Wikimedia commons
Wikimedia commons

Reunidos em um volume, livros investigam Moçambique pré-colonial

De Ungulani Ba Ka Khosa, 'Ualalapi', tido como um dos cem melhores livros africanos do século 20, e o recente 'As Mulheres do Imperador', são lançados no Brasil

Bruna Meneguetti*, Especial para o Estado

06 de abril de 2019 | 16h00

“Alegrava-o o fato de os africanos, em particular os assimilados, olharem o passado como um período de barbárie, de feras humanas, de incivilização.” A frase sintetiza o que pensa um dos personagens do livro As Mulheres do Imperador (2017), escrito pelo moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, mas também pode ser um interessante ponto de discussão — além deste livro — em outra obra do autor: Ualalapi (1987). Ambos foram publicados recentemente no Brasil pela Editora Kapulana, que os compilou em uma única edição de nome Gungunhana.  

Não à toa juntas na edição brasileira, as duas obras conversam ainda mais entre si. Ualalapi mostra o passado de Moçambique, em que vemos o período de reinado de Ngungunhane, imperador das terras de Gaza (onde hoje ficam diversas províncias, entre elas a de Gaza, uma das mais prejudicadas pelo ciclone recente que deixou mais de 700 mortos segundo a ONU), desde sua ascensão até o seu declínio, em 1895, quando o território foi tomado pelos portugueses. Carregado de elementos do realismo mágico, o livro é capaz de nos fazer ter empatia e ao mesmo tempo aversão por essa figura histórica, por esse “período de barbárie”. 

A empatia ocorre por sua luta contra a colonização; pelo primeiro contato, ainda distante, do leitor com suas mulheres, que são muitas; e o seu modo de viver. Já a aversão se dá pelo modo violento de agir nos conflitos naquele ambiente, como o fato de o imperador ter mandado matar o próprio meio-irmão para assumir o poder. A isso já se percebe a figura autoritária de Ngungunhane, que ignora diversos problemas presentes nas suas terras, como a fome: “andava de um lado para o outro, afirmando que no império tudo andava bem e que havia grandes progressos (...). Os que diziam o contrário era pendurados nas árvores”. 

Com Ualalapi, Khosa ganhou o Prémio Nacional de Ficção, em 1987, sendo que o livro também entrou para a lista dos cem melhores romances africanos do século 20, porém é com As mulheres do imperador que o escritor intensifica questões trazidas previamente, resgatando ainda mais os aspectos étnicos do passado, assim como seus lados positivos e negativos. A obra se passa no período colonial de Moçambique, focando nas esposas do imperador exiladas em 1896 e separadas de Ngungunhane para depois, após 15 anos de exílio, regressarem a sua terra natal.

Foram sete as mulheres levadas para São Tomé, em Portugal: Phatina, Malhalha, Namatuco, Lhésipe, Fussi, Muzamussi e Dabondi, no entanto apenas quatro retornam (Phatina, Malhalha, Namatuco e Lhésipe, que fazem a viagem acompanhadas de Oxaca e Debeza, duas esposas de Zilhalha, um súdito do imperador). O fato de três esposas morrerem antes do final do exílio diz muito sobre o livro: juntas simbolizam o fim de uma parte do seu povo e de sua cultura. 

As que restam, levantam o debate entre tradição e novos dogmas. Ao chegarem em Moçambique, as sete mulheres encontram uma terra muito diferente da que deixaram para trás. Uma das principais mudanças é que o espaço está dividido por uma estrada, que separa brancos de negros (algo que parece inconcebível ao pensarmos que lá foi o lugar onde os mesmos nasceram). Há um não reconhecimento do local de origem por parte das mulheres, das mulheres por parte das pessoas da região e das mulheres por parte delas mesmas. 

