Companhia das Letras
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Roberto Bolaño imagina escritores nazistas na América em livro

Vinte anos atrás, autor alertava sobre o estranho fascínio que o fascismo exerce sobre a literatura do continente

Ronaldo Bressane*, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2019 | 16h00

Um policial brasileiro sonha com a glória no romance noir enquanto participa de um grupo de extermínio. Nos EUA, um autor de ficção-científica que detesta hispânicos cria uma cosmogonia ariana. Outro escritor de ficção científica, guatemalteco, sonha ser alemão. Um milionário bogotano guarda poemas espiritualistas sob o uniforme, num front europeu, lutando ao lado das SS. Uma poeta mística mexicana louva o fascismo e gosta de ser espancada. Um cubano antissemita e homofóbico funda uma seita de poetas homicidas. Um poeta haitiano plagia poetas caribenhos para propagandear os benefícios da eugenia e do racismo. Um venezuelano declama, em sua motocicleta, uma conversa com Göering no inferno. Uma sofisticada agitadora cultural argentina faz amizade com Adolf Hitler. Suspeito de coordenar sessões de tortura, um militar chileno anota enigmáticos poemas com a fumaça de seu avião, um caça Messerschmitt da 2.ª Guerra, nos céus de Santiago. 

Eis alguns personagens do inquietante Literatura Nazista na América (Cia das Letras, trad. Rosa Freire D’Aguiar, 240 págs), de Roberto Bolaño. Um espectro ronda este bestiário, como cada linha que escreveu: o espectro do totalitarismo. O grande tema de Bolaño é o enlace indissolúvel entre vida e literatura, é certo; mas são as sombras do autoritarismo, da opressão e da violência que pairam sobre suas obras, como ameaça, advertência ou única realidade possível. Afinal, a América é um contínuo enredo de roubos, estupros e assassinatos.

Ateu e anarquista, um autor político que não militava em nenhuma igreja partidária, chileno nascido em Santiago, que viveu a juventude na Cidade do México e passou a morar na Espanha aos 24 anos, Bolaño só chamaria a atenção de crítica e público em 1996, justamente com este Literatura Nazista na América. Venceu prêmios importantes com seu já clássico Os Detetives Selvagens e morreu precocemente aos 50, em 2003, deixando vários livros inéditos. De lá pra cá, impactou não só a literatura hispânica como toda literatura pós-moderna. Mas se considerava um latino-americano, e é da perspectiva do “colonizado” que trata o nazismo, tema muito caro (central no último romance, a obra-prima 2666). 

Aqui, a forma é enciclopédica: Bolãno traça verbetes de 31 escritores fictícios nascidos em vários países americanos, criando um mosaico de textos que citam outros textos. Assim, a escrita é fria, distante; sua intertextualidade gera um tom irônico e exige um leitor ativo. Usando o registro do ensaio, ele descreve, analisa e critica suas obras, inventariando toda uma nova bibliografia enquanto elabora hipóteses teóricas e biográficas sobre cada criação, usando como apoio escritores e obras reais. Sua oceânica erudição tem efeito vertiginoso e induz à paranoia – como Bolaño cartografa todo um sistema literário com raízes no verdadeiro cânone, temos a sensação de habitar uma realidade paralela onde desconhecíamos a realidade “real”.

Sim, a sensação é esta: os escritores nazistas estão entre nós. Nem sempre discretos ou silenciosos, moram bem perto dos homens. São fofos, escrevem ensaios na imprensa, participam de listas de best-sellers e de redes sociais, influenciam pessoas e governos, fumam charutos e comem pão com leite condensado, têm dívidas, filhos, armas, obsessões e temem a Deus. É então que, nesta época de crescentes fundamentalismos, nacionalismos e outros ismos que sempre cismam em fascismo, notamos a atualidade deste bestiário. Pois, experimentais ou mainstream, quase todos de trajetória trepidante, famosos ou obscuros, todos mortos – e mortes cruéis lhes são comuns –, tais escritores nazistas buscaram ou encontraram, em algum momento de suas vidas, de modo épico ou banal, o Mal em estado puro. E levaram sua ideologia de morte para o interior de sua literatura, como propaganda, assunto ou técnica.

Para nós brasileiros, o caso mais intrigante é o de Amado Couto, que nasceu em Juiz de Fora como seu ídolo, Rubem Fonseca, mas em 1948, tendo morrido em um hotel de Paris, em 1989. (Quando o autor de Feliz Ano Novo saiu em 2009 da Companhia das Letras, editora que à época já publicava Bolaño, murmurou-se no mercado que o motivo era o fato de o escritor implicar com a publicação deste livro, por mencionar seu nome de modo meio esquisito. Bobagem: o motivo era, sabe-se, o de sempre – uma proposta mais vantajosa, que levou o autor mineiro-carioca à Ediouro, onde publica até hoje.)

