Lexey Swall/The New York Times
Lexey Swall/The New York Times

Repórter investigativo Seymour Hersh publica memórias em livro

Jornalista vencedor do Pulitzer que cobriu escândalos nas Guerras do Vietnã e Iraque fala sobre a imprensa contemporânea

Alessandra Monnerat, Especial para o Estado

15 de junho de 2019 | 16h00

O jornalista americano vencedor do Pulitzer Seymour M. Hersh não queria escrever suas memórias. Ele estava preparando um livro-reportagem sobre o ex-vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney, quando percebeu que suas revelações comprometeriam de forma significativa suas fontes. Na época, a administração de Barack Obama promovia uma perseguição ao vazamento de informações do governo e o jornalista temia que seus contatos fossem parar na prisão. Foi o editor Sonny Mehta que sugeriu que o repórter de 82 anos escrevesse sobre sua longeva carreira. “Fiz esse livro porque precisava comer”, brinca ele. “A verdade é que eu tentei vender um dos meus filhos para pagar o adiantamento da editora.”

Hersh começa Repórter: Memórias (Editora Todavia) narrando sua infância ajudando o pai, imigrante judeu, em sua lavanderia em Chicago, mas há pouco espaço para histórias pessoais no livro – um encontro com John Lennon é descrito brevemente em uma nota de rodapé. O jornalista prefere mostrar o extenso trabalho por trás de reportagens que revelaram aspectos desumanos das intervenções americanas em outros países. Do massacre de centenas de civis em My Lai, durante a Guerra do Vietnã – uma apuração independente que lhe rendeu o Pulitzer – ao abuso sexual de prisioneiros em Abu Ghraib, durante a Guerra do Iraque, furo publicado quando Hersh já tinha 67 anos. 

O jornalista critica com gosto os colegas, muito apegados a versões oficiais, e seus editores, compreensivelmente receosos antes de publicar suas reportagens bombásticas. Em uma passagem, o autor lembra que quebrou o vidro de seu escritório no Times após arremessar uma máquina de escrever por pura frustração com a edição de uma matéria. 

Essa “fama de mau”, naturalmente, me deixou ansiosa antes da entrevista com Hersh, por telefone. O próprio lembra que foi descrito em uma matéria do Times como “desleixado, teimoso, barulhento” – em comparação com o concorrente Bob Woodward, “educado, suave e meticuloso”. Mas a realidade é que Hersh gosta de conversar, ri ao lembrar de histórias e faz desvios consideráveis pelos assuntos, é imune a elogios e, como veterano, dá conselhos à jovem do outro lado da linha.

Hersh diz que é de “uma geração que está morrendo”. Seu trabalho de repórter era solitário, e hoje jornais apostam em projetos colaborativos; ele dependia de fontes internas do governo, muitas vezes não nomeadas, e agora a transparência governamental permite a realização de reportagens com dados massivos; suas apurações demoravam meses, mas hoje veículos querem publicar com cada vez mais rapidez. A seguir, os principais trechos da conversa: 

O sr. sempre protegeu muito bem suas fontes ao longo da sua carreira, e já desistiu de histórias para proteger seus contatos. Isso se tornou mais fácil ao longo do tempo?

Eu tinha bons amigos que trabalhavam na administração de Jimmy Carter. Por exemplo, se tivesse uma reunião em Nova York com a ONU e todos os funcionários seniores do Departamento de Estado e depois todos se encontrassem na casa de alguém, eu costumava ser convidado. Jogava cartas e tênis com eles e os conhecia bem. Percebi quão cuidadosamente as pessoas no governo observavam o que a imprensa escrevia. Muito mais do que você pensa. Eles conversam sobre os repórteres, sabem quem é confiável e quem vai protegê-los. Eu vi isso em primeira mão. 

Percebi que no livro o sr. não deu quase nenhum detalhe sobre sua vida pessoal. Por quê?

Obviamente, escrevo reportagens que fazem muitas pessoas poderosas se irritarem comigo. Já falaram muitas coisas ruins para mim. É engraçado. Fui convidado a fazer uma introdução de um livro de Gabriel Garcia Marquez, uma coletânea de jornalismo dele. Ele escrevia todos os dias uma coluna para um jornal colombiano desde 1950. Ele falava sobre seus amigos e sua família, mas é diferente. Ele poderia escrever uma coluna sobre como é entediante escrever uma coluna e sairia algo interessante. Ele tem um estilo pelo qual sou fascinado. Mas quando você é um gênio você pode escrever sobre sua família de um jeito interessante. E sou só um repórter! 

Como repórter, o sr. está trabalhando em algo?

