Marc Ferrez/IMS
Marc Ferrez/IMS

Romance de 1912 faz sátira sobre a elite paulistana da época

'Gente Rica', de José Agudo, ganha nova edição em momento oportuno

Elias Thomé Saliba*, Especial para o Estadão

16 de outubro de 2021 | 15h00

O modernismo de 1922 comemora o seu centenário e, em tempos tão tristes, nada melhor do que rever o papel dinâmico que tal movimento desencadeou na cultura brasileira. Mas na História, comemorações funcionam como aqueles holofotes giratórios, iluminando alguns personagens e obras e deixando outras na sombra ou na escuridão do passado. Muito oportuno, portanto, o lançamento de Gente Rica; cenas da vida paulistana, o primeiro romance de José Agudo, publicado em 1912 – agora em caprichada edição, acompanhada de posfácio de Walnice Nogueira Galvão. Completamente ausente das histórias literárias e, quando presente, visto apenas como um escritor menor, Agudo foi mais do que um competente professor da Escola de Comércio Alvares Penteado, português de nascimento, de nome Joseé da Costa Sampaio que, escolheu seu pseudônimo já como uma paródia do escritor português de cognome João Grave. Entre 1912 e 1919, Agudo publicou sete romances, todos com histórias que tinham por cenário a São Paulo daquela época. 

Definido pelo escritor como uma “epopeia da abastança”, Gente Rica é uma sátira folhetinesca às elites paulistas e uma crônica alegre de alguns lugares característicos do centro paulistano. São vários personagens que circulam pelos lugares da afluente sociabilidade paulistana, como o Café Guarany, a confeitaria Castelões, a Rotisserie Sporstsman, o Teatro Santana – além das ruas, todas delimitadas pelo popularmente chamado “Triângulo”, formado pelas ruas 15 de Novembro, São Bento e Direita. Lugares que o leitor pode revisitar, sobretudo a partir das raríssimas fotos reproduzidas no livro. Mais raras ainda porque, cabe lembrar, alguns destes edifícios acabaram destruídos pelo bombardeio da cidade em 1924. 

O personagem principal é Juvenal de Faria, “paulista da gema”, neto de descendentes diretos de Fernão Dias Paes Leme e bisneto do tenente Francisco Bueno Garcia Leme, descrito por Agudo como “um dos 30 felizes membros que testemunharam o célebre desarranjo intestinal do príncipe regente, ocorrido na tarde do não menos célebre 7 de setembro”. Apesar das origens, trata-se de um personagem absolutamente extravagante: abominava suas origens aristocráticas, e envergonhava-se de ser forçado a “honrar- se de ser neto ou bisneto de bandidos e ladrões”. Quase como um alter-ego do próprio escritor, cujo cognome popular era Juvenal Paulista, é um verdadeiro clown, um um observador irreverente por natureza, da cidade de São Paulo, designando o Guarany como “o café dos bacharéis em perspectiva” e a Rottisserie como “o lugar mais apropriado da cropofilia intelectual”. Mas é ele quem vai propor a todos os amigos figurões a criação de uma “Mútua”(algo equivalente a um fundo de investimentos) e depois o Showing Club - uma evidente ferramenta de ostentação narcisista da elite - embora a quilômetros de distância do autentico “show de egos” das mídias atuais. Todos os outros personagens, pretendentes a sócios do Showing Club, são caricaturas verbais, nos quais se acentuam os contrastes entre a ambição arrivista e a rea- lização de objetivos prosaicos, que beiram o ridículo. O comendador Julio Marcondes é o exemplo típico: “genuíno paulista descendente de Aimberé”, que conseguira ascender socialmente graças a um “bom casamento”, tinha três projetos em mente: transformar a Várzea do Carmo num imenso parque de diversões; bater o record na aquisição de gravatas e ser diretor de todas as mútuas existentes em São Paulo. 

