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Resistente francesa

Parecia até que fora combinado. Metida num longo vermelho, a ministra da Cultura da França, Aurélie Filippetti, pisou no tapete vermelho do Festival de Cannes com este ultimato: "A 'exceção cultural' é uma linha vermelha, inegociável". Traduzindo: a França não barganha com seus bens culturais, não trata o cinema e demais artes audiovisuais como queijo ou vinho por considerá-los, literalmente, uma exceção. Em prática há 20 anos, "exceção cultural" é a versão francesa do que aqui se conhece como reserva de mercado.

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h08

Antes da declaração da ministra, era bem maior o temor de que, na próxima rodada de negociações comerciais entre a União Europeia e os Estados Unidos, mês que vem, a Comissão Europeia se curvasse às pressões dos americanos e escancarasse seu mercado para o audiovisual importado. Desconfiava-se que fosse essa a intenção mais recôndita do atual presidente da CE, José Manuel Barroso; mas ele, ao menos da boca pra fora, declarou-se solidário com a ministra francesa, que assegura já ter do seu lado metade dos Estados membros da UE.

Até um poderoso concorrente, o produtor e distribuidor americano Harvey Weinstein, fechou com Aurélie Filippetti, por considerar a "exceção cultural" fator indispensável à renovação e originalidade do cinema francês, sem o qual, acrescentou, sucumbiremos mais rápido à padronização globalizante.

Há um ano à frente do ministério, Mlle. Filippetti, 39 anos, socialista egressa do Partido Verde, não quis dormir sobre os louros dos cinco Oscars conquistados por O Artista e as seis estatuetas divididas entre A Invenção de Hugo Cabret e Meia-Noite em Paris, produções beneficiadas por leis de incentivo adaptadas pelo Ministério da Cultura aos interesses da indústria cinematográfica do país. Os números continuam relativamente favoráveis (a produção nacional ficou com 41% das bilheterias em 2012, quatro vezes mais que a média dos países vizinhos), mas ela sabe que a crise econômica e o streaming de filmes via internet podem reverter esse quadro. E também atingir outros beneficiários da exceção cultural, como o mercado editorial, por exemplo.

Na França, que tem 2.500 livrarias (para mil da Inglaterra), uma lei de 1981 controla o preço dos livros, evitando altas e descontos abusivos e manipulativos, que até a Amazon é obrigada a obedecer. Em março, a ministra deslanchou um plano de ajuda às livrarias independentes (para começar, uma injeção de 9 milhões) e estímulo a pequenas editoras. Embora não tenha partido dela a proposta de se taxar em 1% a venda de celulares inteligentes, tablets e apetrechos afins, apresentada há duas semanas ao governo Hollande, os quase 90 milhões a serem recolhidos anualmente irão direto para a cultura, para um fundo de fomento às mais diversas indústrias criativas do país.

Seguindo os passos de André Malraux e Jack Lang, Aurélie Filippetti quer fazer da França uma exceção, recuperar o prestígio de Paris como "capital cultural do Ocidente" há muito perdido - sempre, porém, lembrado e merecidamente reverenciado. Na próxima quarta-feira o mundo inteiro festejará um dos eventos culturais que mais glória deu a Paris no século passado: o centenário da estreia mundial de Le Sacré du Printemps (A Sagração da Primavera), a revolucionária peça musical de Igor Stravinski que Vaslav Nijinski transformou em balé para a companhia de dança de Sergei Diaghilev, que apesar de russa tinha nome e domicílio francês, Les Ballets Russes.

O trio produzira antes duas criações de grande impacto - O Pássaro de Fogo e Petrushka -, nenhuma nem sequer remotamente comparável ao que na noite de 29 de maio de 1913 eclodiu no recém-inaugurado Théâtre des Champs-Elysées. Espetáculo sem trama, com música dissonante e dança desprovida dos arabescos, pas-de-deux e démi-pliés do balé clássico, com A Sagração da Primavera Stravinski, Diaghilev e Nijinski apresentaram a elite cultural e mundana de Paris à era moderna. Com tudo que ela nos reservava, inclusive a interação do palco com a plateia. E que interação!

Ao assombroso solo de fagote que introduzia a ouverture e à música desprovida de ornamentos que lhe dava seguimento, a plateia reagiu com reverente serenidade. Quando subiu a cortina e no palco despontou um grupo de raparigas de longas tranças e rusticamente vestidas, a dar pulinhos como se estivessem num forró caucasiano, o teatro veio abaixo. Apupos, vaias, gritos e assovios, contra e a favor, troca de insultos e tabefes, por um triz a récita não foi interrompida. Os dançarinos mal podiam ouvir a orquestra abafada pela gritaria, e os espectadores, menos ainda. Um charivari inesquecível, que matou de inveja a todos que não puderam presenciá-lo. Gertrude Stein, por exemplo, só compareceu à segunda récita, quatro noites depois, mas passou o resto da vida jurando que assistira à estreia.

Em pouco tempo aquela sequência de danças rituais de fertilidade primaveril se consagraria como um dos pináculos da arte do século 20, graças sobretudo à música genial (e seminal) de Stravinski, e, também, como uma premonição simbólica da 1ª Guerra Mundial, deflagrada no verão de 1914. Mas essa é outra história, que, aliás, já foi contada por um historiador chamado Modris Eksteins.

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