Rogério Cênico

'Por que ele decidiu construir essa imagem pétrea, ferozmente antipática, megalomaníaca, do sou mais eu?', pergunta escritor

Ignácio de Loyola Brandão

20 de outubro de 2013 | 03h17

Em um jogo contra o Corinthians, semana passada, cujos três pontos seriam importantes, Rogério Ceni perdeu um pênalti, e o time ficou no empate. Aliás, não é o primeiro que perde nos últimos meses, mas ele insiste: o direito de bater pênalti é dele, o dono do time, o líder, o comandante. Na quarta-feira, contra o Náutico, ele cometeu a façanha de dar um chapéu num adversário e a torcida delirou. Para mim, dar chapéu em jogador do Náutico, último colocado, é chutar cachorro morto. Já tivemos na história vários jogadores míticos como o "louco" Heleno, o desvairado Almir, o irreverente Romário, o insano César Maluco. No entanto, todos compunham personagens amados pelas torcidas pelo humor, doideira, gozação, insensatez, imprudência. Rogério não é imprudente, louco, desatinado. Ao contrário, é sisudo, comportado. Em Araraquara, diriam sem sal.

Rogério é a bola da vez na questão ódio-amor em futebol. Quando torcemos, somos irracionais, porque somos humanos. Porém, com o goleiro do São Paulo - um ótimo goleiro, reconheço -, por que a coisa muda de figura? Porque ele se assumiu como entidade. Muitas vezes se refere a ele mesmo na terceira pessoa, como o Pelé. Uma entidade precisa manter a compostura. Mesmo parte da torcida são-paulina acredita que está na hora de ele pendurar as chuteiras e se transformar em cartola, porque, é o que ouvi e já vi escrito pela crônica esportiva, Rogério tem a alma do cartola.

Ele que procure o que quer ser. O que eu gostaria de investigar, psicanaliticamente, é por que Rogério decidiu construir essa imagem pétrea, ferozmente antipática, megalomaníaca, do sou mais eu, o craque (e é, reconheço de novo, mas por que reconheço com raiva?). A cara é fechada, poucas vezes explode num riso que o coloca em sintonia com a plateia. Sim, vez ou outra, quando faz um gol de falta, os dentes se mostram em alegria incontida. Porém a marca do Rogério é a severidade. Será que ele gosta de bater pênaltis e faltas para destruir o goleiro adversário? Será que faz o que faz para mostrar: "Sou bom no gol e na linha"?

Busco em mim as razões desse sentimento nada agradável. Não sou são-paulino, ainda que tenha escrito a história do clube para a editora DBA. Uma questão emocional me levou a isso. Quando na minha infância inauguraram o Estádio Municipal de Araraquara, meu pai me levou. Foi o primeiro jogo de minha vida. Em campo, o São Paulo Futebol Clube contra não lembro qual time. Fiquei entusiasmado, porque no meu álbum de figurinhas havia uma carimbada: a do King, goleiro do São Paulo. Vendida no câmbio negro, inacessível para mim, filho de ferroviário. Levei anos para descobrir que o King vinha de King Kong pelo tamanho do negão que fechava o gol. Ele me assombrou com pontes, saltos elásticos, voava de uma trave à outra. A cada defesa espetacular o público urrava de alegria. Aquilo ficou na minha cabeça. O goleiro.

Quando cheguei a São Paulo, o goleiro do clube era o argentino Poy, meio mito, que dava entrevistas engraçadas pelo sotaque. Nos anos 1970 para 80, havia o Waldir Peres, meu vizinho nas Perdizes, que eu via sempre jogando na lotérica da Rua Monte Alegre. Um goleiro alegre, que uma vez fascinou a torcida na Rua Javari ao fazer quatro defesas seguidas, no bate e rebate, com as mãos, os pés e a cabeça. Ele ria, e saltava de prazer ao sentir os juventinos putos da vida! Também Zetti ficou na minha memória.

Então chegou a era Rogério Ceni. Um belo goleiro que cresceu, se firmou, até virar ídolo dos são-paulinos. Sempre foi uma figura isolada, porque isolados são os goleiros em seu quadrado, mas é acusado de falta de companheirismo com os colegas. Em suas memórias Rogério cita o episódio em que ficou fora de si quando a turma veio cortar o cabelo dele, uma brincadeira comum. Boba, reconheço. Bastou para ele: "Minha viagem com a seleção de 1997 acabou ali". Via filmes no quarto, almoçava rápido, não tinha contatos com a maioria. "Só conversava o básico necessário e, mesmo assim, apenas com os mais chegados." O que vejo nele é ausência de emoção.

Pergunto-me: de que matéria Rogério é feito? Essa imagem é formada, estudada, produto de marketing, ou ele é assim? O cronista Antero Greco é o anteparo de minhas reações raivosas contra Rogério cada vez que ele manda e desmanda no time. Tenta me conter: "O homem é craque". Meu cunhado, Helio Ziskind, que escreveu uma bela história musicada do São Paulo, não assiste a jogos do time ao meu lado sem brigar; ele é pró-Rogério.

Estranha personalidade. Suscita ódio e fanatismo. Não gosto dele. Será porque tenho 1,70 m, sou fraco e um dia sonhei voar de uma trave a outra como King ou Gilmar dos Santos Neves? Sei lá. Só espero o dia em que você, Rogério, vai levar um frango, fazendo aquele tique de morder os lábios, o que mostra sua tensão. Você tem me dado poucas alegrias (quando falha); muitas tristezas (quando acerta). Não posso fazer nada. Você também não, nem me conhece.

Ignácio de Loyola Brandão é escritor, colunista do 'Estado', torcedor da Ferroviária. Autor, entre outros, de 'São Paulo Futebol Clube - Saga de um campeão'

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