Religioso, Bach via em música profana 'divertimento do espírito'

Religioso, Bach via em música profana 'divertimento do espírito'

Compositor criou mais música profana do que sacra em seus anos vividos em Leipzig

João Marcos Coelho*, Colaboração para o Estado

27 Maio 2017 | 16h00

A imagem que temos hoje de Johann Sebastian Bach (1685-1750) é a de um compositor capaz de introduzir estudantes na música com as tecnicamente fáceis Invenções a Duas e Três Vozes e o Pequeno Livro de Ana Magalena Bach, mas também de desafiar os maiores virtuoses com o Cravo Bem Temperado, sem esquecer a grandiosidade das 200 cantatas, da Missa em Si Menor e da Arte da Fuga, obra abstrata sem indicação de instrumentação.

Alfa e ômega para os músicos, Bach é o Himalaia do público. Sua imagem convencional é a do homem profundamente religioso que compunha uma cantata por semana como responsável pela música em um punhado de pequenas cidades espalhadas por um raio de cem quilômetros – carreira provincial que culminou na Igreja de Santo Tomás, em Leipzig, em seus derradeiros 27 anos.

Um retrato curiosamente desmontado por um dos maiores especialistas na sua música sacra, o inglês John Eliot Gardiner, responsável pela gravação de todas as cantatas, as paixões, a Missa e o Oratório de Natal. Sua devoção a Bach é tamanha que sua gravadora chama-se SDG, as iniciais da expressão que Bach costumava colocar no pé de seus manuscritos: Soli Deo Gloria. Mesmo num ritmo alucinante de gravações e concertos, comemorou seus 70 anos, em 2013, concluindo e lançando na Inglaterra seu livro Música no Castelo do Céu

Herdamos do século 19 a imagem que temos de Bach, diz Gardiner, como o organista e compositor de cantatas, religioso por excelência. Alguns números desmentem isso: ele compôs, em 27 anos de atividade em Leipzig, 800 horas de música sacra; e 1.200 horas de música profana em dez anos à frente do Collegium Musicum. Numa peça publicada em 1738, Bach acrescentou ao costumeiro “Soli Deo Gloria” o seguinte: “Para a glória de Deus e o legítimo divertimento do espírito (...) se não se leva isso em conta, não há música verdadeira.”

O capítulo sobre o Bach profano o mostra divertindo-se semanalmente no Café Zimmermann, comandando uma orquestra para dar autênticos shows aos cultores da bebida que, então recém-chegada à Europa, era sinônimo de droga quase proibida. Bach interessou-se pela música profana por causa das constantes brigas com o Conselho da cidade, que lhe tolhia as iniciativas e cortava verbas. De outro lado, seus 20 filhos exigiam que ele se multiplicasse: comercializava instrumentos. Os shows no Zimmermann complementaram sua renda. Ele dirigiu o Collegium Musicum entre 1728 e 1737; nos dois anos seguintes foi “artista convidado” e em 1739 retomou a titularidade até 1741. Anualmente, fazia 61 apresentações no Café: no verão, das 16 às 18 horas, na parte externa, com as mesas ao ar livre; no inverno, à noite, na parte fechada. Para dar mais brilho, compôs as quatro aberturas orquestrais e adaptou para cravo solista concertos originais para violino de Antonio Vivaldi. Um dos hits bachianos era a Cantata do Café, música e versos deliciosos cantando o nirvana que proporcionava a novíssima bebida. Um pesquisador imaginou o repertório desses concertos: Bach esbanjando técnica no estonteante Prelúdio e Fuga em Dó Menor do Cravo (BWV 847); a Suíte para Orquestra em Ré Maior (BWV 1068); e o Concerto em Fá Maior para Cravo, Duas Flautas Doces e Cordas (BWV 1057), que nada mais é do que um arranjo do Concerto de Brandenburgo no. 4, com o próprio solando e liderando os músicos.

Este Bach profano revive no recentíssimo CD Bach Trios (Nonesuch), aventura fascinante de três músicos notáveis: o bandolinista californiano Chris Thile, 35 anos, que surgiu com o grupo de bluegrass progressivo Nickel Creek; o violoncelista Yo-Yo Ma, 61 anos, há décadas superstar que rompeu fronteiras artísticas; e o contrabaixista Edgar Meyer, de 56 anos. Três músicos de experiências, formações e personalidades muito diferentes, que comprovam o acerto da afirmação do jovem compositor californiano Timo Andres, 32 anos, em seu texto no encarte: “Junte aleatoriamente um grupo qualquer de músicos numa sala: independente de seus instrumentos, histórias pessoais e personalidades, eles vão acabar encontrando um fundamento comum tocando Bach.” 

Como Bach, que intercambiava melodias em textos ora profanos, ora sacros, e brincava literalmente com todas as músicas do mundo europeu que o rodeava, este trio nos convida a um show bachiano num formato tipicamente barroco, o da trio sonata, em que dois ou três instrumentos melódicos eram acompanhados pelo cravo, que fazia a base harmônica (o chamado baixo contínuo). Aqui, o bandolim ora arpeja como o contínuo, por exemplo, no Prelúdio Coral para Órgão BWV 650; ora assume o comando melódico como no Vivace Inicial da Trio Sonata BWV 530 que abre o CD. O violoncelo de sonoridade ampla democraticamente dá bastante espaço ao bandolim, mas por momentos brilha de modo intenso, como em outro Coral para Órgão, BWV 639. 

Tudo aqui é muito conhecido. As melodias frequentam o inconsciente coletivo. Talvez o ponto culminante da perfeita integração entre eles ocorra na Sonata BWV 1029, original para viola da gamba. Na seção central da fuga, uma linha contínua é tocada pelos três instrumentos sucessivamente, como se fosse uma corrida de revezamento, em que é perfeita a passagem do bastão (oops!, da melodia) de um para outro. Isto sim é música que alimenta a alma, como queria o “Soli Deo Gloria” de Bach. Mas sem esquecer que a música é também um “legítimo divertimento do espírito”. Pois só assim “há música verdadeira”.

*João Marcos Coelho é crítico musical e jornalista

Bach Trios

Autores: Yo-Yo Ma, Chris Thile e Edgar Meyer

Gravadora: Nonesuch 

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