Acervo familiar
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Romance centenário de Júlia Lopes de Almeida é redescoberto

'A Falência' retrata a ascensão e decadência do café e a luta pela emancipação feminina

José Castello*, Especial para o Estado

18 de maio de 2019 | 16h00

Motivos dispersos e em geral nebulosos levam importantes escritores, apesar de seu talento, a um injusto esquecimento. As leis do mercado literário costumam ser draconianas. A pressão, ou o descaso das modas, da crítica, da imprensa literária se torna, muitas vezes, insuportável. Ainda assim, existem mais coisas a pensar no caso de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), de quem a Penguin, a Martin Claret e a Via Leitura relançam agora o romance A Falência, de 1919, seu livro mais celebrado, embora bastante esquecido também. Júlia nele trabalhou ao longo de 15 anos. O romance traça dois importantes retratos: da ascensão e decadência do café – expresso na vida do comerciante Francisco Teodoro –; e da luta persistente das mulheres brasileiras pela emancipação – encarnada em sua esposa, a frágil, mas determinada, Camila, com quem ele se casa no ano de 1891. Desenha, por fim, um painel vigoroso da burguesia brasileira na virada dos séculos 19 para 20. Carrega, assim, temas de difícil digestão para a intelectualidade da República Velha – o conturbado período da história brasileira em que foi escrito. 

Filha de portugueses emigrados e casada com o poeta e dramaturgo português Filinto de Almeida (1857-1945), que viveu e morreu no Rio de Janeiro e chegou a ser membro da Academia Brasileira de Letras, Júlia Lopes de Almeida carrega em seu estilo – lento, minucioso, armado sobre hábeis diálogos – uma indisfarçável herança lusitana. Também o tema da falência tem, no caso de seu livro, um duplo significado: refere-se não apenas à interrupção de funcionamento da Casa Teodoro, origem da riqueza do protagonista, mas também ao esgotamento de um modelo familiar, que decai, se desmonta e, enfim, morre. Fala, sobretudo, do nascimento de uma nova condição feminina, mais autônoma, corajosa, dona de seus atos, embora também de suas perdas, a se transformar, por fim, em sujeito de sua história, e não mais em simples objeto do amor masculino.

Camila, a personagem central, é uma mulher cheia de contradições, com a alma cindida em impasses insolúveis, mas, por isso mesmo, fértil e sábia. Ela divide seu coração com um amante, certo Dr. Gervásio, não um desconhecido qualquer, mas um médico pernóstico e presunçoso, amigo íntimo de seu marido. Assim, é no coração da própria família – sem que Teodoro nada suspeite, e isso até o fim –, que a cisão se instala. Não se pode pensar em Camila sem essa alma dividida, sem esse conflito fundador. Mário, o filho mais velho, descobre o amor secreto da mãe por Gervásio e, insatisfeito, se distancia dos pais, entregando-se primeiro a amantes sem significado e, por fim, à rica Paquita. Sua presença, mas também sua ausência, são um sintoma da crise que corrói a família e que, de resto, abala e desfigura todo um modelo familiar. Ao expor essa intimidade em guerra, a corajosa Júlia Lopes de Almeida não só enfrenta, mas denuncia algumas das mais graves injustiças de sua época.

Ruth, a irmã do meio, usa a arte como fuga: dedica-se ao violino e à poesia e, com isso, paira acima das turbulências do real. Mais novas, as gêmeas Lia e Raquel têm papéis secundários. À sua frente, impõe-se a figura de Nina, sobrinha de Camila, que serve como governanta da casa e que, depois da morte trágica de Teodoro, lhes dará abrigo em uma pequena casa de subúrbio que recebeu de herança. Nina, aliás, também sofre com os desencontros do amor: nutre uma paixão nunca resolvida por Mário, o filho mais velho. Temos, por fim, como discreto personagem de fundo, a própria cidade do Rio de Janeiro na virada do século 20. “O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosfera”, é dito logo nas primeiras linhas. Era do apogeu do café: “Os armazéns, pelas bocas negras das suas portas escancaradas, vomitavam ainda sacas e sacas de café”. Uma sociedade dedicada à luta pelo crescimento, como Júlia, alguns capítulos à frente, resume: “Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções fragorosos abalavam os paralelepípedos, ameaçando esmagar tudo o que topassem adiante”. É nessa sociedade obcecada pelo progresso material que a desprotegida Camila vive seu drama íntimo.

O amor súbito pelo doutor Gervásio leva Camila a refletir sobre a condição da mulher, em uma época na qual tudo a ela era adverso. “Compreendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem para a dor. Colhem rosas as insensíveis, que vivem eternamente na doce paz; para as outras há pedras”. Ao drama de Camila corresponde a falência econômica de Teodoro: de um lado, um coração rachado, de outro uma empresa destruída. Cresce também entre os homens a desconfiança em relação à figura feminina. Enquanto Teodoro ainda defende uma mulher idealizada e casta, o amigo e rival Gervásio o corrige: “Elas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a elas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana com uma arte capaz de endoidecer o próprio Mefistófeles”. O tema de fundo de A Falência é a ruína, não apenas a degradação material, mas o desmoronamento de velhas crenças e superstições.

Quando a falência material se instala, todo o cenário está em frangalhos. “Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força. Quinze dias mais tarde anunciava-se o fim de tudo – a grande Casa Teodoro teve que declarar falência”. As feridas, até ali escondidas sob precárias ataduras, enfim se abrem. Agora, sob o chiar das cigarras, Camila sente essa destruição dentro de seu próprio lar. Já sem Teodoro – que preferiu a morte –, ela constata: “A família espalhava-se ao bruto pontapé da pobreza: uns para aqui, outros para acolá... Que imprevistas soluções tem a vida!” No fecho do romance, ainda sem entender o que lhe aconteceu, recorre à providência divina: “Senhor, que haveria no mundo para salvação das almas doloridas?” Um ciclo se encerrou. Não só a família é outra, mas o país também é outro. Resta partir dos destroços e do sofrimento para construir um novo caminho. 

*JOSÉ CASTELLO É JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PELA UFRJ E ESCRITOR. AUTOR DE 'RIBAMAR' (BERTRAND BRASIL)

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