DAVE MARTIN/AP
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Rito de iniciação

Futebol americano lembra o poder: homens se arrebentando, culto à competitividade e jovens privilegiados achando que tudo podem

Kenneth Serbin, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2014 | 16h00

Ano passado, num voo para o Rio, conheci um brasileiro com o tronco avantajado de jogador de futebol americano. De fato, ele estava jogando por uma universidade americana. Contou-me que o interesse pelo jogo vem crescendo no Brasil.

Assim como o futebol define o Brasil de muitas maneiras, o futebol americano nos diz muito sobre a cultura americana. O esporte ocupou o palco central como um exercício de combate ritual e tribalismo baseado em torcedores. O ritual é encenado por todo o país em milhares de jogos colegiais em noites de sexta-feira, com frequência acompanhados por animadoras de torcida, música e a chance de paquerar, comer um cachorro-quente ou apenas se divertir. O início da temporada, em setembro, coincide com o fim do verão (no Hemisfério Norte) e o início de um novo ano acadêmico.

Aos sábados, experiência similar ocorre em grandes estádios universitários. Para muitos jovens, os jogos oferecem a ocasião para beber. Não por acaso, os fabricantes de cerveja anunciam pesadamente nas transmissões dos jogos de futebol americano pela TV. Nos jogos profissionais, a experiência quase religiosa do americano de se sentar diante do televisor nas tardes de domingo para torcer por seu time está profundamente entranhada na sociedade.

Fundada em 1920, a Liga Nacional de Futebol (NFL, em inglês), associação de times profissionais, nunca teve tanta popularidade. Nos anos 1970, introduziu-se um jogo nas noites de segunda-feira e, alguns anos atrás, outro nas noites de quinta. Uma TV por assinatura dá acesso aos 16 jogos semanais; a NFL tem o próprio canal, que funciona ininterruptamente.

O futebol americano profissional é um negócio multibilionário que faz lobby pesado por privilégios públicos, especialmente em nível local, onde políticos e eleitores frequentemente pagam a conta por estádios cada vez mais luxuosos. A NFL é profundamente interligada às universidades, e essas, por sua vez, têm forte influência sobre as escolas secundárias. Assim, muitos americanos acreditam que a NFL tenha uma responsabilidade civil.

Mas uma objeção cultural parece estar se formando contra o futebol americano como esporte e contra a NFL em particular, possivelmente com sérias consequências no longo prazo para a lucratividade dos jogos e a maneira como as pessoas os percebem. Após cerca de 4.500 ex-jogadores e suas famílias terem movido ações contra a NFL alegando que ela havia ocultado a conexão entre futebol e concussões, em agosto de 2013 a liga fez um acerto extrajudicial e concordou em pagar US$ 765 milhões a jogadores como compensação por seus problemas de saúde.

Evidências crescentes sugerem que as concussões típicas do futebol americano causam encefalopatia traumática crônica (ETC), uma doença cerebral detectada inicialmente em boxeadores que tem sintomas similares aos de condições neurológicas como as doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington.

Uma das principais famílias queixosas é a do ex-astro Junior Seau, que cometeu suicídio em 2012, aos 43 anos. A autópsia revelou que ele tinha ETC. Seu comportamento incluía depressão, mudanças violentas de ânimo, esquecimento, irracionalidade e insônia - sintomas notados em outros jogadores com lesões cerebrais. Alguns queixosos argumentam que o acordo proposto é insuficiente para cobrir suas despesas de saúde.

Em 3 de setembro, às vésperas da abertura da temporada da NFL de 2014, a família de Seau anunciou que havia rejeitado o acordo e iria prosseguir com o processo por morte por negligência, que poderá incluir julgamento público. “Querem saber o que aconteceu com o pai”, disse o advogado da família. “O acordo não tem essa preocupação. Nenhum depoimento foi tomado. Nenhum documento foi produzido.” Nesta sexta, dia 12, a NFL e os advogados dos ex-jogadores revelaram documentos da justiça federal demonstrando que a liga calcula que um terço dos ex-atletas terá problemas cognitivos muito mais cedo do que esse transtorno afeta a população em geral. No dia 8, outra bomba atingiu a liga, colocando em questão sua transparência e seu relacionamento com os jogadores: um site de notícias exibiu um vídeo mostrando Ray Rice, astro do time campeão da NFL, Baltimore Ravens, nocauteando sua então noiva com um soco num elevador de cassino.

Nesse e noutro vídeo, Rice é visto arrastando Janay Palmer inconsciente para fora do elevador. Um segurança perguntou se Janay estava embriagada e acrescentou que não chamaria a polícia. Rice não respondeu (a dupla está casada agora). A NFL sabia do incidente, mas havia suspendido Rice por apenas dois jogos. Após a divulgação do vídeo chocante os Ravens demitiram Rice, que deve perder milhões de dólares em salário e publicidade. A liga suspendeu o atleta por tempo indeterminado, mas não descartou a possibilidade de sua volta.

O incidente com Rice provocou uma torrente de críticas contra a NFL e também contra as autoridades por não processarem o jogador por um crime evidente. Grupos de defesa de direitos das mulheres e contra abusos domésticos ficaram particularmente irados com a insensibilidade do establishment do futebol americano. A notícia coincide com tentativas de universidades americanas de combater os ataques sexuais generalizados contra alunas. As mulheres ficaram mais vulneráveis nos câmpus por uma perigosa mistura de masculinidade exagerada, álcool e futebol.

O futebol americano tem a ver, em última instância, com poder: homens arrebentando a cabeça sem se preocupar com a saúde, dependência de uma cultura corporativa do esporte como símbolo de competitividade e criação de uma classe de jovens privilegiados que acham que podem ferir outros com impunidade. 

O Brasil faz bem em se aferrar ao jogo bonito. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Kenneth Serbin é professor de História na Universidade de San Diego. Em 2011, foi Pessoa do Ano da Huntington's Disease Society of America

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