Rio 50 graus Os incríveis registros térmicos mostram quanto foi ignorada ao longo da história a preservação paisagística e ambiental da cidade

HELIO BRASIL

HELIO BRASIL CORRÊA DA SILVA É ARQUITETO , E AUTOR DE SÃO CRISTÓVÃO - MEMÓRIA , E ESPERANÇA (RELUME DUMARÁ), O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h08

Cantado em prosa e verso por suas belezas naturais e também dono de expressivo acervo arquitetônico, o Rio de Janeiro vive o constante conflito entre preservação e mudança, mobilizado por transformações físicas e sociais. Em alguns casos, defronta-se com a obsolescência, em outros, com alterações de uso; no mais das vezes, crises econômicas e interesses especulativos levaram seus espaços urbanos ao desaparecimento ou à ruína, com efeitos nocivos na paisagem e no seu microclima.

A terra carioca, na cansada expressão "espremida entre o mar e a montanha", contou com a disposição lusitana de aterrar muitos dos alagadiços originais e ganhar espaço em terra firme e plana, através de avanços sobre as águas da Baía de Guanabara. No período colonial, no Império e na República, o Rio, mantendo a tradição, viu colinas serem eliminadas para produzir grandes aterrados que redesenharam a orla e permitiram a expansão da cidade.

Algumas obras, mesmo cercadas de polêmica, trouxeram reais benefícios à urbe e foram incorporadas ao imaginário da população. Bom exemplo é a intervenção de Pereira Passos no alvorecer do século 20 criando a Avenida Central, que deu nova fisionomia ao centro.

Ao abordarmos a relação espaço/clima, destaca-se a eliminação, em 1922, do Morro do Castelo, colina histórica de refundação da cidade. Seu desmonte, sob justificativa higienista - a cidade ainda assolada por epidemias - foi conduzido pelo prefeito Carlos Sampaio e gerou a Esplanada, preservando-se o topônimo. O novo espaço, após abrigar a notável exposição comemorativa do Centenário da Independência, serviu à expansão do centro comercial, obedecendo, em parte, à proposta urbanística do francês Alfred Agache. Em certa medida, iniciava-se ali a verticalização do centro, fenômeno recorrente nas cidades no século 20. Saturava-se a infraestrutura urbana e, contraditoriamente, comprometia-se a ventilação saneadora.

O conhecido Aterro do Flamengo, feito na gestão de Carlos Lacerda (anos 1960), governador do jovem Estado da Guanabara criado sobre o ex-Distrito Federal, tornou-se marco do paisagismo carioca. Com o traço do arquiteto Affonso Eduardo Reidy e o paisagismo de Burle Marx, a área, em princípio, destinada às pistas de ligação da zona sul com o centro, ganhou um belo redesenho da orla da Baía de Guanabara e jardins que a amenizaram e embelezaram, integrando-a à cidade.

Ainda nos anos 1960, o urbanista Constantino Doxiadis, então chamado por Lacerda, além de propor novos eixos viários recomendou radicais derrubadas de áreas diagnosticadas como degradadas. Mesmo truncado o plano, prosseguiram as aberturas de túneis e multiplicaram-se as pistas elevadas, para vencer a difícil geografia carioca. O sentido de embelezamento esvaziou-se, substituído por um pragmatismo insípido que apagou marcos do passado histórico, ignorando a tradição e o meio ambiente. Os viadutos produziram tal hediondez na paisagem urbana que sua onerosa eliminação traz mais satisfação do que reservas quanto aos gastos.

O tardio Metropolitano, ainda incompleto, envolve mais polêmicas do que soluções, enquanto a melhor integração urbana de zonas em crescimento aguarda solução para o transporte.

As intervenções descritas tentavam atender ao inchaço populacional das cidades nos anos 1950 e 1960, do qual o Rio de Janeiro não escapou. O fenômeno corrompeu e arruinou os laços entre os habitantes e seus espaços, ruptura essa revelada nos monumentos depredados, nas pichações e saques conspurcando o meio urbano. Suas tradições e sua história foram ignoradas, seus espaços históricos, degradados. O desmazelo com o meio ambiente contaminou autoridades e brutalizou seus habitantes, tornando apática, com raras exceções, a população carioca. A violência é um incômodo registro diário.

A acentuada favelização nos últimos 60 anos é problema que as administrações enfrentaram de modos diversos, da truculência à ingênua tolerância. O saneamento naqueles assentamentos é precário, lesionando o meio ambiente. O programa de pacificação de favelas infectadas pelo crime é uma tentativa que os habitantes do Rio acompanham com ansiedade e esperança.

Não é de estranhar, pois, que o microclima de nossa cidade tenha se deteriorado. Os incríveis registros de sensações térmicas na marca dos 50º mostram quanto foi ignorada a preservação paisagística e ambiental, se lembrarmos que a cidade é cercada por maciços em parte reflorestados nos idos do Império sobre os arruinados cafezais das encostas tijucanas. No século 20, se as encostas sobreviveram foi graças ao apadrinhamento de Raymundo Castro e Maia. Há que preservá-las, e o poder público deveria agir com mais energia diante das invasões sofridas ferindo as encostas e comprometendo seus mananciais e sua sobrevivência. Nas áreas planas, intensamente ocupadas, o solo impermeabilizado favorece as enchentes nos períodos de chuva intensa. Uma legislação urbana mais atenta à ecologia e à história é esperada com ansiedade pelos habitantes do Rio.

A Cidade Maravilhosa acompanha as intervenções que prometem ofertar novos espaços de moradia e trabalho aos sempre otimistas cariocas. As transformações no Porto (Porto Maravilha), nos bairros da Saúde e Gamboa, a recuperação da Praça Mauá, de forte presença na história da Cidade, a preservação do entorno da Praça XV, o ex-Largo do Paço, fazem parte de um projeto ambicioso (não livre de polêmica) que poderá trazer espaços qualificados à população. As zonas objeto da intervenção têm significado histórico entranhado no antigo cais Pharoux, no Valongo, nos velhos armazéns e nos grandes galpões reaproveitados. As somas aplicadas, embora vultosas, poderão ter um retorno significativo, difícil de quantificar, porém sensível no bem-estar cotidiano dos habitantes. Devemos trabalhar com a esperança, embora ainda falte às autoridades a capacidade de convencimento e envolvimento dos habitantes da Cidade Maravilhosa.

Também é preciso que esses habitantes, cariocas natos ou aqui enraizados, acreditem que a excelência da vida urbana, espaço qualificado, paisagem e clima são bens a serem respeitados para que possam ser preservados. E que deles possam se orgulhar.

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