Giorgio Magister/Adelphi Edizione
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Roberto Calasso analisa o fanatismo e o secularismo na modernidade

Ensaísta italiano parte do terrorismo islâmico para compreender o mundo ocidental

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

04 de abril de 2020 | 16h00

Se eu pudesse (ou, e o que talvez seja mais dúbio: se eu quisesse) dar um conselho, diria: corram a ler O Inominável Atual, de Roberto Calasso. Sim, chispem! Talvez assim a gente falasse menos abobrinha, e víssemos o mundo contemporâneo com mais nitidez. O que, nesta altura do campeonato, já está bom demais da conta. 

Trata-se de um ensaio na forma mais pura, por isso convém pôr os pingos nos is. Na história da literatura, passou um tempão até que os autores – tolhidos pelas convenções clássicas - dessem o ar da sua graça no que escreviam. Daí o paradoxo de Oscar Wilde: “Ser natural é apenas uma pose”. 

Até que um francês renascentista, Michel de Montaigne, chutou o balde e intitulou sua obra “Ensaios”. Já no prefácio ele alertava: “Sou eu próprio a substância do meu livro, e isso não é razão para que o leitor empregue seu ócio com um assunto tão frívolo e vão.” O formato pegou, virando um dos gêneros mais populares de não-ficção. A palavra ensaio deriva do francês “essayer”, tentar ou experimentar. Corresponde a uma espécie de coringa conceitual, como notou Aldous Huxley: “Serve para dizer quase tudo sobre quase tudo.” 

Calasso tem 79 anos e nasceu em Florença, numa estirpe apinhada de massa cinzenta: o avô dele rachou uma editora com Benedetto Croce, e o pai foi reitor da Universidade de Roma (foi também quase morto por milícias fascistas na República de Saló, acusado do assassinato do filósofo Giovanni Gentile). 

Desde 1962 Calasso bate ponto na editora Adelphi, a mais fina editora italiana, da qual é presidente. Disse que a Adelphi foi fundada para que as 3 mil páginas finais de Nietzsche, até então disponíveis apenas nas versões espúrias da irmã nazista do filósofo alemão, fossem publicadas intactas. Hoje também edita os livros da grande Fleur Jaeggy – sua mulher, ainda inédita no Brasil. 

Calasso rejeita a especialização acadêmica do conhecimento murado em baias. Embora arrase em história, filosofia, artes e antropologia (e, além de italiano, seja fluente em inglês, espanhol, alemão, latim, grego antigo e sânscrito), não é um filósofo, mas um contador de casos – intuindo que as ideias são assimiladas melhor sob a forma de personagens. 

Daí que as obras dele fervilhem de protagonistas apaixonantes. Estreou com La Rovina di Kasch, um dos livros de cabeceira de Italo Calvino, analisando o nacionalismo e o totalitarismo a partir do estadista francês Tailleyrand. Depois vieram As Núpcias de Cadmo e Harmonia (sobre o mítico criador do alfabeto grego, cujo casamento foi a última vez em que deuses e homens se sentaram juntos para festejar), K. (sobre Kafka, talvez a especialidade da casa) e La Follie Baudelaire (sobre a Paris no final do século 19), entre outros. 

O Inominável Atual é um ensaio típico do autor, com uma estrutura – mais do que elíptica – obliqua, pegando o leitor de calça curta: depois de espinafrar o fanatismo místico, apostamos o pescoço que enaltecerá o racionalismo secular, só para cairmos do cavalo. 

O que é o inominável? “Entre 1933 e 1945, o mundo realizou uma tentativa de autoaniquilação, em parte bem-sucedida. O que veio depois era amorfo, grosseiro e poderoso. No novo milênio, é amorfo, grosseiro e cada vez mais poderoso. Mesmo para os cientistas, é um mundo fragmentado. Não tem estilo próprio e lança mão de todos.. Este é o mundo normal.”

A segunda parte do livro é um mosaico sobre ascensão e queda do nazismo, através de citações de escritores como Robert Brasilach, Céline, Ernst Junger, Roger Martin du Gard, Henri de Montherland, etc.. A mais arrepiante - literal e simbolicamente - é de Walter Benjamin, em 1939: “A Sociedade Vienense do Gás suspendeu o fornecimento de gás aos judeus. O consumo de gás por parte da população judaica trazia prejuízos, porque, mesmo sendo os maiores consumidores, não pagam as contas. Os judeus usam o gás preferencialmente para o suicídio.” Um ano depois, em Marselha, Arthur Koestler perguntará a Benjamin: “Se tudo der errado, você tem alguma coisa para tomar?” Ele tinha, e tomou.