Os hábitos, roupas, penteados e costumes delas parecem estranhos à população, elemento que choca o leitor ao revelar o esquecimento, talvez muito mais prematuro do que se poderia imaginar, de uma cultura. Porém, elas também retornam com novos hábitos, como a quebra da fidelidade conjugal e o costume de comer peixe, práticas que a personagem Namatuco recrimina. No entanto, nem mesmo ela, que permaneceu fiel às tradições, consegue se comunicar com os “espíritos da terra” assim que coloca os pés em Moçambique, o que leva a uma busca pelo reencontro das origens em um local agora específico e limitado. 

A personagem merece atenção especial: é ela quem vai trazer os únicos elementos de realismo fantástico, pouco presentes no livro mais recente e, por meio deles, reforçar as questões que Khosa alude em toda a sua obra. Por exemplo, a perda da magia de Namatuco em terras estrangeiras não ocorre de forma gratuita. É possível fazer um paralelo com a realidade, em que existe uma espécie de “desencanto” quando se é obrigado a deixar o lugar em que se vive.

Esse mesmo encanto poderia regressar, mas não ao colocar os pés no local de origem, agora modificado por um outro, e sim ao estar mais próximo de pessoas e regiões onde permanecem tradições, como se pode se observar no trecho: “— Chegamos à fronteira — disse Sibuko Simango. — Aqui termina o mundo dos brancos e começa o mundo dos pretos. / — Estou sentindo — aquiesceu Namatuco. (...) Estou a renascer, Phatina. Os espíritos da terra estão a acolher-nos. Voltamos à casa”. 

Dessa forma, Namatuco e as outras mulheres trazem diversas questões que conversam com Ualalapi e a primeira frase deste texto: o passado foi mesmo tão bárbaro ou a barbaridade está em construir uma terra sem passado? A quem interessa o esquecimento da história e que ela seja vista como um período de incivilização? Há uma inversão da culpa da colonização para o colonizado, em vez do colonizador, tal como é feito com as mulheres vítimas de abusos? 

Khosa, de modo corajoso, não refuta o passado, mas mostra a sua importância para entender o país de hoje, mesmo que isso signifique relembrar momentos terríveis da história. Mais do que isso, o autor vai a fundo e revela quantos elementos ricos e interessantes estão sendo perdidos devido a esse pensamento de que a história está recheada de “feras humanas”.  Seu livro tornar-se, assim, uma lição para todas as nações. 

Leia a íntegra da entrevista de Ungulani Ba Ka Khosa para o Aliás:

Por que optou por trazer as mulheres do imperador para o centro de uma de suas histórias, colocando-as como protagonistas?

Elas chamaram-me, Bruna. Antes de terminar o livro Entre as Memórias Silenciadas, isto em 2013, por aí, as mulheres do imperador começaram a incomodar. E a partir de 2015, não me largaram mais. Saindo dessa faceta do imponderável, diria que as mulheres do imperador  colaram-se a mim pelo facto de eu ter dado certo protagonismo ao Imperador Gungunhana. Elas precisavam de emergir. E de facto, depois de quinze anos de exílio, as mulheres, parte delas, regressam ao território que então se chamava Moçambique. O império de Gaza havia morrido. No fundo, e já tive oportunidade de afirmar, é a homenagem que eu presto às mulheres, a esse segmento que a História maiúscula tem secundarizado ao longo dos séculos.

Em 'Ualalapi' é perceptível o uso do realismo mágico em muitos momentos da história. Já em 'As mulheres do imperador', o realismo mágico não possui a mesma carga e apenas somos apresentados a elementos mágicos quando lemos sobre a história de Namatuco e quando esta regressa a Moçambique com as outras mulheres do imperador. Gostaria de saber qual foi a sua intenção ao abordar essa “perda da magia” que ocorre quando alguém é obrigado a abandonar o próprio país, além do que representa o retorno da magia no caso de Namatuco.

