Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Romance de Carlos Eduardo de Magalhães leva o leitor à 'capital do sertão'

'Petrolina' usa viagem familiar de carro para oferecer uma longa jornada musical à cidade pernambucana

Bruna Meneguetti*, Especial para O Estado de S. Paulo

17 Março 2018 | 16h00

Quem lê Petrolina, de Carlos Eduardo de Magalhães, pode não perceber, mas tem nas mãos uma grande estrada até a cidade nordestina que o autor afirma ser uma espécie de “capital do sertão”. Os olhos viajam de carro na história de Zeca, um pai “meio atrapalhado, que se fecha nele e precisa de um choque”, como descreve o literato em entrevista ao Aliás. Esse período de turbulência se dá justamente quando sua segunda ex-mulher, Teka, pede para levar um parente, o professor de música aposentado Oscar, em uma viagem de carro para Pernambuco. Além dele, os filhos Carmem e Pedro, provenientes dos seus casamentos frustrados, viajam junto, obrigando Zeca a conviver com três pessoas que mal conhece, embora seja pai de duas.

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É pelo fato de a história se passar em uma estrada, que o escritor teve a ideia de fazer um movimento contínuo no texto. “Eu viajo bastante de carro e é meio monótono, em regra não tem muita ocorrência”, elucida Magalhães. Isso se reflete na obra: os diálogos são separados por vírgulas, ao invés dos travessões usuais, enquanto os capítulos não são quebrados em seus momentos de maior tensão.

“Você folheia o livro e é um corpo só”, informa. Até mesmo o amadurecimento da relação de Zeca com os filhos ocorre neste ritmo. 

São impalpáveis os momentos exatos em que os vínculos afetivos se ampliam. A viagem para o “interior” se torna algo literal e figurado. No entanto, como em uma experiência do tipo, as informações coletadas durante o trajeto exigem que se chegue a um lugar para notá-las em retrospecto. Ou seja, o leitor é puxado de forma tão intensa para dentro da história que, muitas vezes, se vê finalizando uma etapa junto com o personagem, descobrindo que algo aconteceu ou estava em mudança, mas não havia sido percebido até então. Nesse sentido, quem lê se torna tão imerso quanto Zeca. “Eu queria fazer um protagonista só. Então, nada que os outros personagens pensam aparece”, esclarece Magalhães. 

No entanto, para ele, a verdadeira protagonista é a música, uma outra relação com as viagens de carro que usualmente são acompanhadas de canções. Dessa forma, a temática permeia a história, a começar pelo fato de que Zeca é músico, além de toda a locomoção até o nordeste acontecer porque Oscar decide pagar uma dívida justamente com um instrumentista chamado Sebastião, com quem tem uma ligação envolvendo a melodia La Catedral, do violonista paraguaio Agustín Barrios. Apresentada com cargas de afetividade diferentes ao longo da obra, esta canção passa por diversas gerações, como ocorreu com o autor. “Quando eu era pequeno, meu pai a tocava. Era uma música familiar, mas que não conhecia.” 

Ainda sobre o tema, Magalhães admite: “talvez os artistas que mais me influenciaram tenham sido músicos, do que propriamente escritores. Todos os meus livros têm uma coisa com a música”. Entre suas grandes inspirações, cita Caetano Veloso, Gilberto Gil, e, mais particularmente, Chico Buarque. “Acho que ele foi o artista mais importante na minha formação”, revela. 

Além das canções, o autor conta que acabou escolhendo alguns lugares-comuns em pontos centrais da obra. A ideia inicial era que a viagem fosse para uma cidade menor, algo que foi alterado por não ter componentes suficientes para formar a travessia, ao contrário de Petrolina. “Fiz várias viagens para lá e achei que essa tinha de ser também. Os livros geralmente acompanham a época em que estou. E há pessoas da minha geração que têm essa visão de vida”, explica dizendo como a relação do personagem com os filhos é muito mais horizontal do que vertical. “Acho que o escritor faz um diálogo com seu tempo e também com a alma humana. Então, é essa busca, tem um pouco das suas obsessões”, reflete. 

Questionado se tirou algumas de suas inspirações a partir da residência literária no Chennai Mathematical Institute, uma faculdade de matemática na Índia, onde conseguiu escrever dois terços das páginas totais de Petrolina, Magalhães afirma que “alguma coisa acaba pegando”, como a influência na profissão da personagem Teka. Matemática, a ex-mulher aparece como uma sombra na narrativa, tal como deve ser o papel do editor, segundo ele próprio, que é também um dos sócios da Grua, uma editora independente com foco em literatura nacional e novelas clássicas.

Como alguém que escreve e edita, Magalhães observa o momento literário brasileiro com olhos positivos. “Acho que existe um espaço hoje que não existia. Não sei onde tudo isso vai dar, porque o mercado não absorve. O que vende na livraria é pouco. Mas acho que acaba dando em alguma coisa, é muita gente produzindo”, defende. Para ele, o importante é se manter ativo e lançar. “Quando lança um livro, mata o projeto e parte para outro”, pontua, apesar de admitir: “um livro, para mim, sempre acaba conversando com o anterior.” Isso pode ser visto em Petrolina, que convergiu, entre outros aspectos, com Super-homem, Não-homem, Carol e os Invisíveis ao abordar o esgotamento das paixões. Em Petrolina, é perceptível o esgotamento da música, já no anterior ocorre um desencanto com a profissão. “Acho que existe isso, assim como os grandes amores, tenho a impressão de que muitas coisas acabam”, conclui. 

*Bruna Meneguetti é jornalista e escritora, autora de 'O Céu de Clarice' (Amazon) e coautora de 'Corações de Asfalto' (Patuá) 

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