Na primeira parte, temos o fundamentalismo religioso, que Calasso examina sob o terrorismo islâmico. “Que é sacrificial: em sua forma perfeita, é a vítima que pratica o atentado.” O autor invoca a seita medieval do “Velho da Montanha”, e lembra que, segundo Marco Polo, a palavra “assassino” vem de “fumador de haxixe”. Cita também Rumiyahi, a revista online do Estado Islâmico, com sua lista de possíveis alvos “infiéis”: ““O homem de negócios que vai ao trabalho de táxi, os adolescente que se exercitam no parque, o velho na fila para comprar um lanche. Não só: derramar o sangue do vendedor ambulante que vende flores aos passantes também é louvável”. No fundo, o inimigo é sempre o mesmo: o mundo secular, de preferência em suas formas coletivas – espetáculos, museus, bares, turismo, lojas, transportes.

Muita calma nessa hora: não que o mundo secular contemporâneo seja flor que se cheire. “Ao contrário do ‘homem védico’, que nasceu com quatro fardos – os deuses, os reis, os ancestrais e a humanidade em geral -, o ‘homo secularis’ não deve nada a ninguém. Ele está sozinho, e não existe nada além do que ele faz.” Avatares literários desse espectro vertebrado são “o homem do subsolo” (Dostoievsky), Bartleby (Melville) e “o homem sem qualidades” (Musil). 

Séculos a fio, os teólogos esmiúçam a questão: “Se Deus existe, de onde vem o mal?” O buraco talvez seja mais embaixo, na cutucada de Leibiniz: “Se Deus não existe, de onde vem o bem?” Para Calasso, o profeta do secularismo é o inglês Jeremy Bentham, pai do Utilitarismo. E uma espécie de contra-profeta seria a pensadora francesa Simone Veil (a quem só não perdoo ter morrido de fome de propósito).

A apoteose do secularismo são, segundo o autor, a Inteligência Artificial e os algoritmos. Stuart Russel, o arauto da I.A., agora amarela ao pensar no futuro próximo, quando os robôs considerarem os humanos descartáveis. E conta o caso de certos gorilas, que um dia geraram o homem “e depois descobriram que eles mesmos continuavam gorilas.”

E a revolução digital? “O saber assume a forma de uma única enciclopédia em perene expansão, que justapõe informações verídicas e infundadas, ambas acessíveis e no mesmo plano. Todos se viram capazes de produzir, sem nenhum vínculo, palavras e imagens divulgáveis por toda parte, para um público ilimitado. Foi o que bastou para criar um delírio de onipotência difuso, mas não mais como fenômeno clínico. Pelo contrário, como enriquecimento da normalidade. A mitomania passou a fazer parte do bom senso.” É aquilo que se chama de “Dataísmo” – tudo é informação, mesmo a pós-verdade. 

Calasso expõe a contrição de Yuval Harari, o evangelista eletrônico. Para o humanismo, as experiências ocorrem dentro de nós e devemos encontrar em nosso interior o significado de tudo, impregnando o Universo de sentido. Mas “os dataístas acreditam que experiências não têm valor se não forem compartilhadas e que não precisamos — na verdade não podemos — encontrar significado em nosso interior. Só precisamos conectar nossa experiência ao grande fluxo de dados, e os algoritmos vão descobrir seu significado e nos dizer o que fazer”. E é aqui que Harari agora joga água no chope: “Talvez descubramos, afinal, que organismos não são algoritmos.”

Mas sempre pode piorar: “No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século 21, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante”. Já vimos esse filme? Pois talvez ele se torne uma reprise infinita. E o único antídoto poderá soar desconcertante: “Atualmente, ter poder significa saber o que ignorar.” Portanto, acrescento eu, o bom e velho Sócrates teve sempre razão: “Só sei que nada sei.”

O Inominável Atual

Autor: Roberto Calasso

Tradução: Federico Carotti

Editora: Companhia das Letras

184 páginas

R$ 89,90

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é Um Lugar Comum' (Intermeios)

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