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Romance de André Caramuru Aubert é uma introdução à poesia chinesa

Livro mescla aulas de um professor universitário com o envolvimento entre ele e uma aluna

Sérgio Medeiros*, Especial para o Estado

30 Junho 2018 | 16h00

Quem tiver a curiosidade de ler a história da poesia chinesa clássica não deixará de se surpreender com o número de poetas presos, banidos ou executados ao longo dos séculos. Considerada a terra dos poetas, a China antiga permitiu que numerosos deles, entre os maiores, como o celebrado Li Po (Li Bai, na grafia mais atual), morressem na pobreza, embora outros, como Wang Wei, tenham desfrutado de uma situação econômica confortável no seio do Império. Junto com Du Fu (Tu Fu), os dois poetas citados formam o trio mais sagrado da poesia chinesa: todos viveram e produziram durante a dinastia Tang (618-907 a.C.), considerada a era de ouro da poesia na China. 

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Numa conhecida parábola publicada em O Fazedor, Jorge Luis Borges narra a vida de um célebre poeta chinês que, ao recitar a sua obra-prima diante do Imperador Amarelo, mereceu simultaneamente a imortalidade e a morte. No fecho dessa visão exemplar da poesia chinesa clássica, a espada de ferro do carrasco sega a vida do poeta, mas, noutra versão do caso, também referida por Borges no mesmo texto, o poeta é apenas o escravo do imperador e morre como tal. 

Lendária, serena ou trágica, a vida dos poetas chineses tem exercido um fascínio inegável no Ocidente, sendo um estímulo, ainda hoje, para a criação dos mais diferentes tipos de textos que se propõem a celebrar ou discutir os versos que declamaram e escreveram. 

Recentemente, foi lançado no Brasil o romance Poesia Chinesa, de André Caramuru Aubert, que é, à sua maneira, uma introdução sucinta à poesia clássica chinesa. Um professor oferece um curso de pós-graduação sobre a poesia chinesa numa universidade brasileira, e o leitor acompanha, desde a primeira página do livro, a sua fala em sala de aula, transcrita tal qual. Que ninguém espere ler, porém, algo similar aos cursos ministrados por Roland Barthes no Collège de France, cujas notas foram publicados em fartos volumes saborosos, as quais revelam, como se verifica em A Preparação do Romance, tanto os temas de suas pesquisas quanto a sua forma magistral de dar aulas. 

O protagonista de Poesia Chinesa é um professor canastrão, além de poeta de pouco valor (há exemplos no livro de versos de sua autoria); conhece algo do assunto que se dispõe a ensinar, mas não se aprofunda em nada, mantendo o seu discurso num nível ginasiano. Nesse sentido, o romance de André Caramuru Aubert me lembrou vagamente Criação, de Gore Vidal, um tedioso best-seller que quis recriar o século 5 a.C., mas que não foi além da informação básica, reunida de forma incoerente. Confesso que não foi nada fácil ler até o fim o curso do professor brasileiro, pois a cada nova página o seu discurso se tornava mais vazio: “Ah, eu me lembrei de algo que deveria ter falado logo no começo, mas me esqueci: a poesia clássica chinesa permanece – e não é por outra razão que ela atraiu os modernos norte-americanos – incrivelmente universal e atual.” 

E quando ele, a seguir, precisa justificar o tipo de abordagem que fará, profere esta sensaboria: “E por que essa introdução histórica? Porque é obviamente importante que se conheçam os contextos políticos, filosóficos e religiosos em que a poesia chinesa foi escrita (embora sem isso seja possível, como eu disse, apreciá-la)”. O seu bordão pedagógico, anunciado logo na primeira aula, é previsível, como tudo, aliás, que ele diz de mais pessoal no romance: “Nada muito árido, não se preocupem.” 

Tudo parece inverossímil na faculdade onde o professor leciona. As suas aulas de pós-graduação não têm nível de pós-graduação, como é fácil comprovar, acompanhando o seu discurso. Pergunto-me se ele estaria qualificado para ministrar, até mesmo na graduação, um curso de introdução à poesia chinesa, já que a sua área de pesquisa é a poesia norte-americana. Resultado: esse mestre falastrão não é simpático nem sedutor (exceto paras os seus alunos, que são menos dotados do que ele), muito pelo contrário – é um tipo intelectualmente frágil que parece haver decorado uma apostila de divulgação. Veja-se este trecho: “Foi quando o budismo, a terceira grande matriz da cultura chinesa (depois do confucionismo e do taoismo), entrou na região, vindo da Índia”. O que vem a seguir só confirma que o romance não vai além dos lugares – comuns: o professor, que é casado, se envolve com uma aluna e leva uma surra tremenda do namorado dela, passando a usar muletas. 

Um dramalhão nem triste nem cômico. Poesia Chinesa é mesmo um romance? Um romance fake talvez? Diria que é um projeto de romance que seu autor não soube realizar. Não creio que seja uma sátira ao ensino da literatura chinesa no Brasil, pois esse não é o tom. O leitor, desnorteado, se conseguir atravessar as 300 páginas da obra, fará as mesmas perguntas que o protagonista se faz no fim: “Mas por quê? Agora? Hoje? Por quê?” 

*É poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC. Publicou 'Trio Pagão' e 'A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens', livros de poesia, e uma antologia de poemas de Yosa Buson sob o título 'A Borboleta e o Sino' 

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