Emily Baxter
Emily Baxter

Revelação da literatura nigeriana ganha tradução no Brasil

Lesley Nneka Arimah reúne 12 contos em 'O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu'

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

27 Outubro 2018 | 16h00

A jovem escritora Lesley Nneka Arimah é uma instigante revelação literária. Nascida no Reino Unido, de pais nigerianos, cresceu na Nigéria e hoje vive no EUA. Seu livro de estreia, uma coletânea de contos intitulada O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu (2017), angariou alguns dos prêmios mais importantes de ficção, como o prêmio norte-americano Kirkus Reviews Prize. Suas histórias chegam agora ao Brasil, pela editora Kapulana, em tradução de Carolina Kuhn Facchin.

Embora viva nos EUA, essas histórias se passam sobretudo no continente africano, mais especificamente na Nigéria. Em determinando momento, Lesley destaca o olhar do ocidente para a África, uma África fabular, com animais selvagens, danças “exóticas”: “É, ouvi dizer que a sua mãe mandou você de volta pra a África. Me manda umas fotos de mulheres sem blusa”, diz a amiga norte-americana da protagonista de Descontrolada

Mas o que Lesley descreve em seus contos são situações urbanas bastante comuns, como a ida a um evento beneficente com fotógrafos e uma elite local que aguarda na porta o motorista particular chegar com o carro. Por vezes, a sociedade nigeriana retratada nesses contos se parece muito com a brasileira, repleta de hierarquias e de empregados domésticos tratados de forma preconceituosa: “Minha mãe teria desmaiado de humilhação ao me ver tratar uma empregada como visita, então eu me apressei com ela pela casa, mostrando isso e aquilo” ou “Minha mãe recitava as virtudes de jovens empregadas o tempo todo – adaptável, facilmente intimidada, que provavelmente não seduziria o homem da casa ou apareceria grávida”.

No discurso da mãe, há também uma visão machista ostensiva, que põe na conta da mulher os desacertos dos homens. Se essa fala choca é, talvez, por nos sentirmos próximas dela. Em Glória, a protagonista é o oposto do que os pais sonhavam: tem um emprego miserável, nenhum namorado e uma atitude implicante, que não condiz com a de uma mulher. Mas quando “arranja” um “bom” namorado, tudo muda: “Seu trabalho, sempre ridicularizado, era agora uma coisa boa. O fato de ela não ter uma carreira, escreveu seu pai, significava que ela poderia focar completamente nos filhos quando eles viessem. Veja bem, ele continuou, ela tinha escolhido o homem perfeito para compensar suas fraquezas. Gentil ao contrário dela, econômico ao contrário dela. Bem-sucedido.”

Em O Futuro Parece Bom, Lesley traz à tona a violência contra a mulher, que, obrigada pela família a achar um “provedor”, abre mão de sua própria integridade. Aliás, nesses contos, a mulher é uma figura vulnerável que, abandonada pelo parceiro, não consegue muitas vezes reconstruir sua vida, precisando do auxílio da família, a qual a contragosto a abriga no seio de seu lar, como se lê no conto As Meninas da Buchi. Nessa antologia, são muitas as famílias constituídas apenas por mulheres. Outras minorias, como os imigrantes, também são protagonistas das histórias de Lesley. A propósito dos imigrantes, lembra uma protagonista, eles não podem violar a sua norma mais importante, que é viver “de forma simples e de acordo com as regras”.

Muitos dos contos são realistas; outros, contudo, são contos de ficção científica, e um deles, O Que É um Vulcão?, lembra uma fábula. Embora mude o gênero, a voz política da escritora nigeriana permanece a mesma. Em Quem Vai te Receber em Casa, a procriação não depende do sexo masculino, e os bebês, feitos pelas mulheres com materiais que elas têm em mãos, ganham vida depois de abençoados por uma “feiticeira”, que nada mais é do que a dona de um salão de beleza. Na África, ela sabia que era preciso construir uma criança com “corpo forte, que consiga limpar e arrastar e esfregar. Crianças macias com vidas duras enlouquecem ou morrem jovens”. Mas as ricas podiam se dar ao luxo de ter bebês de “porcelana, com um rosto liso e vidrado”.

O conto que dá título ao livro se passa num mundo em que A África e a Austrália sobreviveram a um desastre natural. Conhecemos a história de uma matemática que consegue remover o sofrimento das pessoas. As ciências exatas explicariam a tristeza e uma fórmula eficaz arrancaria das pessoas suas misérias. Mas o sofrimento ainda relativo e cabe ao matemático saber qual tem prioridade: pessoas com vida fácil “que já tinham passado por coisas complicadas, mas suportáveis” não podiam “comparar as suas escassas dificuldades com problemas incomensuráveis”.

Há uma série de palavras, de termos nigerianos, que embora possam ser entendidos no contexto, valeriam um pequeno glossário ao final do volume. Livro essencial, sensível, politicamente engajado. Um convite para um mergulho na ficção africana que ainda conhecemos tão pouco. 

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de 'Ascensão: Contos Dramáticos' (ed. Cultura e Barbárie) 

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