DAVID TURNLEY/CORBIS
DAVID TURNLEY/CORBIS

Roger Scruton lança romance sobre a Checoslováquia e novo livro de filosofia

'As Memórias do Underground' se passa na Praga comunista e 'Conservadorismo: Um Convite à Grande Tradição' retraça seus ancestrais intelectuais

Eduardo Wolf*, Especial para o Estado

03 de agosto de 2019 | 16h00

O leitor que dedicar algumas horas ao agradável e instrutivo Conservadorismo – um convite à grande tradição (Editora Record), do filósofo britânico Roger Scruton, corre o risco de se espantar com a visão do autor acerca do tema que dá título à obra. Nada há de polêmico, importa dizer, no livro do pensador de 76 anos que desde há muito se empenha em articular filosoficamente uma visão do conservadorismo como modo de vida e como visão política. Qual seria a razão do espanto, então? 

Na abertura do segundo capítulo, “O nascimento do conservadorismo político”, após ter exposto o modo como filósofos como John Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755) e David Hume (1711-1776) criaram o chão conceitual em que surgiria nossa moderna compreensão do governo representativo constitucional e, nesse sentido, da própria tradição a que chamamos de liberalismo político, Scruton escreve que “o conservadorismo surgiu mais como hesitação no interior do liberalismo que como doutrina e filosofia em si”. 

Nesta obra erudita, acessível e aberta a variadas vertentes do pensamento político moderno, Roger Scruton constrói a genealogia do pensamento conservador desde sua pré-história – de Richard Hooker (1530 – 1600) a Samuel Johnson (1709 – 1784), passando pelos já citados Locke e Hume – até os dias atuais; gradativamente estabelece a consolidação da moderna política de soberania popular (os primórdios da democracia moderna) com seus contornos de governo limitado, instituições representativas e separação dos poderes e garantia dos direitos individuais – pontos sobre os quais liberais e conservadores concordavam. Nas palavras de Scruton, “a fronteira entre a posição liberal e conservadora se tornou uma fronteira interna ao domínio da soberania popular, e entenderemos o conservadorismo moderno como movimento político apenas se percebermos que alguns elementos de individualismo liberal foram programados nele desde o início”. Que choque para o leitor brasileiro, habituado que está a ver liberalismo e conservadorismo como posições irreconciliáveis – apesar da lição histórica e conceitual de Scruton ser moeda corrente aos estudiosos do tema no mundo anglófono, podendo mesmo ser encontrada em bons livros de referência disponíveis até no Brasil, como o Liberalismo de José Guilherme Merquior. 

Do nascimento do conservadorismo político moderno com Edmund Burke (1729-1797) às críticas ao racionalismo político e ao dirigismo estatal – quer em sua versão moderada anglo-americana, quer em sua visão totalitária nos países comunistas – que encontraremos em autores como Michael Oakeshott (1901-1990) e Friederich Hayek (1899-1992), respectivamente, a análise de Scruton demonstra cuidadosamente as aproximações inerentes a ambas as posições políticas, liberalismo e conservadorismo, com o mesmo rigor e cuidado com o qual determina seus limites: “o conservadorismo defende a liberdade, sim. Mas também as instituições e atitudes que moldam o cidadão responsável e asseguram que essa liberdade seja benéfica para todos”. Daí a defesa de limites à liberdade, em divergência com o liberalismo em certas acepções.

Mas há outra razão para um possível espanto do leitor: a proeminência que a tradição de um conservadorismo cultural, mais dedicado à preservação na esfera simbólica valorativa e espiritual da cultura e da criação artística de um legado que é mais que mera tradição, erigindo-se em visão mesma da condição humana. Daí a importância que ensaístas como John Ruskin (1819 – 1900), cujo bicentenário se celebra este ano, ou de um poeta como T. S. Eliot (1888 – 1965). 

Essa proeminência ajuda o leitor brasileiro, aliás, a compreender também outro excelente lançamento de Roger Scruton no Brasil. Trata-se do romance As Memórias de Underground, parte da coleção “Ficções Filosóficas” da É Realizações Editora. Ambientado na Praga dos anos 1980 – que Roger Scruton conheceu e frequentou na condição de intelectual apoiador dos dissidentes do regime comunista que dominava países do Leste –, o romance traz as evocações de Jan Reichl, já agora vivendo nos Estados Unidos e recordando-se de episódios passados décadas antes, focando sobretudo seu envolvimento amoroso com a jovem Betka e com o novo mundo dos dissidentes, o underground. Jan, autor de samizdat (obras clandestinas publicadas fora do alcance da censura comunista) que se torna célebre como autor de Rumores, assinado como Soudruh Andros, o Camarada Underground, é quem conduz o leitor por esses caminhos subterrâneos não apenas da clandestinidade política, mas também das emoções humanas.

É este “Underground” que lhe vai no nom de plume que dá título ao livro, compondo uma escala quase melódica de referências estéticas e existenciais no romance: a brutal condição daqueles a quem coube viver sob o totalitarismo comunista; a vida possível de Jan, oculto de autoridades no metrô e no ambiente clandestino; os ecos de Dostoiévski, que vão no título. No coração dessa melodia, no entanto, está uma recorrente preocupação filosófica de Scruton: o reconhecimento do outro, deste ser humano diante de nós, e em nosso entorno, e que precisa ser reconhecido para além de toda máscara social, de toda despersonalização, e visto em sua profunda e autêntica individualidade. 

Longe de ser um romance político de denúncia da sociedade totalitária comunista, os horrores da vida sob regimes opressivos ganham vida literária a título pleno e, mais que isso, encenam uma reflexão filosófica vital para Roger Scruton, uma que o leitor poderá encontrar em títulos como O Rosto de Deus. 

Espanto há de ocorrer, claro, especialmente para o leitor que não seja próximo desta linhagem britânica do conservadorismo, na qual frequentemente os objetos sobre os quais recai o dever da conservação são estéticos e éticos, antes que políticos. Aos que estão familiarizados com os quase cinco séculos de história dessa tradição, aí inclusos seus monumentos literários e artísticos, não haverá espanto; antes, apenas o prazer da contemplação mais larga de uma paisagem moral, estética e política já familiar – tão ao gosto do conservadorismo.

*EDUARDO WOLF É DOUTOR EM FILOSOFIA PELA USP E PROFESSOR DO LABORATÓRIO DE POLÍTICA, MÍDIA E COMPORTAMENTO DA PUC-SP/FUNDASP. É EDITOR DO ‘ESTADO DA ARTE’

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