ELENA SEIBERT
ELENA SEIBERT

Romance aborda adaptação dos índios americanos na Califórnia

Para o autor de 'Lá Não Existe Lá', Tommy Orange, viver na natureza não é essencial para um nativo, mas sim a consciência de uma cultura ancestral

Faustino da Rocha Rodrigues*, Especial para o Estado

26 de janeiro de 2019 | 16h00

Hip-hop, Radiohead, Facebook, Smartphones, Burger King... Falar de índios na sociedade norte-americana significa expor tudo isso. Fica, então, a questão: é possível conferir tal peso a elementos tão contemporâneos sem desconsiderar o dado tradicional constituinte das identidades dos mais distintos povos indígenas dos EUA?

Tommy Orange aposta que sim. O argumento de Lá Não Existe Lá centra-se na vida do indígena norte-americano e seu processo de integração urbana na Califórnia. A obra expõe debates em torno da questão de identidade, da definição de minorias, bem como seu lugar diante do que se encontra previamente já estabelecido. 

O tema é espinhoso. Orange sabe disso. Opta por não apelar para o conforto do politicamente correto a conferir ao leitor algo como uma perigosa lição de vida, tendente a contribuir com a impressão de espontânea diluição dos conflitos sociais. Lá Não Existe Lá prefere semear o questionamento quanto ao lugar ocupado por cada um, bem como sua respectiva responsabilidade na sustentação dos embates gerados pelo processo de socialização das minorias. 

O livro de Orange pulsa ao eleger personagens indígenas de Oakland, Califórnia – local de origem do autor, mas, isolados fragmentos da obra, pode-se confundir o relato do cotidiano dos nativos como de um norte-americano branco qualquer. Eis uma aproximação de antípodas. O diferencial intencionalmente produzido, neste caso, se faz notável por meio do abuso dos artifícios narrativos a promoverem um jogo entre o leitor e a história, conferindo-lhe conhecimento e empatia quanto aos fatos. 

Lá Não Existe Lá está organizado em inúmeros capítulos cujos títulos são os nomes de seus protagonistas, sempre indígenas urbanizados – porém, não necessariamente integrados. Ao todo, são 12 personagens na trama, revelando singularidades à medida em que suas vidas são relatadas em uma narrativa veloz, porém, profunda. 

A destreza de Orange, ao narrar a história, o faz passar da clássica onisciência da terceira pessoa à introspecção da primeira com relativa facilidade. Logo, tem-se tanto a descrição do ambiente, com o relato da construção de sua condição geralmente precária – em se tratando de minorias em busca de espaço na sociedade –, como a percepção do impacto de tal condição na construção das personalidades com a sua profunda e peculiar análise da situação em que se encontra. E, para este último caso, é interessante perceber como que, a despeito do inevitável risco de se cair em uma homogeneização das personagens, o autor consegue diferenciá-los, fundamentalmente por meio da criação de linguagens próprias – abusando de gírias, no caso de Octavio, ou sendo mais contido, no caso de Opal. 

Por conseguinte, é engano pensar que as histórias possam ser lidas separadamente. Não são contos isolados e nem devem ser vistos como tal. Orange tem o cuidado de conferir ao atento leitor a permanente impressão de que, a cada capítulo, algo não se encontra resolvido – como quando relata o reencontro de Jackie Red Feather com Harvey e sua viagem pelo deserto. Isso porque as circunstâncias sociais são pungentes ao ponto de, no final de cada capítulo, sugerir ao leitor o questionamento: “e agora?”. Quem lê sempre espera o passo seguinte. 

E tudo conflui para o desfecho, narrado em terceira pessoa. O ambiente, o Powwow, festa indígena de celebração das diversas tradições, é ponto de encontro das personagens. Ali, sim, a situação se abre em um final para cada. E, novamente, isso fica claro ao evidenciar o diferencial narrativo, sublinhando o conhecimento do narrador quanto aos fatos. 

Mas, antes disso, um detalhe ainda se mostra mais interessante, realçando o vigor e novidade da obra. Como interlúdio entre a forma como as personagens são trabalhadas, suas vidas e condição social, e o desfecho típico dos grandes romances da literatura norte-americana na quarta parte, há um capítulo narrado em segunda pessoa. Sendo um dos mais longos, é intitulado Thomas Frank, em remissão à sua personagem, índio, músico, alcoólatra, sem emprego fixo. 

Recentemente, Chimamanda Ngozi Adichie, em No Seu Pescoço, também utilizou a segunda pessoa como recurso narrativo. Orange, ao fazer o mesmo, diante de tudo o que foi trabalhado, no que toca às circunstâncias da vida do índio urbano norte-americano em busca de sua integração social, confere voz ao leitor, tirando-lhe de uma eventual passividade. Isso porque, neste momento, o leitor é alguém munido de informações que, a partir de então, apresenta o mundo à personagem em questão, Thomas Frank. 

Diante desse quadro, Orange confere poder a quem lê, como se dissesse a Thomas Frank “você é alcoólatra por conta disso”, ou “você está novamente desempregado por conta daquilo outro”. Enfim, por este princípio, é o leitor quem classifica a personagem como índio urbanizado. 

Nota-se como o trabalho de Orange é mais do que relato com ares de denúncia. Ele mune o leitor de informação e capacidade de discernimento, conferindo-lhe, inclusive, possibilidade de interpretação – e responsabilidade nessa interpretação. Tal recurso é valioso, ainda mais quando se pensa no que foi dito no princípio desta resenha quanto à ideia de um índio urbanizado. 

A evidente preocupação de Orange é exposta de diversas formas, entre elas, por meio de falas de personagens, como “Índio se fantasiar de índio”. A partir disso, diante do esforço de caracterização do ambiente urbano, presente em toda a obra, fica impossível para qualquer um tomar o indígena como alguém estereotipado, de penachos, corpo pintado etc. Não é mais a geografia, o fato de viver em floresta ou reservas, que o definem. A consciência quanto à tradição, à existência de uma cultura, se mostra como requisito essencial. E é a partir daí que se deve discutir a integração social e o lugar do indígena na sociedade norte-americana. 

Lony, uma das personagens, diz: “A gente não pode só inventar os nossos próprios costumes.” Não. Eles estão presentes de modo irrevogável. Constituem suas personalidades que, por sua vez, encontram-se abertas. Tommy Orange quer que o leitor veja como elas se abrem, dando-lhe consciência e redimensionando a importância da discussão. E, ao fazer isso, quer abrir o leitor. Lá Não Existe Lá surge como leitura obrigatória. Não poupa ninguém, nem mesmo quem o lê. 

*FAUSTINO DA ROCHA RODRIGUES É JORNALISTA, CIENTISTA SOCIAL E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.