Entre as inúmeras outras figuras, cada uma com a narrativa das suas risíveis idiossincrasias pessoais, Gente Rica acaba por se constituir assim, segundo os desígnios de Agudo, num elogio da riqueza – mas é um elogio desmedido, de exagerada e hiperbólica ironia, prevalecendo o intuito cômico ou até mesmo humorístico, já que Agudo parecia dominar, como poucos, algumas das modernas estratégias de distanciamento, quando, por exemplo, antes do final da trama romanesca, ele confidenciava ao leitor: “E o fato de convivermos durante mais de treze meses com doze ou treze personagens, sem ter morrido nenhum deles, não é também digno de ser admirado? Não houve um só assassinato, um só suicídio, nem sequer um só esmagamento por automóvel ou bonde electrico...” Essa atitude não será mesmo incomum aos restantes livros da série de “scenas da vida paulistana”. Seus romances tinham todas as características de folhetim humorístico, com lances confusos, troca constante de narradores mas, sobretudo, excessivas intervenções do autor que, certamente, quando não impacientavam os leitores, complicavam bastante a resolução dos episódios. Nada a estranhar a esse respeito, quando o próprio Agudo definia o gênero romance como “o realejo dos factos diversos” – referindo-se, com ironia, aos seus próprios livros, cujos capítulos – quando separados – nada perderiam se fossem publicados sob a forma de episódios semanais nos jornais. A definição do romance como “o realejo dos fatos diversos” revela a importância da crônica, do fait divers e da anedota, com sua causalidade revirada – na escrita de José Agudo. Lembre-se que vários analistas – a propósito de outros escritores - já chamaram a atenção para a “causalidade revirada” da anedota, do fait divers e da crônica diária, enfatizando o quanto tais gêneros são ricos de desvios narrativos, já que, em virtude de certos estereótipos, esperava-se uma coisa e é outra que aparece. É essa quebra de determinismo, essa invasão repentina do efêmero que talvez tenha levado José Agudo a revelar menos os seus dotes de romancista do que sua irreprimível vocação de cronista e humorista. 

Apesar de seus dotes, Agudo tornou-se mais um ilustre desconhecido no riquíssimo quadro cultural paulista daquela época. A razão mais visível é que seus escritos foram demasiado irreverentes, revelando uma ambiguidade que não era muito conveniente à construção da hegemonia paulista, sobretudo após a derrota da candidatura civilista em 1910. A outra razão é mais concreta e relaciona-se ao fato de Agudo provocar atritos e envolver-se em polêmicas logo após a publicação do seu primeiro livro, em 1912. Como aquela envolvendo a redação de O Pirralho – uma das mais importantes publicações semanais da época: em abril de 1913, quando o cronista José Agudo enviou o seu segundo livro – uma sátira aos intelectuais e escritores – intitulado Gente Audaz, à redação de O Pirralho. A resposta foi duríssima: “Porque Gente Audaz, não é romance, não é livro de filosofia nem de ciencia nem de critica, não é reunião de contos ou crônicas esparsas – é simplesmente uma vergonhosa declaração de amor próprio do autor de Gente Rica. E vamos confessar agora que o próprio sr. José Agudo seria capaz de tornar interessante um assunto réles como o que escolheu para Gente Audaz, se não fosse hoje um raté”. Quem escreveu isto foi um jovem de 23 anos, Oswald de Andrade, então diretor de O Pirralho e que se escondia sob o pseudônimo de Joachim da Terra. A polêmica é longa, ocupando duas edições do semanário–descambando para azedas ofensas pessoais e com um aviso de toda a redação, solidarizando-se com Oswald, ao definir a carta de insultos de José Agudo, como “carta de um negro boçal e talvez bêbado”. 

De qualquer forma, Agudo, como muitos de seus confrades irreverentes – como Juó Bananére e Moacyr Piza - já estava completamente à margem do grupo de literatos que iria se engajar na futura Semana de 22. É certo também que o professor da Escola de Comércio também não escondia o seu prazer por uma provocação, transcrevendo, nos anexos aos seus romances, inúmeras opiniões de escritores e jornalistas de outros estados, principalmente cariocas. Um desses elogios transcritos é feito nada mais nada menos que por Joaquim Osório Duque-Estrada, a futura bete noire dos modernistas, um escritor que também adorava uma boa contenda e que vivia quase sempre colérico – mais conhecido por seus terríveis apelidos jocosos: o percevejo suado ou Osório Tudo-Estraga. Insatisfeito com a provocação, Agudo ainda comete o deslize de dedicar um dos seus livros a Duque-Estrada, marcando sua obra como um estigma futuro que o afastaria para sempre dos escritores modernistas. Esta edição recupera, com justiça, um dos importantes livros de José Agudo, fazendo com que aquele comemorativo holofote giratório ilumine alguns dos outros lados esquecidos da cultura paulista.

*Elias Thomé Saliba é historiador, professor titular da USP e, autor, entre outros livros, de Raízes do Riso

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