Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Revanche dos ratos do vinil

O Dia da Loja de Disco Independente reúne tribo da deliciosa, mas periclitante, arte de ouvir, comprar e trocar discos

Sérgio Augusto

17 de abril de 2010 | 16h00

Numa semana em que centenas de espanhóis e argentinos saíram às ruas para protestar contra a perseguição que viúvas do franquismo movem contra o juiz espanhol Baltasar Garzón e brasileiros amplificaram seu clamor contra a construção da usina de Belo Monte, no Xingu, com o megafone do cineasta James Cameron, talvez soe inoportuno privilegiar uma terceira manifestação coletiva como o Dia da Loja de Disco Independente, ontem celebrado mundialmente.

 

Inoportuno seria se o futuro das lojas de disco (e o que elas representam) não estivesse tão ameaçado quanto o ecossistema da Amazônia e a reputação da Justiça espanhola. Se a passeata em favor de Garzón teve dois palcos internacionais (Madri e Buenos Aires) e também contou, em suas fileiras, com um cineasta famoso (Pedro Almodóvar), o Dia da Loja de Disco Independente - doravante IRSD, acrônimo de Independent Record Store Day, sua sigla oficial - mobilizou muito mais gente e estendeu-se por muito mais chão. Ao evento aderiram mais de mil lojas. De 18 países. De quatro continentes. Inclusive do Brasil, com destaque, pela pronta adesão, da Plano B, polo aglutinador de roqueiros, performáticos e "ratos de vinil", no bairro da Lapa, no centro do Rio.

 

Como das outras vezes, as lojas abriram suas portas para atrair todos os tipos de audiófilo e com eles cultivar a deliciosa, mas periclitante, arte de ouvir, comprar e trocar discos, LPs, compactos e CDs, de corpo presente. Desde 2007 que o terceiro sábado de abril é o dia mundial do disco vendido em loja, iniciativa destinada a revalorizar o mercado fonográfico independente, há tempos ameaçado de extinção pelas grandes redes de supermercados, pelas lojas virtuais da internet, pela pirataria desenfreada e pela recessão.

 

Por que não transformar esse dia em feriado nacional?, sugeriu David Amram. Músico clássico, temperado pelo jazz, Amram, que tem em seu eclético currículo a trilha sonora do filme Clamor do Sexo, de Elia Kazan, vai mais longe: "A ONU bem que poderia instituir o ano da loja de disco".

 

Funciona assim: gravadoras independentes preparam edições limitadas de singles, especialmente para o IRDS e que só podem ser vendidos naquele dia. As lojas de maior renome no comércio varejista independente (a Amoeba, de Los Angeles, a Downtown Records, de Nova York, a Sonic Boom, de Seattle, a Criminal Records, de Atlanta, por exemplo, e diversas europeias) ficam sempre com a parte do leão, sobretudo aquelas igualmente bem estabelecidas no circuito de shows, como é o caso da Amoeba, em que Paul McCartney se apresentou poucos meses atrás, mas a oferta de singles inéditos não passa de um chamariz. O fundamental é estimular o hábito de frequentar lojas de disco e confraternizar com outros aficionados.

 

Como de hábito, os fãs e músicos de rock, imbatíveis em matéria de mobilização, predominaram à frente do evento, este ano mais badalado pela mídia e com muito mais participantes que as edições anteriores. No topo da lista, os Rolling Stones, Bruce Springsteen, Paul McCartney, os Sex Pistols, Alice in Chains, Wilco, Drive-By Truckers, Beasty Boys. Até singles de Elvis Presley e um 12 polegadas de Jimi Hendrix foram postos à venda nas lojas ligadas à celebração.

 

Lojas de discos não são um estabelecimento comercial qualquer, mas um espaço cultural, um ponto de encontro, um centro comunitário, um laboratório de interatividade. Suprema curtição sabática, em geral matutina, mesmo em cidades à beira-mar, nelas nasceram e se forjaram muitas amizades, sensibilidades e vocações musicais. Mais que a loja de doces dos adultos, é uma catedral aural, definição assinada pela atriz-cantora Nellie McKay e carimbada pelo folk-roqueiro irlandês Luka Bloom, que mais de uma vez comparou suas peregrinações à Concerto, de Amsterdã, a uma experiência religiosa.

 

Um dos melhores contos de Rubem Fonseca, A Força Humana, começa e termina na porta de uma loja discos, com os personagens "mais quietos do que numa igreja". Só não é a melhor obra literária ambientada numa loja de discos porque se passa, na maior parte do tempo, numa academia de halterofilismo. Na especialidade, nenhuma ficção superou até hoje o romance Alta Fidelidade, de Nick Hornby, afetuosa preito à cultura do vinil e à música pop, com pelo menos um tipo inesquecível: Barry, um divertido e onisciente vendedor (interpretado por Jack Black na versão para o cinema), que não exerceria igual fascínio se malocado atrás de um balcão digital.

 

"Sim, é mais fácil e barato baixar música pelo computador", reconhece Hornby, "Mas o que está tocando em sua loja virtual preferida quando você entra nela?", pergunta o escritor a um imaginário consumidor acostumado ao varejo pontocom. "Nada", responde. E prossegue: "Quem você pode encontrar lá? Ninguém. E cadê os quadros de avisos, oferecendo dicas, trocas, pechinchas e vagas em bandas eventualmente destinadas ao sucesso? Vá em frente, economize uns trocados, e arrisque-se a perder uma carreira, uma rede de amigos maneiros, um gosto musical incrementado e, quem sabe, sua alma. Lojas de disco não salvam a vida de ninguém, mas a aprimoram".

 

Resumo da ópera: as lojas de disco promovem conexões; o iTunes e a Amazon, a disconexão.

 

"Não conheço nada mais glamouroso que uma loja de discos", disse McCartney ao site do IRDS, que este ano contou com o empurrão de um canal no You Tube e um documentário de Brendan Toller (I Need That Record!) sobre a heroica resistência da cultura discográfica, no qual, às horas tantas, seu mais inesperado entrevistado, o linguista e ativista político Noam Chomsky, admite, meio sem jeito, não ter uma banda de rock preferida. Mas da atual crise da indústria de discos e suas consequências econômicas e culturais ele entende. Soluções também não tem, mas talvez concorde com uma providência proposta pelo guitarrista e baterista Jack White: conscientizar a garotada de que é uma vergonha só consumir música baixada, se possível de graça, da internet.

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