Renovação carismática

A grande novidade da eleição mexicana não é o mauricinho Peña Nieto, mas os jovens do movimento #YoSoy132, que agitam o país

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h09

No México, a história se repete - como farsa, por supuesto. Suspeitas de fraude nas eleições presidenciais de domingo, a volta do PRI (Partido Revolucionário Institucional) ao poder, um lídimo representante das elites conservadoras no Palácio Nacional. Já Cantinflas, que é bom, não tem mais. Nem María Félix.

A juventude do presidente eleito, Enrique Peña Nieto, com insistência sublinhada e exaltada por seus correligionários, não chega a ser uma novidade. Quando tomar posse, em dezembro, ele terá 46 anos de idade, 8 a mais que o primeiro presidente do país, Guadalupe Victoria, ao assumir o governo em 1824. À exceção de Vicente Fox, será o empossado mais velho desde Miguel de la Madrid, eleito em 1982. A vantagem do sucessor de Felipe Calderón é parecer bem mais moço que seus antecessores. Novidade nas eleições de domingo foi a aparência jovial do vencedor.

Peña Nieto, além do mais, é bonitão. Parece tão mauricinho quanto Fernando Collor de Mello, mas sem o olhar messiânico do "caçador de marajás" das Alagoas, o que já é um tremendo avanço. Muito rico, foi quem mais gastou em propaganda na campanha. Embora contasse com o apoio ostensivo da grande imprensa e do duopólio televisivo formado pela Televisa e a TV Azteca, precisava vender a ideia de que o PRI - um partido que não tem história, mas prontuário, com décadas de autoritarismo, cupinchagem, violência e relações com a máfia do narcotráfico - não é mais dominado pelos "dinossauros" de antigamente, e que ele, Peña Nieto, representa a nova e confiável face do partido, afastado do poder há 12 anos, após mais de sete décadas de mando absoluto.

A ideia foi comprada pela maioria do eleitorado, com a incomensurável ajuda do PAN (Partido Ação Nacional), de direita, que em dois mandatos só fez multiplicar as mazelas do país (60 mil mortos e 100 mil desaparecidos na guerra contra o cartel do tráfico de drogas, queda expressiva na economia, milhões de desempregados, mais 3,2 milhões de novos pobres). A candidata do PAN à sucessão de Felipe Calderón nem pagou placê. O pânico instilado pela violência e o entorpecimento ideológico da população pela mídia também contribuíram, de forma decisiva, para a ressurreição do PRI.

A alternativa à esquerda, Andrés Manuel López Obrador, vulgo AMLO (mais que um acrônimo, uma palavra de ordem: "ame-o"), noves fora possível gatunagem nas urnas, não empolgou o bastante para sequer bisar a diferença de 2006, quando o candidato do PRD (Partido Revolucionário Democrático) perdeu as eleições presidenciais por menos de 1% para Calderón. A diferença desta vez foi de 6,5%. Ainda assim, o agora candidato de uma coligação do PRD com agremiações de centro exigiu recontagem de votos.

Fez bem. Não dá mesmo para se confiar no sistema eleitoral mexicano. E os indícios de fraude já eram enormes meses antes das eleições. Cédulas perdidas e falsificadas, compra de votos, bullying de monitores partidários, ameaças de morte e até assassinatos de políticos do interior marcaram a temporada eleitoral deste ano. Detalhes no site www.observacionelectoral2012.mx. Segundo dados divulgados pelo jornal independente La Jornada, às vésperas das eleições, 71% dos mexicanos acreditavam na possibilidade de manipulação dos votos.

Comparado a Hugo Chávez por seus adversários, Obrador prefere apontar Lula como seu modelo de líder político. Na campanha deste ano amansou a retórica, ampliou alianças, mas não logrou conquistar o voto jovem (40% do eleitorado tem menos de 30 anos) nem o apoio de seu potencial aliado, o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade, do poeta Javier Sicilia, que não fechou com nenhum dos quatro concorrentes.

A grande novidade das eleições de 2012 foi o movimento estudantil #YoSoy132, versão mexicana de Los Indignados espanhóis. Seus integrantes frequentam uma universidade conservadora, a Iberoamericana da Cidade do México, e não gostaram de ser chamados de "delinquentes" e "marionetes" do PRD pela mídia local, depois que saíram às ruas para protestar contra o governo, a violência pandêmica e os 7 milhões de jovens sem emprego no país. Mês passado, lideraram uma passeata de 100 mil indignados no Paseo de la Reforma, a principal avenida da capital. Utilizando-se das redes sociais, em poucas semanas galvanizaram o país. Organizaram debates com os candidatos à presidência (sem a presença de Peña Nieto, que se disse impedido de comparecer), mas a nenhum deles ofereceu apoio.

O nome do movimento surgiu de um incidente no câmpus da Universidade Iberoamericana, quando de lá Peña Nieto, em plena campanha, foi expulso aos gritos de "covarde!", "assassino!" e "fora daqui!". Tudo foi registrado em vídeo por 131 estudantes e divulgado na internet. Por que 132 em vez de 131, não sei. Com qualquer nome, eles darão muito trabalho ao novo governo.

Apesar de jovial, bonitão, muito rico e telegênico, Peña Nieto não prima pela inteligência. Dizem que não dá um passo sem consultar Carlos Salinas de Gortari, o penúltimo presidente do primeiro reinado do PRI. Por suas gafes frequentes já foi comparado ao presidente Bush. Formado em business, só entende de negócios. Passou um mau pedaço quando, sete meses atrás, lhe pediram para citar um livro que tivesse marcado sua vida. A presidente Dilma enfrentou igual constrangimento durante a campanha eleitoral. Peña Nieto também recebeu cola dos assessores: "A Cadeira da Águia" lhe sopraram. Mas não houve meios de o candidato do PRI lembrar-se do nome do autor do romance, Carlos Fuentes.

"Ele tem o direito de não me ler", comentou Fuentes. "Mas não de ser presidente, com tamanha ignorância." O episódio virou chacota nas redes sociais e rendeu um slogan viral: "Não dê dinheiro a Peña Nieto, dê-lhe apenas um livro".

Que livro? Recomendo A Morte de Artemio Cruz, do mesmo Fuentes. Seu epônimo personagem é a personificação literária da história moderna do México e da degeneração do outrora revolucionário PRI.

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