As personagens é que me puxaram. Elas foram definindo a sua trajectória. E dei-me conta que  o chamado realismo mágico tem muito a ver com o chão pátrio, com a ligação aos antepassados, ao espírito protector. E viu-se em Namatuco a impossibilidade, em terras portuguesas, de se conectar com os espíritos. Na cosmogonia bantu, a ligação com a terra e os espíritos é de capital importância. Um exemplo recente: no decorrer das enchentes  provocadas pelo ciclone Idai, foi notória a recusa de muitos camponeses em abandonarem as terras alagadas. Eles não queriam se afastar do seu mundo espiritual, dos cemitérios familiares, das árvores sagradas. E Namatuco só ganhou força quando pisou as terras do seu antigo império.

Há um trecho em que diz: “alegrava-o o fato de os africanos, em particular os assimilados, olharem o passado como um período de barbárie, de feras humanas, de incivilização”. Qual é o olhar que você, como escritor, quer trazer sobre o passado de seu país?

Neste mundo globalizado onde a  cultura do espectáculo, do efémero, predomina, é importante que os chamados países periféricos se entranhem mais na sua cultura, assumindo valores que possam marcar a diferença no mundo homogeneizado. A dignidade de um povo está na assumpção dos seus  valores culturais. Tudo de bom numa cultura perdura, ganha consistência, moderniza-se. No texto, a alusão aos assimilados, é para ilustrar o quão negativa foi a cultura de assimilação no quadro da colonização portuguesa, pois ela partia do primado da negação do outro e, consequentemente, dos seus valores. O ser assimilado era, ao tempo, a negação dos valores ancestrais bantu. Ele queria ser o outro, até no nome. Os Khosas deixaram de o ser, e passaram a Costa. 

Sobre o trecho: “Dizia-se, (...) que a vingança nguni veio para ficar e, contra todos os prognósticos, arrasar não os brancos mas os pretos, porque estes foram os responsáveis pela derrota do imperador, ao permitirem que um diminuto número de brancos reduzissem os pretos a objetos”, podemos dizer que há (como no caso de mulheres violentadas), uma tendência da vítima, dos colonizados, de se culparem pelo ato de seus colonizadores?

Não é assim tão linear. No caso do livro, eu falo de um grupo étnico, os nguni, que foram vistos como colonizadores, pois resultaram da chamada diáspora nguni  do tempo de Tchaka Zulu, o grande imperador, responsável por uma nova geografia política no primeiro quartel do século 19 , em toda a África austral. Dessa diáspora resultou, a partir de 1822/23, o chamado Império de Gaza, sob o comando de Sochangana, avô de Gungunhana. Num olhar estritamente histórico, os nguni foram invasores; eles ocuparam novas terras, assimilando os povos autóctones. E a derrota, na perspectiva do texto, é vista como traição dos povos colonizados pelos nguni.

Quais são os autores e/ou autoras africanos que atualmente influenciam a sua escrita e, na sua opinião, quem está produzindo uma boa literatura em Moçambique nos dias atuais?

Pouco ou quase nada me chega dos autores africanos. Alguns autores que vou lendo, são os africanos na diáspora, como é o caso da Chimamanda, dos que são editados pela Kapulana, e pouco mais. Fiquei-me sempre pelos clássicos africanos- Ngugi Wa Thiongo, Sembene Ousmane, Birago Diop, Amos Tutuala, Wole Soyinka e Chinua Achebe, entre outros. Mas estes  situam-se como escritores da geração das independências do grosso dos países africanos. Os contemporâneos não chegam às terras do mundo lusófono. E a minha praia, por variados motivos, está nos autores latino americanos, responsável pelo boom do chamado realismo mágico e não só. Falo do Alejo Carpentier, Julio Cortazar, Ernesto Sabato, Garcia Marquez, Juan Rulfo, Jorge Luis Borges, Carlos Fuentes, Guillermo Cabrera Infante, Mario Vargas Llosa, entre outros. À colação, o português José Saramago. Neste momento, estou à braços com a grande obra do cubano Lezama Lima, o Paradiso. Outros autores vão chegando, mas a matriz, e nela agrego a geração perdida – Ernest Hemingwaay, William Faulkner e F. Scoot  Fitzgerald-, mantém-se incólume. Nalguns autores retenho a técnica,  o apuro na escrita; noutros, o imaginário sem fronteiras, o ritmo, a sonoridade. A minha preocupação, desde que me conheço como escritor, foi a de dar à minha escrita os vários ritmos do cavalo: passo, trote e galope. Penso que a oralidade africana encaixa-se perfeitamente nesse meu conceito. Em Moçambique assiste-se, neste momento, a um certo boom da poesia. Há uma geração apostando na prosa poética e no estilo clássico, que é de louvar, nestes tempos de grande secudarização da poesia. Sete a oito nomes se destacam na nova geração de poetas moçambicanos.  

