Warner Bros.
Warner Bros.

Romance de Carson McCullers segue atual aos 80

Escrito em 1939, 'O Coração é um Caçador Solitário' já é um clássico, adaptado para o cinema e o teatro

Matheus Lopes Quirino , Especial para o Aliás

17 de dezembro de 2019 | 17h29

O senhor John Singer é um homem solitário. Depois que seu amigo Antonapoulos foi para o hospital psiquiátrico, ele saiu do apartamento em que viviam e resolveu recomeçar. Mudou-se para a casa dos Kelly, uma família cujos esforços para se manter e gerenciar a pensão demandam muito jogo de cintura da prole, dos pais e dos hóspedes. 

Nesse ambiente de chegadas e partidas se desenrola boa parte do romance O Coração é Um Caçador Solitário, de Carson McCullers. Com ele, aos 23 anos, a escritora norte-americana (1917-1967) alcançou grande repercussão. Finalizado há exatos 80 anos, em 1939, sua obra de estreia toca em temas espinhosos para a época – racismo, homossexualidade, antissemitismo – abordados de forma  corajosa. Após todos esses anos, O Coração é Um Caçador Solitário se mantém assustadoramente atual. 

À época do lançamento, o dramaturgo Tennessee Williams (1911-1983) e a escritora Dorothy Parker (1893-1967) se impressionam com o romance. “É uma leitura que você só consegue parar atirando o livro para bem longe”, escreveu a autora de Big Loira e Outras Histórias de Nova York. Williams arrematou: “Encontrei em seus escritos tamanha intensidade e nobreza de espírito como não tínhamos em nossa prosa desde Herman Melville”.

Em sua ficção, Carson McCullers retratou personagens à margem da sociedade, deu voz para anti-heróis. O fenômeno se repete em outros títulos da autora, como no folhetim publicado na revista Harper´s Bazaar, Reflexos Num Olho Dourado, e na seleta de contos A Balada do Café Triste. Em vida, ela publicou oito títulos.

A solidão paira sobre vias, ruelas, travessas, alamedas. Ela está dentro dos prédios, das casas, dos corações. Desajeitada, pálida e com transtornos mentais, a romancista foi alvo de bordoadas ao longo de toda a sua breve trajetória, envolvendo-se em polêmicas que a tornaram personagem de si mesma. 

Carson McCullers desfrutou de um coquetel que uniu fama, drogas, divórcio, desilusões amorosas, paixões não correspondidas. Ela se declarou para Greta Garbo, sendo rejeitada pela atriz de Grande Hotel. Apostava alto. McCullers, do tampo de uma mesa de mármore em sua casa em Nyack, perto de Nova York, dançou vertiginosamente com Marilyn Monroe, então esposa de Arthur Miller, durante um jantar na companhia do dramaturgo e da escritora dinamarquesa Isak Dinensen (Karen Blixen), em fevereiro de 1959. Casou-se duas vezes com o mesmo marido, Reeves McCullers, escritor de menor estatura, em ambos os sentidos.

Seu estilo de vida melancólico, somado à natureza transgressora de sua literatura, provocou personalidades que, outrora, Carson McCullers cativou. Já veterana, Parker, em entrevista de 1956, destilou fel sobre a colega ao jornalista Marion Capron, da Paris Review, “Carson costumava ser boa; hoje, no entanto, ela só fala de malucos”. 

No centro de seu romance está o senhor Singer, um homem alto, pálido, judeu, homossexual, surdo-mudo. Seus ouvidos são os que mais se prestam à escuta. Tornam-se depósitos de desabafos e confissões das personagens que cruzam seus caminhos. O homem parece perfeito e inabalável, leva consigo uma caneta para anotar inquietações, perguntas e respostas, quando os gestos não são suficientes para decifrar o que diz o coração.

McCullers fragmenta as angústias da alma humana (compartilha as suas, inclusive) expondo-as por meio de cinco personagens que dividem a narração por capítulo. Singer é um sujeito reservado e misterioso. No New York Café ele conhece Biff Brannon, um pequeno empresário. Ele vê no mudo uma potencial amizade que transpõe a camaradagem e, como acontece com os outros três personagens, transfigura-se em devoção.

Biff Brannon é um viúvo assombrado por pensamentos que o fazem questionar suas condutas morais. No New York Café, ele se aproxima também de Jake Blount, habitué casca-grossa do lugar, sujeito em constante peregrinação – seja ela geográfica ou sentimental.

Dos males que acometem Blount, o destempero e o alcoolismo cunham um retrato verossímil do forasteiro desiludido depois da Grande Depressão. Ele vaga pelas cidades fazendo bicos enquanto teme as turbulências da 2.ª Guerra e, de forma mordaz, critica o sistema capitalista e suas injustiças sociais, fazendo coro ao doutor Benedict Copeland.

McCullers mostra como Copeland, dono de um inglês impecável, é diferente dos outros negros. No entanto, ele é o elo entre duas realidades. Marxista, Copeland luta contra seus demônios internos familiares e constrói uma amizade inesperada com Singer, um homem branco. 

Quem também frequenta o New York Café é a pequena Mick Kelly, uma garota destemida, guiada pelas baladas que escuta na rua ou no rádio de Singer. Mick é masculinizada como o foi sua criadora. Nos tempos de escola, McCullers era chamada de freek – aos 13 anos, tinha 1,74 de altura. Confundida com os garotos e sempre entre eles, a escritora, ao longo da juventude, apropriou-se do termo andrógino, entre outros que lhe foram atribuídos ao longo da vida.

Nascida Lula Carson Smith, Carson McCullers projeta em Mick uma parte de si. Sua mãe, Marguerite Smith, surpreendeu-se quando, ao invés de Caruso, nasceu uma garota. Consternada em ver seu desejo de ter um filho pianista ir pelos ares, batizou a criança de Carson (um nome usualmente masculino). 

Mick sonha em ser pianista. A parte mais esperada do verão era aquele momento, “O mundo inteiro era aquela sinfonia, e Mick era pouca para ouvir tudo aquilo. A música deixou apenas aquela dor horrível dentro dela, e um vazio”. A menina sentou-se na escada e apoiou a cabeça nos joelhos. Foi para o mundo de dentro. Para ela, era como se existissem dois lugares – o mundo de dentro e o mundo de fora ”, escreve McCullers. 

Tudo o que sabemos sobre:
Carson McCullerslivro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.