Rio: com magnífica vista para o mar

O Rio agora é Paisagem Cultural da Humanidade, mas a preservação de tal patrimônio passa pela educação e só será efetiva se a população e os visitantes tiverem consciência de quanto ele vale

O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h09

OLINIO COELHO

A Unesco elegeu, recentemente, o Rio de Janeiro como Paisagem Cultural da Humanidade. Incluindo, então, a natureza que envolve a cidade edificada - cercada pela Baía de Guanabara e pelo Oceano Atlântico. O mar e as montanhas integram-se com as construções em um espetáculo de beleza.

O processo de preservação desse patrimônio, tutelado por um órgão internacional, passa pela educação: a preservação só poderá ser efetivada caso a população carioca e seus visitantes tenham consciência do valor de seus bens culturais.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), criado em 1937, atuou na cidade com tombamentos de edificações. Mas não preservou sítios ou paisagens naturais. Apenas na década de 1960 a Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico, do então Estado da Guanabara, propôs ao Iphan, por serem áreas da União, o tombamento da Floresta da Tijuca - integrante do Parque Nacional da Tijuca e do Parque do Flamengo -, além do Parque Lage. Depois, diversos marcos paisagísticos em Jacarepaguá e na Barra da Tijuca - como a Pedra da Panela, valorizada no plano piloto de Lúcio Costa.

Esse título da Unesco vem coroar as iniciativas do Rio de Janeiro para preservar sua paisagem cultural, que contrasta a natureza com a ação humana.

O conceito "paisagem cultural" reflete perfeitamente a capital fluminense. O Parque Nacional da Tijuca desce às ruas ao norte e encontra o mar ao sul, através do Parque Lage - tombado em 1965 pelo Estado da Guanabara - e do Jardim Botânico - tombado pelo Iphan em 1938.

A classificação do Rio de Janeiro como monumento da humanidade gera responsabilidades para os entes públicos encarregados da preservação do patrimônio. Maiores investimentos deverão ser feitos a fim de contemplar a restauração e a revitalização desses sítios nomeados, bem como a divulgação de sua importância, através de processos educacionais.

O título deve incentivar o desenvolvimento cultural da cidade, aliando os projetos urbanísticos a serem implantados aos sítios protegidos e não à estagnação do Rio. Tudo isso provocará maior afluência de visitantes à cidade, locais ou estrangeiros. O que leva à necessidade crescente de proteger sua integridade: o turismo é fator de destruição e poluição de sítios naturais e precisa de controle adequado.

O Rio passa por diversas transformações urbanas: abertura de túneis, demolição de viadutos, criação de vias especiais de tráfego, implantação de conjuntos arquitetônicos residenciais e comerciais. Tais projetos devem ser integrados aos sítios paisagísticos preservados, agora em nível internacional. É imprescindível que as renovações sejam conduzidas de forma a coexistir com a "cidade de ontem".

Há excepcionais paisagens cariocas que não estão arroladas na decisão da Unesco, porém são tombadas pelo município e poderiam estar. A zona oeste da cidade é contemplada com monumentos naturais que precisam ser integrados à imagem total de Rio de Janeiro "patrimônio mundial".

A Pedra de Itapuã e a Pedra da Panela foram tombadas em 1968 e 1969, respectivamente, pelo Estado da Guanabara. Desde 1975, a Pedra de Itaúna e os Morros do Urubu e do Rangel já integram o patrimônio da cidade. Em 1983, os Morros Dois Irmãos, Cantagalo, Amorim e Portela, o Pontal de Sernambetiba e a Pedra da Baleia têm seu tombamento decretado. Em 1991, as Serras da Madureira, do Mendanha e o Parque Estadual da Pedra Branca completam o elenco. Isso demonstra o cuidado do povo pela preservação de seu patrimônio.

Competirá aos órgãos públicos - em seus três níveis de atuação - a tutela desses bens. E como buscar recursos nos orçamentos públicos? A resposta está na criação de um dispositivo legal para que pessoas físicas e jurídicas possam participar através de incentivos fiscais. Hoje isso é feito pela Lei Rouanet, que permite a doação de recursos para a restauração do patrimônio edificado. É imperativo criar uma lei que permita também a participação de patrocinadores privados na restauração e revitalização de sítios paisagísticos preservados.

A cidade de Estácio cresceu.

Desordenadamente...

Mas é possível conviver com sua arquitetura pretérita, respeitar o perfil de suas montanhas, o recorte de suas praias, a imponência de suas pedras, o desenho de suas ruas. O Rio de tantos janeiros guarda ainda significativa parcela da produção cultural que marca o potencial criativo da gente carioca.

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