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Retromania e chuva ácida marcam 'Blade Runner', que tem sequência em outubro

Filme dirigido por Ridley Scott em 1982 é revisitado em 'Blade Runner 2049', que avança 30 anos em relação ao original, mas com retrofit cenográfico nostálgico

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

Foi ao coletar dados para escrever outra distopia, O Homem do Castelo Alto, que Philip K. Dick teve o estalo de Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?. Remexendo em arquivos nazistas, na Alemanha, Dick topou com o diário de um ex-oficial da SS, lotado em Varsóvia, cujas confidências o levaram à concepção de um gueto multirracial, habitado por seres verdadeiramente humanos e outros apenas humanoides, em permanente conflito. O Homem do Castelo Alto descrevia um pós-guerra dominado pelos nazistas, com Hitler vivinho da silva; o romance que daria origem a Blade Runner, escrito duas décadas depois do estalo, se passava num futuro mais distante: na Califórnia de 2019. Sem nazistas no poder. Os aliados que os haviam vencido na guerra incumbiram-se, sozinhos, de degradar o planeta. 

Ao preparar o primeiro Blade Runner, que começou a ser roteirizado à vera em 1980, o diretor Ridley Scott reconheceu em entrevistas o desafio maior que qualquer fantasia ambientada num futuro relativamente próximo, tangível, impõe. Faltavam então 39 anos para o sinistro futuro apresentado na tela materializar-se, e é com alívio que, a apenas dois anos de sua efetiva chegada, constatamos que Los Angeles permanece bem distante da Babel dark retratada por Scott. E o mesmo se pode dizer de Nova York, o modelo urbano que serviu de inspiração ao visionário Douglas Trumbull e sua equipe de cenógrafos e designers: a violenta e deteriorada Manhattan do início dos anos 1970, não a exuberante megalópole que em 1936 William Cameron Menzies idealizara para dali a um século, em Daqui a Cem Anos

Com Trump na presidência, é de se temer que sua desconsideração pela questão climática (e não só ela) possa contribuir para finalmente aproximar Los Angeles do decadentismo punk e high tech imaginado por Scott para a primeira caçada de Rick Deckard aos replicantes fabricados pela Tyrell Corporation. Neon-noir futurista. Foi esta a etiqueta genérica que em Blade Runner pespegaram na época. Neonoir não daria conta das nuanças visuais boladas por Syd Mead e Laurence G. Paull, a pedido de Scott, cuja fixação em ambientes techno sórdidos, infiltrados por goteiras, ferrugem e detritos, já se manifestara em Alien- O Oitavo Passageiro, este sim “o primeiro filme de ficção-científica para espectadores inteligentes” depois da odisseia espacial de Kubrick–e também “o primeiro filme de mocinha” (Ripley, a personagem de Sygourney Weaver) em não sei quantos anos de protagonismo masculino. Nostromo, a cavernosa nave de Alien, parecia uma sucata voadora, totalmente desprovida de glamour, o oposto dos inoxidáveis foguetes consagrados pela ficção científica hollywoodiana. Por falta de audácia Scott jamais morrerá de fome. 

A chuvosa, miasmática e insalubre Los Angeles de Blade Runner era uma réplica urbana da Nostromo. Um gigantesco showroom de arquitetura retrofit, mergulhado numa noite permanente, a culminância de um desastre ambiental apressado pelos assim ditos humanos. Com seus espigões mais poluídos por outdoors de grifes que Times Square e Shibuya juntos, às vezes parecia uma caricatura grotesca de Tóquio e Hong Kong. 

Cameron Menzies localizou seu “maravilhoso mundo novo” numa imitação futurista da antiga Grécia. Talvez exista algum motivo além da nostalgia que explique essa tendência do cinema prospectivo a buscar as matrizes dos seus cenários em civilizações milenares, em imaginar arranha-céus que ora lembram pirâmides egípcias, ora palácios romanos e zigurates babilônicos. Uma nova matriz arquitetônica se sobrepôs aos modelos europeus a partir de Guerra nas Estrelas. A coroação final de Han Solo e Luke Skywalker, no reino da princesa Leia, foi filmada no topo do mais imponente templo maia de Tikal, na Guatemala. Há numerosos vestígios das civilizações maia e asteca na paisagem retro déco de Blade Runner

Philip Dick embirrou com vários roteiros que lhe foram submetidos (o primeiro, assinado por Robert Jaffe, em 1973, era uma comédia), até aceitar o tratamento que David Peoples aprontou oito anos mais tarde. Dick chegou a visitar o set de filmagem, elogiou bastante o trabalho de Trumbull e sua equipe, mas morreu pouco antes do lançamento do filme. 

As previews foram desastrosas. Suas plateias esperavam que Rick Deckard fosse um novo Han Solo, um novo Indiana Jones, não uma espécie de capitão do mato de um Dr. Frankenstein tecnocrata; os produtores acharam o plot confuso e impuseram uma narração (na voz de Harrison Ford), anos depois retirada por Scott. A crítica não se entusiasmou, mas os cinemas lotaram. E com o passar do tempo, remontado cinco vezes e cultuado até por escritores como Guillermo Cabrera Infante, virou um clássico da ficção científica e da especulação filosófica pop, tema de teses acadêmicas e ensaios, alguns bem delirantes, sobre a vida, a morte, os limites da cibernética e, por fim, mas não menos importante, a ganância corporativa e a escravidão. 

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