O verbete sobre o cadavérico Amado Couto nada informa de desairoso sobre Fonseca. Pelo contrário: “Era necessário vanguarda, letras experimentais, dinamite, mas não como os irmãos Campos, uma dupla de professoraços desnatados, nem como Osman Lins, que ele achava francamente ilegível, e sim algo moderno, um continuador de Rubem Fonseca (...). Uma vez tentou ver Fonseca. Segundo Couto, olharam-se. Como ele está velho, pensou, já não é Mandrake nem é ninguém, mas teria trocado de identidade com ele, mesmo se fosse só por uma semana. Também pensou que o olhar de Fonseca era mais duro do que o seu. Eu vivo entre piranhas, mas don Rubem Fonseca vive num aquário de tubarões metafísicos.” O fantasmagórico verbete relata que Couto escreveu dois romances noir enquanto participava do Esquadrão da Morte, a milícia paramilitar nascida na ditadura nos anos 60, que perseguia, sequestrava e eliminava supostos criminosos – entre eles, jornalistas, intelectuais e ativistas políticos. (Sabe-se que, cultor da polifonia, Bolaño admirava o Osman Lins de Avalovara.) 

Mais que ser conhecido por um estilo, Bolaño se interessava pela estrutura narrativa. Daí a originalidade radical de Literatura Nazista. Um dos grandes nortes de Bolaño sempre foi como Jorge Luis Borges dissolvia tramas narrativas no registro do ensaio. Um dos primeiros livros de Borges, A História Universal da Infâmia, foi seu modelo: nele, o autor argentino elenca as vidas de notórios bandidos, de Billy The Kid à Viúva Pirata Ching, descritos de modo jornalístico. Por sua vez, o modelo de Borges foram as Vidas Imaginárias do suíço Marcel Schwob, que perfila gente como o pintor Paolo Uccello, a princesa Pocahontas ou o pirata Capitão Kid. Schwob narrava no fio entre fato e arfetato, entre realidade e ficção, e para seu compêndio de perfis também usou um modelo – Vida e Obra de Filósofos Célebres, do grego Diógenes Laércio. Uma linhagem literária tecida em literaturas. Pegando o mote de Borges – “pra que só contar uma história, se posso resenhá-la em um livro inexistente?” –, Bolaño o glosa com um “pra que só resenhar livros inexistentes, se posso criar as histórias de seus autores?”.

No redemoinho de fatos e ficções, entre narrativa e ensaio, entrelaçando bibliografias verdadeiras e imaginárias, Bolaño deu um passo além ao criar toda uma constelação de vidas que não são reais, mas poderiam ter sido. Fugindo ao tom sóbrio, mais perto do romance policial que do ensaio, o mais assustador dentre tais verbetes é o último. Nele, conta-se a vida do silencioso Ramírez Hoffman: aluno de uma oficina de poesia, envolve-se com duas colegas gêmeas, demonstra raro talento. Mais tarde ressurge em plena ditadura como um piloto intrépido que escreve poemas no céu: “A morte é amizade/ a morte é o Chile/ a morte é amor/ a morte é comunhão/ a morte é limpeza/ a morte é meu coração/ pegue meu coração”. 

Um assassino que escreve poemas no ar é uma metáfora malabarística que me escapa – mas Hoffman ainda organiza uma exposição fotográfica em que imagens indescritíveis aterrorizam os espectadores, tornando-o mais misterioso e sinistro. “Sua passagem pela literatura deixa um rastro de sangue e várias perguntas feitas por um mudo.” Então aparece um narrador na primeira pessoa – um rival pelo amor das gêmeas, outro participante da oficina literária que, depois, contatado por um detetive, delata Hoffman: trata-se do próprio Bolaño, acrescentando a camada da autoficção ao seu quebra-cabeças. (Anos depois, tal verbete será amplificado por Bolaño em seu romance mais exato, Estrela Distante.)

Enquanto lemos Literatura Nazista percebemos, aos poucos, como este livro é mais uma peça no quebra-cabeças bolañesco: o romance em rede. Como em um cristal, cada face da obra de Bolaño contém o todo, mas o todo, como o Mal, nunca pode ser visto. A única parte que sempre vemos é o espectro do Mal, uma palavra escrita pelo homem nos céus.

*Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor do romance 'Escalpo' (Reformatório), entre outros livros

 

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