, pedido ao papa uma manifestação incisiva e providências severas a respeito. Repetidos casos na diocese de Boston, nos EUA, custaram à Igreja milhões de dólares em compensações. É, na verdade, o custo menor dessa verdadeira tragédia que arruína vidas e demole a fé. Os casos abrangem dezenas de países em diferentes continentes. Padres têm sido presos, processados e condenados. Vários casos ocorreram no Brasil, os mais recentes em Arapiraca, no Estado de Alagoas, envolvendo três sacerdotes, imediatamente afastados das funções religiosas pelo bispo da diocese.

 

Já se sabe que um complicador dos escândalos revelados foi a transferência dos acusados para outras dioceses, sem que os respectivos bispos fossem informados dos antecedentes dos transferidos e sem recomendação para que ao sacerdote transferido não fosse confiado o trabalho com menores. Isso disseminou a impressão de que a Igreja, como instituição, protege corporativamente esses criminosos e a tornou involuntariamente cúmplice dos delitos denunciados. O gravíssimo caso do padre irlandês Brendan Smyth, que morreu na prisão com 70 anos de idade, é bem indicativo de que a reincidência é possível: nas diferentes paróquias para onde foi removido continuou molestando crianças, chegando a cem o número de suas vítimas.

 

Outro complicador, ainda que praticado em nome da caridade, foi o de nem sempre entregar os padres pedófilos às autoridades para serem devidamente responsabilizados, processados e punidos pelos crimes cometidos. Ao violarem um princípio religioso essencial ao catolicismo, tais padres saíram do terreno do pecado e voluntariamente entraram no do crime. Renunciaram, portanto, à investidura e à confiança que neles depositou a Igreja e a comunidade dos fiéis.

 

A Igreja tem lidado com a questão no pressuposto de que a pedofilia é uma doença e não um desvio da sexualidade que, pela inocência e a imaturidade das vítimas, tem consequências devastadoras nas crianças e em suas famílias. O próprio papa, ao anunciar a mencionada carta pastoral, disse claramente: "A minha esperança é que ela ajude no processo de arrependimento, cura e renovação."

 

Além das consequências danosas para as vítimas, há uma dimensão na difusão dessas ocorrências que não pode ser ignorada nem pela Igreja. Refiro-me ao âmbito da repercussão dos casos no amplo terreno social cujo imaginário está completamente fora de seu controle. Sendo as sociedades arroladas no elenco das que tiveram casos de pedofilia de sacerdotes sociedades pluralistas, mesmo quanto à religião, a mentalidade popular foge das referências que muitos ainda mobilizam para entender essa violência, como a de pecado e doença. Os valores de referência da mentalidade popular, em todas as partes, são completamente outros, não raro opostos aos valores das instituições, em especial das instituições religiosas. Em Arapiraca, já se compra nas ruas o DVD com o filme de um dos sacerdotes, com mais de 80 anos de idade, praticando o nefando crime com um jovem que fora coroinha de sua igreja. Longe de ampará-lo com a caridade do seu silêncio, prefere a turba expô-lo ainda mais ao escárnio de sua maldade.

 

É nesse terreno que as coisas ficam confusas. Em primeiro lugar porque nele viceja o anticlericalismo, por meio do qual tiram indevida vantagem o ateísmo e as religiões concorrentes. O que não representa nem demonstração de fé, os que a têm, nem solidariedade com crianças e famílias vitimadas pela pedofilia de padres , nem solidariedade com a comunidade dos católicos, que se veem coletiva e indevidamente atingidos. Em segundo lugar porque a imensa maioria dos sacerdotes é íntegra. Em terceiro lugar porque, para compreender e diagnosticar esse grave problema, é preciso levar em conta que a pedofilia vem constituindo crescente e disseminada forma de violência contra os imaturos, como uma das características perversas da modernidade. Ainda há poucos dias, em diferentes lugares do Brasil, dois homens foram vítimas de tentativas de linchamento, surpreendidos em atos libidinosos com crianças, uma delas de 5 anos de idade.

 

*JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE A APARIÇÃO DO DEMÔNIO NA FÁBRICA

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