Por enquanto, voltei à história de My Lai. Uma fonte minha no Exército me disse: ‘Você foi como a Chapeuzinho Vermelho. Viu um grande Lobo Mau e achou que fosse o tenente Calley’ (comandante do pelotão responsável pelo massacre). O que ele queria dizer é que a responsabilidade sobre o massacre ia muito além dele, e que há uma grande história que eu não percebi. Voltei a My Lai no último outono e comecei a fazer perguntas e descobri novas coisas que me chocaram e que ninguém sabe ainda. Não queria escrever mais um livro sobre isso, nem um artigo longo. A mídia mudou, e se você não está escrevendo sobre Trump, ninguém liga (risos). Então, estou fazendo um documentário. 

O sr. não quer escrever sobre Trump. Mas acha que a imprensa deveria investigá-lo melhor?

Acho que não vão conseguir fazer uma acusação contra ele. Enquanto os republicanos controlarem o Senado, ele não vai sofrer um impeachment. Nós elegemos Trump. Querem culpar os russos por isso? OK, mas vão ter que provar isso bem melhor do que já fizeram. Adoraria pensar que os russos fizeram isso (influenciaram as eleições americanas), mas a verdade é que os Estados Unidos já interferiram muito mais em eleições estrangeiras do que a Rússia jamais poderia fazer. Hillary perdeu as eleições, e olharam em volta para encontrar explicações. É como no final de Casablanca: “Mandem prender os suspeitos de costume.” Os democratas querem culpar alguém e culparam os russos. Não vou fazer isso. 

A imprensa está errando?

Acho que a imprensa passa muito tempo prestando atenção ao que Trump diz. Ele passa duas semanas assustando as pessoas sobre invadir o Irã. No final, diz: “Ah, não vou fazer isso” (risos). Ele quer ser o cara no noticiário todos os dias. Cada tweet é repercutido como breaking news. Enquanto isso, está fazendo mudanças na burocracia e substituindo ótimos profissionais. Não estamos reportando o suficiente sobre o que está acontecendo dentro da Casa Branca. 

Nosso presidente também tuíta muito para se comunicar com a população. 

Claro, mas a longo prazo não acho que seu presidente tem conhecimento ou inteligência suficiente para fazer algo significativo. Tem algo acontecendo no mundo, uma espécie de revolta em relação à democracia. Acho que a democracia é o melhor governo possível, mas tudo se tornou uma loucura. O dinheiro vai todo para um décimo do 1% e não é distribuído; e pessoas como Trump e seu presidente falam de distribuir as riquezas e não o fazem. Se você pensar no que está acontecendo na Hungria e na Polônia, com a crise de refugiados, há uma verdadeira tendência de autoritarismo que é muito perturbadora. As lideranças não cumprem o que prometem. Por que alguém em sã consciência escolheria ser líder de um país nesse momento? É difícil demais. Mas não importa o que eu penso. Sempre me perguntam o que acho disso ou daquilo, mas sou só um repórter, não sou especialista em política externa. A verdade é que tudo está muito confuso e não há líderes. Há um problema internacional.

Cobrindo a Guerra do Vietnã, o sr. menciona que sempre se posicionou contra a guerra. Os repórteres de hoje devem se posicionar?

No meu trabalho, descobri que havia assassinatos em massa, que estavam matando civis, que havia prisioneiros de guerra. Sou liberal, democrata, já votei em republicanos e até doei para republicanos quando eles eram bons, mas não é esse o ponto. Você não pode ser neutro. Hoje, quando há alguma discussão sobre um fato, ao em vez de descobrir qual lado da história está certo, a mídia reporta sobre a discordância. Os jornais não podem mais gastar duas ou três semanas de trabalho de reportagem. Acho que todo mundo deve ter uma opinião. Minha opinião sobre o Vietnã me levou a escrever sobre My Lai. Então não acredito em objetividade. Você tem que ter um ponto de vista, baseado em fatos. 

O sr. revelou muitos atos horríveis que os Estados Unidos fizeram em vários países. Isso mudou de alguma forma o que pensa sobre ser americano?

Meus pais são imigrantes do Leste Europeu. Eles não tinham nada. Eu só paguei US$ 300 por ano para estudar em uma boa universidade. Saí da faculdade com um bacharelado em inglês. Não fui editor do jornal de Harvard ou Yale. Não tenho um PhD. Onze anos depois de formado, escrevo sobre um massacre no Vietnã, uma história devastadora para meu país. E eu ganho fama, dinheiro e glória por isso. Como eu não poderia ser o americano mais leal que existe? Às vezes, os generais do Pentágono me perguntavam: “Por que você escreve reportagens negativas?” E eu respondia: “Com todo o respeito, você pode ser um general três estrelas, mas tenho tanto direito de fazer o que quiser quanto você. Estou demonstrando meu amor ao país ao dizer a verdade.” Nunca pedi os arquivos sobre mim à CIA, não quero vê-los. Tenho certeza que já me investigaram, mas nunca me acusaram de ser traidor. Ninguém poderia amar esse país mais que eu.

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