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Renda de escritores com livros caiu 42% desde 2009, mostra estudo

Levantamento do Sindicato de Autores dos Estados Unidos com 5 mil escritores mostra situação do ofício

Concepción de León, The New York Times

12 de janeiro de 2019 | 16h00

Escrever nunca foi uma escolha de carreira lucrativa, mas um estudo recente da The Authors Guild, uma organização profissional para escritores, mostra que talvez nem mesmo seja mais aceitável. De acordo com os resultados da pesquisa, o salário médio para os escritores em tempo integral foi de US$ 20,3 mil em 2017, e esse número diminuiu para US$ 6,08 mil, quando os escritores de meio período foram considerados. Este último número reflete uma queda de 42% desde 2009, quando a mediana foi de US$ 10,5 mil. Essas descobertas são o resultado de um extenso estudo de 2018 de mais de 5 mil autores de livros publicados, através de gêneros e incluindo escritores tradicionais e os que publicaram seus próprios livros.

“No século 20, um bom autor de literatura poderia conquistar uma vida de classe média, apenas escrevendo”, disse Mary Rasenberger, diretora executiva do The Authors Guild, citando William Faulkner, Ernest Hemingway e John Cheever. Agora, a maioria dos escritores precisa complementar sua renda com palestras ou ensino. A renda limitada estritamente ao livro – representada por royalties e adiantamentos – também está em baixa, quase 30% para escritores em tempo integral desde 2009.

Escrever para revistas e jornais já foi uma fonte sólida de renda adicional para escritores profissionais, mas o declínio do jornalismo freelancer e do salário significou menos oportunidades para os autores escreverem por pagamento. Muitas publicações impressas, que ofereciam a taxa mais alta, foram fechadas, no total.

O declínio nos ganhos também se deve em grande parte à participação do leão da Amazon no mercado de publicações próprias, e-book e revenda, segundo Rasenberger. O conglomerado cobra comissão e taxas de marketing para os editores que, segundo Rasenberger, essencialmente impedem que seus livros sejam escondidos no site. Editores pequenos e independentes, que têm menos recursos e poder de barganha, foram particularmente atingidos. As editoras estão passando essas perdas para os escritores na forma de royalties e adiantamentos mais baixos, e os autores também perdem receita com livros revendidos na plataforma.

De certa forma, essas mudanças estão de acordo com uma mudança geral em direção a uma economia de “bicos” ou "venda sob pressão”, nas quais as pessoas viram-se com uma variedade de empregos para compensar a falta de uma renda estável. Mas a indústria da escrita como um todo sempre escapou à padronização nos salários. Em uma conversa com Manjula Martin no livro Scratch: Writers, Money, and the Art of Making a Living (Trabalho duro: escritores, dinheiro e a arte de ganhar a vida, em tradução literal), editado por Martin, Cheryl Strayed disse: “Não há outro emprego no mundo onde você obtém seu mestrado nesse campo e onde, bem, eu poderia ganhar nada ou eu poderia ganhar US$ 5 milhões! “

Em um telefonema recente, Martin disse que “as pessoas que são capazes de praticar o comércio de ‘autoria’ são pessoas que têm outras fontes de renda", acrescentando que isso cria barreiras de entrada e limita os tipos de histórias que atingem um público amplo. Há também, acrescentou, uma desvalorização da escrita que é frequentemente encarada como um hobby em oposição a uma valiosa vocação.

“Todo mundo acha que pode escrever, porque todo mundo escreve”, disse Rasenberger, referindo-se à proliferação de mensagens de texto casuais, e-mails e tuítes. Mas distingue esses dos escritores profissionais “que trabalham em seu ofício e arte de escrever há anos”.

“O que um escritor profissional pode transmitir em palavras escritas é muito superior ao que o restante de nós pode fazer”, disse Rasenberger. “Como sociedade, precisamos disso, porque é uma maneira de cristalizar ideias, fazer com que vejamos as coisas de uma maneira nova e criar uma compreensão de quem somos como pessoas, onde estamos hoje e para onde estamos indo.” / Tradução de Claudia Bozzo 

Extinção do escritor?

O relatório final da 2018 Author’s Income Survey, pesquisa realizada pelo Sindicato de Autores dos EUA, aponta para o “perigo de extinção” da profissão de escritor. De acordo com o documento, disponível no site da organização, entre os participantes que se dedicam exclusivamente ao ofício de escrever e que já foram publicados anteriormente, 57% colheram toda sua renda de atividades relacionadas à escrita no ano de 2017. No entanto, boa parte desses ganhos não vieram dos direitos autorais ou da venda de exemplares, mas sim de palestras, cursos ministrados, ghostwriting, edição e tradução de outros autores. Os que não dependeram de nada além de seus próprios livros para viver em 2017 somam apenas 21% dos entrevistados. 

A pesquisa mostra que, embora a quantidade de publicações impressas venha decrescendo – hoje há cerca de 60% menos jornalistas trabalhando exclusivamente nesse tipo de veículo em relação à década de 1990, de acordo com o Bureau of Labor Statistics –, os escritores não conseguem converter sua renda para a escrita na internet. A renda dos autores com conteúdo online não superou o salário mínimo americano (US$ 7,25 por hora), apesar de 52% dos escritores terem diplomas de ensino superior nos EUA.

Graças a esses fatores, o relatório indica que os autores têm cada vez menos tempo disponível para dedicar à escrita de suas obras literárias. Apenas com o marketing dos livros, os entrevistados gastaram, em média sete horas e meia por semana, 14% a mais do que em 2013, sendo que nesse intervalo de tempo, apenas 8% dos autores entrevistados relataram aumentos em seus ganhos com livros.

Por volta de 25% dos escritores afirmaram não ter tido nenhum centavo de lucro com livros no ano de 2017. Levando-se em consideração apenas os que se dedicam em tempo integral ao ofício literário, esse número cai para 18%.

O único grupo que passou por um aumento significativo nos ganhos foi o de autores autopublicados, que ganharam 95% a mais com seus livros entre 2013 e 2017. Apesar disso, esses escritores ainda faturam 58% a menos diante dos autores publicados por editoras tradicionais. /André Cáceres

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