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Reputação de John Wayne naufraga graças a movimentos antirracistas

Quem mandou Wayne matar tantos índios e dizer tantas bobagens preconceituosas sobre os negros e os outrora chamados de 'peles-vermelhas' à 'Playboy', no longínquo ano de 1972? 

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 16h00

Primeiro, foram as estátuas dos escravocratas, vandalizadas e derrubadas na Europa e na América. Também no embalo do movimento “Vidas Negras Importam”, o filme ...E o Vento Levou foi retirado da grade do HBO Max por sua visão dixieland, digamos assim, da Guerra de Secessão. Antes que um novo conflito fratricida dividisse a Trumplândia em neoconfederados e iconoclastas revisionistas, uma pausa nas refregas ajudou a manter de pé as estátuas e monumentos dos “pais da pátria”, ou seja dos fundadores da pátria americana, e seus primeiros sucessores na presidência da República. 

Todos os cinco “founding fathers” dos EUA se beneficiaram do trabalho escravo (Thomas Jefferson chegou a ter 300 “slaves” em seus domínios), dispensado por apenas cinco dos 18 primeiros presidentes do país. Dos quatro presidentes esculturalmente glorificados no Monte Rushmore, só Lincoln e Theodore Roosevelt abriram mão da mordomia escravagista. 

Há muito se diz que John Wayne não teria concorrente se a cabeça de algum totem não presidencial pudesse ser esculpida naquele rochedo chauvinista de Dakota do Sul. Quem, por ventura, ainda alimentava a ilusão de um dia ver a efígie do ator incorporada ao quarteto formado por George Washington, Jefferson, Lincoln e Teddy Roosevelt, pode tirar o alazão da chuva. A reputação do caubói número um do cinema, já em baixa havia algum tempo, desandou de vez depois das manifestações antirracistas dos últimos meses.

Quem mandou Wayne matar tantos índios e dizer tantas bobagens preconceituosas sobre os negros e os outrora chamados de “peles-vermelhas” à Playboy, no longínquo ano de 1972? 

Por causa de suas observações paternalistas, racistas e supremacistas – justificava a ocupação de territórios indígenas pelos brancos como uma necessidade vital do processo de colonização e considerava os negros ainda sem educação e autoridade suficientes para liderar o país –parlamentares democratas da Califórnia exigiram, no mês passado, que o nome do ator fosse retirado de um aeroporto em Santa Ana, no Condado de Orange, perto de Los Angeles. 

O aeroporto, construído nos anos 1920 e rebatizado John Wayne Airport em 1979, voltou a se chamar Orange County Airport, sob inúteis protestos de Trump, fã ardoroso do ator. 

Duas semanas atrás, a School of Cinematic Arts da Universidade do Sul da Califórnia (USC), em Los Angeles, oficializou o cancelamento de uma exposição em homenagem a Wayne, programada há oito anos e desde então boicotada pelos estudantes, por razões políticas. As de sempre. 

Sem qualquer liame afetivo com o ator e os heróis por ele encarnados, a garotada que melou a exposição, criada com outros mitos cinematográficos, nem era nascida quando seu derradeiro filme foi lançado, em julho de 1976. Para eles, Wayne não passava de um velho reacionário e patrioteiro, fiel eleitor de republicanos, fundador e presidente, no imediato pós-guerra, da jingoísta Aliança Para Preservação dos Ideais Americanos, e autor de dois épicos históricos tão ufanistas quanto falaciosos sobre a invasão do Álamo por tropas mexicanas e a guerra do Vietnã (Os Boinas Verdes). 

Wayne estudou na USC entre 1925 e 1927, beneficiado por uma bolsa de estudos. Com 1,93m de altura, bom físico e craque em futebol americano, nem precisou de boas notas nas provas escritas; assim como não precisou cursar arte dramática para virar ator. Um intuitivo.

Foi graças também a seu físico privilegiado que o latagão matriculado na universidade com o nome de Marion Robert Morrison chamou a atenção do caubói de cinema mais famoso da época, Tom Mix, seu primeiro padrinho na profissão, que o tirou da taifa cinematográfica (Wayne começou carregando e arrumando objetos de cena) e o fez vaqueiro. 

Crismado por John Ford em No Tempo das Diligências, depois de haver atuado em dezenas de bangue-bangues rotineiros, transformou-se no mais paradigmático cavaleiro das matinês. Matou muitos bandidos e centenas de índios, mas suas performances em Rastros de Ódio (The Searchers), Rio Vermelho e Depois do Vendaval (The Quiet Man), entre outras igualmente inesquecíveis, o indultaram para sempre no coração dos cinéfilos. 

François Truffaut me revelou ter visto Godard chorando na cena em que o racista e ex-confederado Ethan Edwards, o complexo personagem de Wayne em Rastros de Ódio, pegava Natalie Wood no colo e lhe dizia: “Let’s go home, Debbie”. Cena que a música de Max Steiner tornou ainda mais arrebatadora.

Não era um grande ator, tampouco versátil, embora tenha se saído bem em situações cômicas, mas possuía o que no cinema mais importa: presença física. Uma impositiva e monumental presença na tela. E um andar inconfundível, meio felino, meio cambota. E um olhar fulminante, quando o ódio ou o desprezo lhe incendiava a alma. 

Wayne foi muito mais que o maior dos caubóis de Hollywood, foi o Ulisses das pradarias do Velho Oeste, o herói supremo de uma gesta que contou com Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh e outros Homeros do faroeste. Parecia invencível e quase sempre o foi nos quase 180 filmes que protagonizou. De apenas oito não conseguiu sair vivo. Em O Homem que Matou o Facínora já entrava morto quando o filme, um longo flashback, começava. Em seu canto do cisne, O Último Pistoleiro, um câncer prenuncia o que na vida real iria tirá-lo de cena para sempre, três anos mais tarde.

De certo modo, Wayne não morreu em junho de 1979, mas em abril de 1972, quando deu aquela malfadada entrevista à Playboy.

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