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Romance acompanha os caminhos de dois imigrantes sírios em 2017

Em ‘No Land to Light On’, marido e mulher enfrentam a dura política de imigração americana

Wendy Smith, The Washington Post

06 de janeiro de 2022 | 10h00

O segundo romance de Yara Zgheib revisita os velhos tempos de 2017 e mergulha nas manchetes para contar uma história pessoal dolorosa: os caminhos de dois imigrantes sírios dilacerados pela regra que proibiu viagens de certos países aos Estados Unidos. No Land to Light On mostra a maneira vergonhosa como os Estados Unidos negaram as responsabilidades de seu status de símbolo da liberdade e da esperança para pessoas desesperadas de todo o mundo. Mas não se trata simplesmente de um romance de protesto. Com prosa elegante, Zgheib é hábil em misturar as memórias de seus protagonistas com um relato desesperador de sua provação naquele ano de 2017 para criar uma narrativa rica em metáforas e personagens complexos e verossímeis.

Sama Zayat deixa Damasco em 2010 para estudar antropologia em Harvard e escapar da vida restrita que prevê para si mesma na Síria. Na América, acredita ela, poderá ser “leve e cosmopolita, uma peregrina em turnê pelo mundo, sem amarras atadas à terra, à casa... pronta para alçar voo”.

Hadi Deeb chega a Boston em 2015, três anos depois da erupção da brutal guerra civil na Síria. Preso como inimigo do regime, ele aparece para ouvir sua mãe lhe dizer: “Vá e não se atreva a voltar (...). Eu não vou, eu não vou enterrar meu filho”. Dentro de um acampamento das Nações Unidas na Jordânia, ele consegue um advogado de Boston e o status legal de refugiado.

Ele se apaixona por Sama no primeiro encontro, e eles se casam quatro meses depois. Não são poucas as tensões – Hadi é assombrado pela agonia da Síria, Sama o exorta a deixar o passado para trás – mas eles ficam felizes e emocionados quando ela engravida.

As lembranças daqueles dias felizes, quando o casal acreditava estar construindo uma nova vida na América, marcam um contraste amargo com as cenas sombrias do aeroporto Logan, em Boston, onde Hadi pousa após enterrar seu pai no exterior. É o primeiro dia das restrições de viagem, e o aeroporto está cercado por manifestantes e policiais.

Sama, agora com 28 semanas de gravidez, mal consegue ficar de pé no meio da multidão alvoroçada. Seu telefone toca. É Hadi, que foi detido e teve o passaporte apreendido. Antes que ela pudesse ouvir qualquer outra palavra, um espasmo de dor a joga no chão. Ela é levada ao hospital, e uma rápida mudança de cena nos leva à sala sem relógio e nem janelas onde Hadi e umas quarenta pessoas estão presos, com os telefones confiscados. Quando ele exige falar com o advogado e ligar para a esposa, a resposta é: “Senhor, vou ter que pedir que se acalme, senão vou ter que contê-lo”. Esse policial não se comove ao saber que seu pai morrera em Amã um dia antes da entrevista para os vistos americanos. Hadi estava trabalhando para ver seus pais havia dois anos. “O Estado Islâmico recruta muitos sírios na Jordânia”, ele comenta.

Ludibriado a assinar um formulário que diz que ele está saindo voluntariamente, Hadi é deportado para Amã. Ele recebe o passaporte e o telefone de volta quando chega, fala com Sama e fica sabendo que seu filho havia nascido. Como eles tinham combinado, Sama o chama de Naseem, “brisa leve” em árabe: “Queríamos um nome tão claro e vasto quanto este país, que é seu por direito de nascença, nosso por escolha, por desejo, por necessidade, por esperança”. Mas sua esperança vacila à medida que diminuem as perspectivas de Hadi retornar legalmente aos Estados Unidos e que seu filho perigosamente prematuro luta pela sobrevivência. As diferenças entre marido e mulher, normais e administráveis quando viviam juntos, ameaçam se alargar num abismo criado pela ausência e pela incerteza.

Os funcionários do aeroporto não são os únicos representantes do governo insensíveis em No Land to Light On, mas sua atitude de apenas seguir as regras é equilibrada por relatos de americanos receptivos e solidários: o advogado que leva Hadi para casa; o médico que cuida de Sama e Naseem enquanto o bebê vai melhorando sob seus cuidados; o professor de Sama, também imigrante, que entende os sacrifícios feitos para vir a um novo país e a incentiva a perseverar.

O final fascinantemente aberto, agitado por decisões que Hadi e Sama se veem na obrigação de tomar, com certeza vai alimentar o debate entre os leitores. É um desfecho adequado para um romance atento às ambiguidades da experiência dos americanos e dos imigrantes. Hadi não está errado em concluir que fora um tolo por confiar na promessa da América: “Algo que eu acreditava inquebrável, algo em que acreditei a vida toda, em que apostei minha vida”. Mas Zgheib dá ao professor de Sama uma eloquente visão alternativa: “Este é um país muito jovem. Tenho esperança. Acho que é maior do que as pessoas pensam”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

SERVIÇO 

No Land to Light On 

Autora: Yara Zgheib

Editora: Atria

304 páginas

US $26 (livro) 

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