Fundação Juan Rulfo
Fundação Juan Rulfo

Reunião de contos de Juan Rulfo traz a voz solene de um México profundo

Autor celebrado de 'Chão em Chamas' foi inspiração para Gabriel García Márquez

Faustino da Rocha Rodrigues*, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2021 | 15h00

Juan Rulfo é muito celebrado por seu único romance, de 1955, Pedro Páramo. Contudo, dois anos antes havia publicado Chão em Chamas, trazido a lume agora pela José Olympio, com tradução de Eric Nepomuceno. 

Nascido em Jalisco, no México, Rulfo é um escritor digno de estar no panteão dos grandes autores do século 20. Essa é a opinião de ninguém menos que Gabriel García Márquez, admirador de sua obra, ao ponto de alçá-lo ao patamar de Sófocles. 

Elogios à parte, Rulfo é um esteta da língua espanhola. E o seu rigor na escrita se faz não pela atenção à norma culta ou à redução ao mínimo com os cortes, segundo o entendimento de Nepomuceno, seu tradutor. O autor que inspirou o escritor de Cem Anos de Solidão compõe o insólito sem se distanciar do comum. Redimensiona o corriqueiro, o secundário, elevando-o a um novo status. Faz isso durante a década de 1950, quando o foco estava nas novidades decorrentes da urbanização dos países latino-americanos, chamando a atenção da literatura para as cidades em construção. 

Aliás, um tema a perpassar a obra de Rulfo, de maneira muito delicada, porém, potente, é o da ausência de um projeto político eficaz e producente para o México profundo. Essa expressão é utilizada por Guillermo Bonfil Batalla ao abordar a maneira como se deu a integração das culturas locais em nome do desenvolvimento nacional. O processo teria relegado culturas e tradições a um segundo plano, deixando-as quase que exclusivamente no imaginário popular, condenadas ao esquecimento. 

Os 17 contos de Chão em Chamas misturam tradição e modernidade. Rulfo ressalta extremos que antes pareceriam inconciliáveis. Vida e morte, amor e dor, natureza e humanidade, tudo isso e muito mais estão presentes, demarcando a narrativa e seus contrastes, cultivando o assombroso para além do óbvio. 

É este o caminho para a leitura de Chão em Chamas. Algumas das transformações sociais ocorridas no México compõem o cenário das históricas apresentadas. As consequências de tais mudanças nas vidas dos mexicanos vêm à tona, margeando toda a certeza conferida pela modernidade e urbanização que seguiam avançando. 

A linguagem oral é constantemente mobilizada por Rulfo, promovendo aproximação com a cultura local. Assim, o narrador se faz presente de modo diferenciado. Envolve-se sem necessariamente apresentar deduções. Simultaneamente, familiariza o leitor com os relatos, ressaltando seu realismo. 

As conquistas revolucionárias não resolvem os dilemas do campo. O conto E nos deram a terra traz um governo, com sua reforma agrária, distribuindo fatias de solo do chapadão infértil e seco para pequenos agricultores. Em Chão em Chamas, conto que deu origem ao título do livro, o milharal é destruído por incêndios durante o período da colheita – o fogo crepita na aliteração do título original em espanhol, Llano en Llamas.

Em É que Somos Muito Pobres aparece o lamento de uma família ao ver a vaca prometida como dote de uma das filhas ser levada pela correnteza das chuvas. A lamúria pela perda fica ainda mais evidente quando Tacha teme que, diante da moeda para o seu casamento, tenha o mesmo destino das irmãs: a prostituição. O Dia do Desmoronamento é um relato sobre o terremoto que assolou um vilarejo, seguido da visita do governador que se mostra um tanto indiferente às mortes em evidência no local. 

Todos esses episódios adquirem sonoridade própria. O reconhecimento da infertilidade do solo a despeito da grandeza do chapadão; o destino atrelado a uma vaca; a fala do governador em meio à tragédia seguida de uma festa, tudo isso evoca a real condição do mexicano. São os relatos dos indivíduos para além da política, do drama, e todo o desdobramento lógico aparentemente previsto para esses casos, enfim, o insólito, que abrem as portas para a configuração do maravilhoso presente no realismo mágico. Eis o ponto de partida para um dos movimentos literários mais importantes dos últimos tempos. Entende-se, agora, a admiração de Gabo.

Se a urbanização pressupõe uma espécie de desencantamento do mundo, a literatura de Rulfo a eviscera e foge à expectativa criada sobre esse mundo lógico moderno em construção. Isso é feito resgatando tradições e reposicionando crenças locais, de maneira a não deixá-las de lado em nome da colonização de uma razão superior, técnica pura. 

Chão em Chamas faz o pequeno se tornar grande. Confere voz a um México profundo, permitindo-lhe falar por si. É a partir dele que uma vaca não pode ser apenas uma vaca. Logo, literatura não pode ser só literatura. 

*FAUSTINO DA ROCHA RODRIGUES É JORNALISTA E DOUTOR EM CIÊNCIAS SOCIAIS

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