Um dos grandes temas do livro é o esquecimento das origens, culturas e mudanças de hábitos que a população de um país colonizado sofre. Como os moçambicanos lidam com esses aspectos atualmente?

Está sendo difícil o reencontro com a nossa Cultura. Ainda não a assumimos como fator de coesão e de identidade. Olhamo-la, por vezes, como algo epidérmico, cosmético, de moda. É preciso que os governos do dia invistam na Cultura. E investir significa potenciar os currículos do ensino primário e secundário, com matérias da nossa cultura, como, por exemplo, os provérbios e as histórias tradicionais das várias etnias que compõem o nosso universo cultural. É preciso valorizar as línguas nacionais, dotando-as do mesmo estatuto que a  língua do colonizador. No caso de Moçambique, honra seja feita a este governo, o ensino ao nível primário é, obrigatoriamente, a partir deste ano lectivo, bilíngue. Esse é o passo fundamental na valorização das culturas de origem bantu.

Quais as relações que podemos fazer entre o Moçambique dos dias atuais e o Moçambique dos anos em que se passam os dois livros ('Ualalapi' e 'As mulheres do imperador')?

Ao tempo do livro, Moçambique como espaço geográfico só tinha quinze anos de vida, tempo igual ao do exílio das mulheres do imperador. Moçambique nasceu da conferência de Berlim. Antes eram espaço de  grande autonomia dos reinos e impérios. O espaço que as mulheres do imperador encontram é totalmente novo. É um espaço a ocidentalizar-se, a assumir a civilização judaico/cristã. O português começa a impor-se, as escolas indígenas estão na sua fase embrionária, enfim, o mapa africano começa a transformar-se. Hoje o modelo civilizacional ocidental está entranhado nos países africanos. O que é preciso, a meu ver, é fazer florir os valores culturais africanos.

Em 'As mulheres do imperador', há momentos do livro em que o narrador fala muito do preconceito que indianos e chineses sofriam. Como é a relação hoje em dia em Moçambique com diferentes povos, em especial indianos e chineses?

A comunidade de origem chinesa dispersou-se logo após a independência. Muitos emigraram para São Paulo, Brasil, Portugal e Macau. A comunidade de origem indiana, em grande parte, manteve-se no solo moçambicano. A grande diferença entre a comunidade de origem indiana e a de origem portuguesa, é a de que os indianos sempre se mantiveram fiéis aos seus valores ancestrais, pouco se preocupando em fazer valer esses milenares valores aos outros grupos. Os de origem portuguesa  sempre fizeram  questão, era a característica da colonização, em interferir na cultura Bantu, fazendo valer os valores judaicocristãos. Em relação aos de origem indiana e chinesa, os colonos sempre criaram, ao nível da cidade de Lourenço Marques, portarias no sentido de não permitir a ascensão destes grupos nas actividades económicas da colónia. E elas funcionaram  como pequenos guetos dentro da sociedade colona em expansão. Essa característica manteve-se durante todo o período colonial.  Hoje, a comunidade de origem indiana e paquistanesa, tem um poderio econômico que lhes permite interferir nas políticas do Estado. Culturalmente, elas não se preocupam com os destinos que a sociedade de origem bantu, a maioria, traça. O seu escopo centra-se na economia. E são poderosos.

 

*Bruna Meneguetti é jornalista e escritora, autora de 'O Último Tiro da Guanabara' (Reformatório, 2019) e coautora de 'Corações de Asfalto' (Patuá, 2018)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.