Revolução do prazer, fase dois

O barateamento amplia o acesso ao Viagra, mas para os de salários mais baixos ele ainda é extorsivo

JOSÉ DE SOUZA MARINS, DE O ESTADO DE S.PAULO

26 de junho de 2010 | 16h00

A redução do preço do Viagra em 50%, de R$ 30 cada comprimido para R$ 15, e do genérico para R$ 10, causou uma compreensível sensação, além de aumento nas vendas. Ela torna o medicamento acessível a um número maior de pessoas, com previsíveis repercussões em sua sexualidade. As pesquisas de custo de vida do Dieese permitem avaliar quanto de tentação erótica o comprimido barateado poderá despertar à luz das disponibilidades monetárias de quem vive de salário. O resultado não é muito animador. Segundo o Dieese, os assalariados ganham bem menos do que deveriam ganhar, mesmo nesta era de reinado proletário. Há três itens nos quais os gastos com o Viagra podem caber: despesas com saúde, despesas pessoais e despesas com recreação. Mas as disponibilidades nesses itens são pouco promissoras, reduzidas em face do preço de um único comprimido do medicamento que, até há uma semana, custava 6% do ganho de um assalariado de salário mínimo e que cai agora para 3% por uma única efeméride sexual (2% se for o genérico).

 

Tendo em conta a frequência média de relações do brasileiro, apurada em pesquisa recente do Hospital das Clínicas, o de menor salário que for carente do remédio terá que gastar mensalmente 15,7% do que ganha. O Viagra, portanto, continua quase tão extorsivo quanto o Imposto de Renda, embora com resultados melhores. Representa, ainda assim, um enorme avanço histórico em relação ao recurso que os índios tupinambá usavam, segundo relato de um senhor de engenho da Bahia, de 1587, que era o de provocar o entumescimento do pênis com os pelos de um bicho peçonhento, uma taturana, o desempenho sexual masculino conseguido à custa de dores e queimações.

 

É difícil prever qual o impacto desse ainda modesto acesso ao Viagra em nossa sexualidade. Ele surgiu como medicação para a ocorrência, ao que parece crescente, do que eufemisticamente é chamado de disfunção erétil. Os problemas orgânicos assim definidos, segundo os especialistas, são problemas reais e em relação a eles a maior acessibilidade do remédio representa um indiscutível ganho para os beneficiados. A mesma pesquisa mencionada indicou que acentuado número de casos dessa disfunção está relacionado com as tensões decorrentes do desemprego. O Viagra pode resolver os problemas orgânicos, embora não possa resolver os problemas sociais que produzem os distúrbios que seu uso corrige.

 

As relações sociais estão claramente presentes no surto do Viagra. A chamada impotência sexual começou a ganhar maior visibilidade justamente com o aparecimento e difusão da pílula anticoncepcional. A revolução sexual a partir do final dos anos 60 tinha muito a ver com a libertação da mulher de uma sexualidade contida e domada pelos temores da gravidez involuntária, o que representou uma verdadeira alforria do desejo em relação à reprodução. Muito do erotismo masculino, do machismo e dos poderes do homem era decorrente dessa sujeição da mulher e tinha muito a ver com a servidão feminina resumida no seu confinamento como dona de casa e mãe de família. A autonomia da gravidez e a contrapartida da emancipação do erotismo da mulher alteraram e vêm alterando profundamente a relação entre os sexos.

 

As queixas de impotência masculina aparentemente estão relacionadas com a maior disponibilidade da parceira para uma vida sexual ativa, a da mulher que de objeto se converteu em sujeito e protagonista ativa da sexualidade. Na liberdade da mulher, a ideologia do erotismo masculino encontrou o seu limite. Nesse sentido, o Viagra não é apenas um produto farmacêutico, mas também um produto ideológico compensatório para essa alteração radical numa sexualidade dominada pela ideologia da desigualdade de direitos e de competências na relação entre o homem e a mulher. Mas ainda estão fora do seu alcance aquelas multidões, mulheres e homens, ainda presas a práticas e concepções retrógradas da sexualidade como sexualidade de dominação em oposição à sexualidade de realização.

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