Retrato em branco e preto

Marjane fugiu criança do Irã. Em quadrinhos, contou sua história - que hoje vale um Oscar

Flávia Guerra, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 20h53

"É um sonho. Jamais pensei em ser indicada para o Oscar com um filme que é a minha própria história e a do país em que cresci", declarou a iraniana radicada em Paris Marjane Satrapi ao Estado, após muita insistência para que a autora-diretora-personagem falasse de Persépolis, o longa-metragem que ela dirigiu com Vincent Paronnaud e concorre hoje ao Oscar de Melhor Longa de Animação. Persépolis era o candidato francês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas não entrou entre os cinco finalistas. Muito justamente, concorre nesta outra categoria nobre da maior premiação do cinema mundial. Não é o favorito. O fenômeno infantil Ratatouille deve mesmo pegar os votantes da academia pelo estômago e levar a estatueta. Mas Marjane, ainda que saia de mãos abanando do Kodak Theatre, em Los Angeles, conclui de forma vitoriosa uma das últimas fases de seu périplo animado. Foi um longo caminho até que essa filha de uma família da elite esquerdista iraniana pudesse desfilar seu humor cáustico no tapete vermelho de Hollywood. A peregrinação cinematográfica de Marjane já passou por Cannes, Berlim (onde recebeu há 13 dias o prêmio Cinema pela Paz 2008, da Unicef) e por dezenas de festivais pelo mundo, incluindo a Mostra de São Paulo, na qual levou o prêmio do público. Ainda que seja uma produção francesa, um filme que fala da realidade islâmica ser escolhido como o representante da França na festa do Oscar pode ser interpretado como uma espécie de bandeira branca cultural diante das tensões entre imigrantes islâmicos e o governo daquele país. Pois bem. Ponto para Marjane, que fez ela mesma sua revolução em nanquim. Mas convém lembrar que nem tudo foram glórias na trajetória desse filme e dessa diretora. Recentemente, Bangcoc decidiu cancelar, em cima da hora, a sessão de Persépolis que abriria seu festival anual de cinema. Motivo: o boicote do governo iraniano, que credita ao filme a propagação de uma imagem distorcida e denigre os valores do Irã - e do Islã. Marjane nasceu em 1969, cresceu no Irã dos aiatolás, passou a adolescência "aprendendo" a ser européia em Viena e hoje vive em Paris. Não foi a primeira vez que ela teve problemas com os governantes de seu país de origem. "Por que você não concede entrevistas aos veículos iranianos?", perguntou um jornalista da rede árabe Al-Jazira, o principal canal de TV do Oriente Médio, em Cannes, quando Persépolis estreou mundialmente e recebeu o grande prêmio do júri. Ela, que é famosa por perder o amigo mas não perder a piada, disse: "Acontece é que sou perseguida. Minha família que ficou no Irã pode sofrer represálias, dependendo do que eu fale. Tenho de ser responsável quando se trata de um filme como este". O repórter aceitou a explicação, mas, terminada a coletiva de imprensa, fez questão de apontar seu microfone para Marjane e discutir o filme em um serviço especial para o público muçulmano. Você continua temendo represálias à sua família e evitando falar com a imprensa iraniana?, perguntou o Estado. "Sim e não. Sim, porque não voltei nunca mais. Nunca mais vi as belas paisagens do meus país. Mas é mentira que eu não fale com a imprensa. Simplesmente não quero falar com quem não me compreende e não entende que tenho profundo amor e respeito por meu país. Mas não concordo com a repressão e a perseguição, as torturas e as mortes que foram cometidas em nome de uma pretensa ordem, tanto política como religiosa. Tenho muita saudade, mas hoje meu lugar é na França. Por mim e pela minha família, que lá ficou."Mas, afinal, o que de tão ameaçador há nessa mulher e em sua obra? Uma animação belíssima em branco e preto, que consegue, nos traços arredondados, porém cortantes de Marjane, contar séculos de história e costumes de um dos povos mais ricos econômica e culturalmente do Oriente Médio? O ato mais subversivo do mundo ainda é pensar com a própria cabeça. E em voz alta, dizia Coco Chanel (não por acaso uma das mulheres - e francesas - mais influentes e admiradas do mundo). Pois bem, é exatamente isso que Marjane tem a coragem de fazer - e publicar - quando se fala em Persépolis. O poder de seu pensamento e de seus traços em p&b é tamanho que antes de virar filme a vida de Marjane já havia virado um dos quadrinhos (ou graphic novells) mais cultuados do mundo. "Sou iraniana. E tenho orgulho de ser", brada ela em uma das cenas mais dramáticas do filme. Mas não foi o que o atual governo iraniano entendeu. E já não havia entendido nos anos 70, quando a família de Marjane resolveu mandar sua única filha para a Áustria, onde ela estaria longe da vigilância severa dos bedéis do Islã. Mas, afinal, quem é Marjane Satrapi? Quem é essa mulher bonita, de olhos felinos, que fala com as mãos, é extrovertida e sarcástica? Uma típica figura feminina que atrai e, ao mesmo tempo, espanta. Ela hoje é uma das mais influentes cartunistas, artistas e, claro, mulheres do cinema mundial. Enérgica e doce ao mesmo tempo. E usa toda essa energia, que por muito pouco não foi condenada a se esconder atrás do véu, para se revelar a própria metonímia de seu povo. Marjane era parte de um Irã que se indignava com o fato de uma garota poder ser presa por mascar chiclete e usar tênis All Star. É nesse cenário que começa sua história. Na adolescência, Marjane Satrapi (que foi educada em colégio francês e leu todos os clássicos da cultura ocidental) queria o que toda garota de sua geração queria: andar na moda, ter um walkman, comprar discos, ir a festinhas com os amigos, beber, e, claro, namorar. Mas, em vez de arranjar, no máximo, uma briga com os pais por usar uma jaqueta que bradava "Punk is not dead", seu visual punk (o máximo da modernidade nos anos 80), poderia levá-la literalmente para a cadeia. Ela devia usar roupas que jamais marcassem o quadril e o hijab (o véu sagrado que zela pelo recato das mulheres muçulmanas). No lugar de ouvir bandas como Iron Maiden, Abba ou James Brown, deveria prestar atenção aos cânticos dos muezins chamando os fiéis para rezar nas mesquitas. Namorado? Jamais. Se optasse por seguir a cartilha do aiatolá, estava fadada a encontrar um pretendente que a beijaria só depois de casada. Andar pelas ruas de mãos dadas e sentir o vento nos cabelos? Crime grave! Era esse o cotidiano em que cresceu a cartunista. Um Irã pós- Revolução Islâmica, quando, em 1979, o regime ditatorial do aiatolá Khomeini tomou o país de assalto e a antiga Pérsia se tornou a República Islâmica do Irã. Grosseiramente, pode-se dizer que, na época, os iranianos saíram da frigideira para cair na panela. Em vez de melhorar, as condições de liberdade de expressão, que com o regime dos xás já não eram ideais, pioraram. O país passou a ter uma verdadeira polícia para zelar pelos bons costumes. Marjane, em vez de se render ou de virar guerrilheira, criou Persépolis, sua graphic novell cheia de textura e bom humor. "Nunca pensei que queria ser cartunista. Simplesmente, queria contar minha história. Eu amo meu país. Lá tem gente boa e gente ruim, como em todos os países. Quando cheguei à Áustria, também sofri muito. Eu mentia, dizendo que era francesa, para ser aceita, para que os garotos não me evitassem. Quem ia sair com uma iraniana? Me sentia péssima. As outras garotas me ridicularizavam. Fiquei deprimida, passei dois meses com frio, perambulando pelas ruas de Viena, até que um dia acordei em um hospital", conta ela, provando que seus quadrinhos são femininos, mas estão longe de serem gibi da Luluzinha. "Quando me curei, lembrei do que minha avó dizia. Jurei nunca mais mentir sobre minha origem. Tenho muito orgulho dela."Com seu traço e sua visão tão particular das raízes de um mundo cada vez mais dividido entre as culturas do Ocidente e do Oriente, Marjane não poupa ninguém, não deixa de falar de temas como guerra, tortura, injustiças, machismo, violência de toda espécie, imperialismo e, assunto tabu dos tabus no Oriente, comunismo. Ela endurece. Mas não perde a ternura. Nem descuida do cajal (este sim, secular item da nécessaire de toda mulher oriental que preze sua vaidade). Sua história começa com ela ainda garotinha e evolui, num flash back, para a História com H maiúsculo do que se tornou o Oriente nestas últimas décadas. Marjane hoje está no topo do cinema e das discussões que cercam temas tão delicados como o respeito às diferenças e o abuso do absolutismo religioso. Mas se diz feliz com sua tarefa, ainda que involuntária. E mais ainda com seu filme. "Eu, que sou tão enérgica, teria feito um filme do Godard. Vincent é o parceiro ideal, que me ajudou a equilibrar tantas palavras e expressões. Ele, que é tão introvertido, já teria feito um filme do Scorsese, cheio de cenas de ação. Juntos, fizemos um terceiro filme." Os produtores de Persépolis concordam: " Nunca podíamos imaginar que teríamos esta nominação ao Oscar, uma honra imensa para a nossa primeira produção. Estamos tão orgulhosos e felizes por Marjane e Vicent", declararam ao Estado Marc Antoine Robert e Xavier Rigault. "Ela cumpriu sua missão." Nada mal para uma garota que aos 9 anos ouvia as histórias de seus tios comunistas presos e torturados na prisão, conversava com Deus e sonhava em ser profeta para melhorar o mundo. Em vez de sermões da montanha, hoje ela prega com palavras e nanquim. SEM BEIJOSua sina era encontrar um pretendente que só a beijaria depois do casamentoSEM MEDOTeve a coragem de falar de temas que levam a ameaças de morte por radicais islâmicos SEM SOMEm vez de Iron Maiden, Abba e ames Brown, tinha de ouvir o canto dos muezins

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